Prelazia

Bispo responsável: Dom Erwin Krautler

Nascimento: 12/07/1939 -Koblach/ Áustria, ordenação

presbiteral: 03/07/1965 - Salzburg/ Áustria.

Sagrado bispo em 25/01/1981 - Altamira - Província

Eclesiástica Belém do Pará.

 

Endereço: Avenida João Pessoa, 1212 CEP 68371-040 - Centro, Altamira - Para - Brasil

 

Tel: 0055.0XX93.3515.1761 - Curia - 0055.0xx93.3515.2494

 

 

Características Gerais da Prelazia

A Prelazia do Xingu foi criada a 16/08/1934, pela Bula “Animarum Bonum Postulat” do Papa Pio XI, desmembrada da Arquidiocese de Belém do Pará e das então Prelazias de Santarém e Santíssima Conceição do Araguaia. Foi confiada pela Santa Sé aos cuidados da Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue de Cristo. 1º Administrador Apostólico: Dom Armando Bahlmann, OFM (1935). 2º Administrador Apostólico: Padre Clemente Geiger, CPPS (1935-1948). 1º Bispo Prelado: Dom Clemente Geiger, CPPS (1948 a 1971). 2º Bispo Prelado: Dom Eurico Krautler, CPPS (1971 a 1981).

 

Superfície: 368.086,0 KM²

População: 392.211 hab

Densidade Demográfica 1,1 hab/km² (baseado em dados do, IBGE - 2000)

 

 Mapa da Prelazia do Xingu

 

MunicípioS pertencentes: Altamira, Anapu, Bannach, Brasil Novo, Cumaru do Norte, Gurupá, Medicilândia, Ourilândia do Norte, Placas, Porto de Moz, São Félix do Xingu, Senador José Porfírio, Tucumã, Uruará, Vitória do Xingu.

 

A Prelazia do Xingu é formada por seis regiões pastorais:

Região Alto Xingu: Ourilândia do Norte, São Félix do Xingu e Tucumã;

Região Médio Xingu: Vitória e Souzel;

Região Baixo Xingu: Porto de Moz e Gurupá

Região Transamazônica Oeste: Brasil Novo, Medicilândia, Uruará e Placas;

Região Transamazônica Leste: Belo Monte e Anapu

Região de Altamira: Paróquia Sagrado Coração de Jesus, Áreas: Perpétuo Socorro e Imaculada Conceição

 

Os municípios de Cumaru do Norte e Bannach são atendidos pela Diocese de SS. Conceição do Araguaia.

 

A Prelazia possui três instâncias de decisão: Grande Assembléia do Povo de Deus no Xingu, Conselho de Pastoral e Coordenação de Pastoral.

 

 

Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos!

Vossa bondade seja conhecida de todos.

O Senhor está próximo.

Não vos inquieteis com nada; mas apresentai a Deus

todas as vossas necessidades

pela oração e pela súplica, em ação de graças.

Então a paz de Deus, que excede toda a compreensão,

guardará os vossos corações e pensamentos, em Cristo Jesus“

Fil 4,4-7

 

 

Irmãs e irmãos, Padres, religiosas e religiosos,

catequistas e dirigentes de comunidade,

Povo de Deus do Xingu,

 

Neste momento histórico para a Igreja do Xingu convido a todos a deixar-se inspirar pela recomendação de São Paulo Apóstolo aos Filipenses: a alegria no Senhor, a certeza da presença do Senhor em nosso meio como Deus-conosco, o apelo à bondade e misericórdia e, finalmente, a confiança em Deus “pela oração e pela súplica” e “em ação de graças”.

 

Seguindo o que pede o Direito Canônico (Can. 401 § 1) escrevi em 8 de julho de 2014, poucos dias antes de completar 75 anos de idade, uma carta ao Papa Francisco e apresentei-lhe a renúncia à minha missão de bispo do Xingu. Em resposta à essa minha carta, o Papa solicitou que continuasse no meu ministério de bispo da Prelazia do Xingu até a nomeação de um sucessor.

 

Desde então passou um ano e meio. Hoje, porém, dia 23 de dezembro de 2015, antevéspera do Santo Natal do Senhor, às 12 horas do Vaticano, 8 horas no Xingu, foi divulgada a esperada nomeação de quem me sucedo como bispo do Xingu. Em 81 anos de existência da Prelazia do Xingu será o quarto bispo após Dom Clemente, Dom Eurico e Dom Erwin.

 

Eis a íntegra da notícia:

 

O Santo Padre aceitou a renúncia ao governo pastoral da Prelazia do Xingu, apresentada por S. E. Dom Erwin Kräutler C.PP.S. em conformidade com o Cânon 401 § 1 do Direito Canônico.

 

 

 

O Papa nomeou bispo prelado do Xingu (Brasil) o Reverendo Padre

 

Frei João Muniz Alves, OFM,

até a presente data Guardião da Comunidade Franciscana de São Luís do Maranhão. O Reverendo Padre Frei João Muniz Alves, OFM, nasceu em 8 de janeiro de 1961 em Carema, município de Santa Rita, na arquidiocese de São Luís do Maranhão. Emitiu os primeiros votos religiosos na Ordem dos Frades Menores em 2 de fevereiro de 1986 e os votos solenes em 14 de janeiro de 1991. Foi ordenado sacerdote em 4 de setembro de 1993.“

 

 

Peço agora a todos os irmãos e irmãs que rezem pelo bispo eleito para que, com a graça de Deus, tenha a coragem e a energia necessárias para conduzir o Povo de Deus do Xingu que lhe é confiado.

 

Nas Preces Eucarísticas se rezará a partir desta data por “nosso bispo eleito João” Logicamente não é proibido acrescentar, se assim o quiserem, o meu nome como administrador apostólico e depois como bispo emérito, mas em primeiro lugar sempre se dirá o nome de meu sucessor.

 

Peço ainda que o novo bispo seja aceito de coração aberto por todos os fiéis para que, desde o início de seu pastoreio no Xingu possa sentir-se acolhido com alegria e gratidão.

 

Data e local da sagração episcopal de Frei João Muniz Alves OFM e de sua posse como bispo do Xingu serão comunicados tão logo que eu receba as respectivas informações.

 

Até o dia em que o novo bispo tomar posse o Papa me pede que continue à frente da Prelazia do Xingu como Administrador Apostólico.

 

Aproveito para desejar-lhes um Santo e Feliz Natal do Senhor e todas as bênçãos de Deus para 2016.

 

Que Deus sempre seja louvado e nossa Mãe Maria Santíssima!

 

Altamira, 23 de dezembro de 2015

 

Erwin Kräutler

Admin. Apostólico

 

Dom Erwin estará em Roma convidado para celebrar os 50 anos do „Pacto das Catacumbas“.

No dia 16 de novembro de 1965, há 50 anos, poucos dias antes do encerramento do Vaticano II, cerca de 40 padres conciliares celebraram uma Eucaristia nas Catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Depois dessa celebração, assinaram o "Pacto das Catacumbas".

O documento é um desafio aos "irmãos no Episcopado" a levar adiante uma "vida de pobreza", uma Igreja "serva e pobre", como sugerira o Papa João XXIII.

Os signatários – entre eles muitos brasileiros e latino-americanos, embora muitos outros aderiram ao pacto mais tarde – se comprometiam a viver em pobreza, a renunciar a todos os símbolos ou privilégios do poder e a pôr os pobres no centro do seu ministério pastoral. O texto teve uma forte influência sobre a Teologia da Libertação, que surgiria nos anos seguintes.

Um dos signatários e propositores do pacto foi Dom Helder Câmara. (Fonte: Rádio Vaticano )

Eis o texto.

Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre


Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:

  • a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
  • a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez oPapa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

  • esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles;
  • suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
  • procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
  • mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

Ajude-nos Deus a sermos fiéis.

Choro, não sei se é de raiva, de revolta ou de tristeza. Creio que é pelas três razões ao mesmo tempo. É um profundo pesar, uma dor compungente, dilacerante. Sinto-me como alguém que é açoitado sem dó e piedade. E é inocente. Depois da tortura, que adianta provar a inocência! Já está coberto de hematomas. 
E lá em cima, nos gabinetes confortáveis da capital federal, defendem a legalidade da destruição do Xingu. Invocam a tese do "interesse nacional“. 
Você pode imaginar o que significa para mim o afogamento da ilha Arapujá? Durante cinquenta anos a contemplei com carinho, sempre que a mirava (Alta-mira) da janela de meu quarto ou escritório na "rua da frente“. E oitenta anos atrás, já meus tios Eurico e Guilherme se encantaram com essa beleza!
É um pedaço de mim que agora vai para o fundo.
Erwin Kräutler
Bispo do Xingu

XXI ASSEMBLÉIA GERAL DO CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO

 


 

Relatório da Presidência do Cimi referente ao período 2014-2015


 

... qual dos três tornou-se próximo do homem

que caiu nas mãos dos assaltantes? –

Aquele que usou de misericórdia para com ele.”

Lc 10,36-37


 

I. Introdução

 

Tensões e preocupações, angústias e luto e, por cima de tudo, a indignação e revolta diante da inoperância, negligência e, muitas vezes, aberta omissão dos poderes constituídos caracterizam os anos 2014 e 2015. Os desafios são diários, não nos dão trégua, mas podemos afirmar que com a graça de Deus estivemos e estamos lado a lado com os povos indígenas no enfrentamento ao mais violento dos ataques aos seus direitos na história recente do país.

A razão profunda de todas as aversões e agressões de que os povos indígenas são vítimas é a discriminação sutil ou aberta que é sempre consequência de um desprezo aparentemente congênito de muitos em relação aos índios. Os congressistas em Brasília e grande parte da sociedade brasileira ainda não entranharam os parâmetros da Constituição de 1988 que consagra os direitos dos povos indígenas. Ao contrário, continuam em voga padrões ultrapassados de constituições anteriores à Constituição “cidadã” que defendiam a tese da “incorporação dos silvícolas à comunhão nacional”. No fundo é isso que os anti-indígenas de norte a sul querem: aplicar os parâmetros das antigas constituições nada “cidadãs“. Os índios têm que se tornar brasileiros “comuns“, tem que abdicar à sua identidade de pertencer a esse ou aquele povo. Índio tem que deixar de ser índio, tem que sair da aldeia, tem que largar sua maneira de ser, seus cocares e pinturas corporais para ser um brasileiro igual a todos. Seus artefatos e sua cultura ficam reduzidos a mero ingrediente folclórico nos desfiles de 7 de Setembro. Já que índio não produz, por que ainda ocupa terras da União e faz questão de defender sua alteridade? E tem que ser dito em bom e alto som que estas manifestações de desprezo disseminadas pelo país são puro racismo! E racismo é crime.

Essas atitudes ultrajantes muitas vezes já são cultivadas no seio da família, na ideia que os pais têm de índio e transmitem aos filhos desde cedo. Se para os pais os índios são “bugres” ou “caboclos”, “selvagens” ou reminiscências “da idade da pedra lascada”, quem vai evitar que os filhos tenham a mesma compreensão? Grande parte do material didático de nossas escolas tem que ser revisado. A verdadeira história do Brasil precisa ser contada não do ponto de vista dos conquistadores, dos que “descobriram” e dominaram a Terra de Santa Cruz, mas do ponto de vista das vítimas que são em primeiro lugar os povos indígenas e depois os negros trazidos como escravos da mãe África. Penso que também em nível universitário se deve implantar uma disciplina específica sobre os povos indígenas e fazer pesquisas para recuperar o grande acervo cultural que os povos autóctones compõem. “O Brasil não tem ideia da riqueza humana e cultural que se perde ao insistir em uma política que não se cansa de tentar transformar índios em pobres, ‘integrados’ às levas de marginalizados que ocupam as periferias das grandes cidades” escreveram Maria Rita Kehl e Daniel Pierri por ocasião do Dia do Índio, 19 de abril de 2015, na Folha de São Paulo.

Lamentavelmente, um anti-indigenismo mais forte ainda domina os setores político-econômicos no âmbito dos Três Poderes da República com o objetivo de implementar ações estruturantes e sistemáticas contra esses povos.

No Legislativo, as proposições que visam bloquear o acesso dos povos indígenas aos direitos fundamentais, tais como à terra tradicional e a um ambiente protegido e equilibrado, conduzem inevitavelmente a graves violações. Neste contexto, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/2000 e o Projeto de Lei 1610/96 são as principais armas manejadas pela bancada ruralista e da mineração. Ainda bem que os povos indígenas não ficam parados e quietos. Continuamente se fazem presentes junto ao Congresso Nacional defendendo com toda veemência os seus direitos constitucionais para evitar retrocessos históricos.

No Executivo, a paralisação dos procedimentos de demarcação das terras indígenas impera como “decisão de governo”. Mesmo havendo ao menos trinta procedimentos de demarcação sem qualquer impedimento técnico ou jurídico, a presidente Dilma Rousseff e seus ministros se negam a dar seguimento regular aos processos e impedem que o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) cumpra sua responsabilidade constitucional de demarcar as terras.

No Judiciário, decisões tomadas no âmbito da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) descaracterizam o Artigo 231 da Constituição Federal através de uma reinterpretação fundamentalista e radicalmente restritiva quanto ao conceito de terra tradicionalmente ocupada pelos povos. Tais decisões anularam atos administrativos do Poder Executivo de demarcação das terras Guyraroká, do povo Guarani-Kaiowá e Limão Verde, do povo Terena, ambos no Mato Grosso do Sul, e Porquinhos, do povo Canela-Apãniekra, no Maranhão, sob a justificativa de que tais terras não seriam tradicionalmente ocupadas pelos índios.

O conjunto de ações implementadas pelos Três Poderes do Estado brasileiro contribui direta e organicamente para o aprofundamento e a legitimação do processo de violações e violências contra os povos indígenas no Brasil.

A resistência e a luta indígenas na defesa de seus projetos próprios de vida e o envolvimento e o apoio de seus aliados na sociedade civil têm por finalidade exigir do Congresso Nacional que rejeite a PEC 215 e não dê prosseguimento às outras iniciativas anti-indígenas. Insistem categoricamente junto ao governo Dilma que cumpra sua obrigação constitucional de demarcar as terras indígenas. Intentam ainda que o Pleno do STF reveja as decisões tomadas no âmbito da sua 2ª Turma para apagar os rastros de violências contra os povos indígenas no Brasil.

A presença de cada missionário e missionária junto aos povos indígenas tem sido fundamental e contribuído sobremaneira na animação e mobilização dos povos, elemento central para evitar os retrocessos almejados pelos seus inimigos.

E foi nesses momentos de presença solidária, especialmente quando nos damos conta da grande resistência e da capacidade de mobilização e articulação deles, que vivemos também, ao longo destes últimos dois anos, momentos de imensa alegria e realização pessoal e institucional.


 

II. Algumas frentes de atuação do Cimi

Cabe aqui um agradecimento especial aos nossos conselheiros e conselheiras que com grande zelo e generoso empenho conduzem os trabalhos do Cimi nos regionais, sempre articulados e em sintonia com a Diretoria e o Secretariado Nacional. Do mesmo jeito digo hoje: O que seria o Cimi sem os assessores e assessoras, funcionários e funcionárias? Sou-lhes muito grato pelo empenho e engajamento em favor da causa indígena.

Destaco agora, de forma mais pontualizada, alguns aspectos de nosso trabalho que demonstram esta comunhão em âmbito nacional:

  1. Análises de Conjuntura e Notas de Opinião do Cimi: produzimos e socializamos seis análises de conjuntura e quinze notas públicas com posicionamento político do Cimi acerca de temas de interesse dos povos indígenas no Brasil.

  2. Apoio à luta dos Povos Indígenas: contribuímos além do envolvimento permanente das equipes de base e regionais do Cimi com nosso apoio às inúmeras mobilizações indígenas em defesa de seus direitos e projetos de vida, com serviços de articulação, visibilização e assessoria a cerca de sessenta delegações de lideranças indígenas de todas as regiões do país, em Brasília, em audiências e ações políticas junto a instâncias diversas dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

  3. Ações institucionais em defesa dos direitos dos povos indígenas: além do apoio às iniciativas dos próprios povos indígenas, assumimos institucionalmente a defesa de seus interesses em pelo menos setenta audiências com deputados federais, senadores e procuradores da república, ministros de Estado e do Supremo Tribunal Federal e outras autoridades do Estado Brasileiro. Por meio de nossa assessoria jurídica atuamos em vinte e cinco processos judiciais na defesa de lideranças, comunidades e povos indígenas. Merecem um destaque especial, os casos das Terras Indígenas Guyraroká e Limão Verde, dos povos Guarani Kaiowá e Terena, do estado do Mato Grosso do Sul, e da Terra Indígena Porquinhos, do povo Canela-Apanyekraá, do estado do Maranhão.

  4. Participação e assessoria a lideranças indígenas em instâncias de controle social e políticas públicas: mantivemos e conquistamos espaços de representação institucional e participamos ativamente na Comissão Intersetorial de Saúde Indígena (CISI), Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena (CNEEI), Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), Comissão Organizadora Nacional da 1ª Conferência Nacional de Política Indigenista. Participamos de reuniões e contribuímos com o Programa de Defensores de Direitos Humanos. Destaco a eleição do Cimi pelas organizações da sociedade civil para ocupar como titular um dos assentos no Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH).

  5. Incidência Internacional: ocupamos espaço, fizemos denúncias e viabilizamos a participação de lideranças indígenas em instâncias internacionais, tais como: Fórum Permanente das Nações Unidas para os Direitos dos Povos Indígenas em Nova York (maio 2014 e abril de 2015); Conselho de Direitos Humanos da ONU, para divulgação do Relatório de Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, em Genebra (setembro de 2014 e setembro de 2015); reuniões com europarlamentares e comissões do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia, em Bruxelas (outubro de 2014); Fórum das Nações Unidas para o Diálogo entre empresas e Direitos Humanos, especialmente quanto aos direitos da mulher indígena, em Genebra (dezembro de 2014).

  6. Publicações: merecem destaque as seguintes publicações: duas edições do “Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil” (2013 e 2014); versão em inglês do “Relatório de Violência contra os Povos Indígenas no Brasil” (2015); “Por uma Educação Descolonial e Libertadora: Manifesto sobre a Educação Escolar Indígena no Brasil (2014); “Empreendimentos que Impactam Terras Indígenas (2014); 4ª edição do “Plano Pastoral do Cimi”, com subsídio Catequese e sobre a Encíclica “Laudato Si’” (2015).

  7. Atuação em âmbito eclesial: o Cimi se fez presente nos espaços de reflexão, debates e discussões de nossa Igreja, especialmente nas reuniões das pastorais e de organismos missionários. Mantivemos uma participação ativa nas reuniões do Conselho Episcopal de Pastoral (CONSEP), do Conselho Permanente e na Assembleia Geral da CNBB. Em diferentes ocasiões conquistamos o apoio e a manifestação pública da CNBB em defesa dos direitos e da vida dos povos indígenas. Estivemos presentes nas Assembleias do Conselho Missionário Nacional (COMINA), das Pontifícias Obras Missionárias (POM) e do Centro Cultural Missionário (CCM). Também participamos e contribuímos no V Simpósio de Teologia Índia que refletiu sobre o tema “Revelação de Deus e Povos Originários” e na reunião da Articulação Ecumênica Latino-americana de Pastoral Indígena (AELAPI), no México, em outubro de 2014. Contribuímos para o enraizamento da “Articulação das Pastorais do Campo”, envolvendo, além do Cimi, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), o Serviço Pastoral dos Migrantes, a Pastoral da Juventude Rural (PJR) e a Cáritas Brasileira. Estamos organicamente envolvidos nos debates e reflexões em torno da criação e organização da Rede Eclesial PanAmazôncia (REPAM). Participamos do Encontro Mundial do Papa com os Movimentos Populares na Bolívia (2015) oportunizando a entrega de documento por parte de liderança Guarani Kaiowá ao Papa Francisco.

  8. Articulações políticas com movimentos e organizações sociais: as Coordenações Regionais e o Secretariado Nacional se esforçaram para ampliar e fortalecer articulações políticas, sempre pautando e defendendo a temática indígena. Temos a firme convicção de que as alianças dos povos indígenas com outros segmentos da sociedade são estratégicas e imprescindíveis para a garantia de seus direitos. Merecem destaque as articulações políticas estabelecidas com os movimentos e organizações da Via Campesina Brasil e Via Campesina Sul-americana, com o Grupo Carta de Belém e o Grupo Carta do Acre, com o Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social, a Plataforma DHESCA, a Associação Juízes Pela Democracia (AJD).

  9. Sensibilização da sociedade civil: promovemos, como todos os anos, a “Semana dos Povos Indígenas” e elaboramos materiais para esse momento privilegiado, subsidiando junto a diversos setores da sociedade a realização de dezenas de debates, manifestações e estudos sobre a realidade indígena.

  10. Formação: o Curso de Formação Básica e o Programa Nacional de Formação Permanente contribuem de modo eficaz para a formação de missionárias e missionários. O Curso sobre Indigenismo está em fase de organização.

  11. Comunicação e Informação: aumentamos a divulgação de matérias jornalísticas sobre a temática indígena, bem como, a visibilização do Cimi em espaços alternativos de comunicação, inclusive na chamada “grande mídia”. A temática indígena é uma pauta que tem sido mais facilmente acolhida e divulgada com bastante repercussão junto à sociedade no Brasil e no exterior, bem como no âmbito dos poderes de Estado. Para isso contribuíram o Jornal Porantim, o Informe Semanal “O Mundo que nos Rodeia”, o programa Potyrõ, a página eletrônica e os canais do Cimi com ampliada inserção em redes sociais. Nosso canal institucional da rede social Facebook conta com 21 mil curtidas e o no Twitter alcançamos 10 mil seguidores. Estamos produzindo notícia semanal para o programa “Brasil Hoje” da Rede Católica de Rádio o que nos permite chegar a milhões de pessoas em todas as regiões do país por meio das mais de 120 rádios católicas que retransmitem o programa.

  12. Mobilização de Recursos no Cimi: avançamos no debate sobre o tema da mobilização de recursos. Com base num processo de reflexão coletiva, no âmbito do Conselho Diretor, elaboramos a “Política de Mobilização de Recursos no Cimi”. Investimos na contratação de uma pessoa para contribuir com os Regionais de forma mais direcionada na estratégia ligada à cooperação internacional. Fizemos uma primeira experiência de “Financiamento Coletivo de Projetos” por meio da Plataforma Kikant. Continua como desafio para todos nós avançarmos na implementação desta política, com iniciativas relativas a pessoas físicas, vencendo eventuais debilidades administrativas e caminhando rumo a uma maior isonomia entre regionais e secretariado nacional e ao envolvimento de todas as instâncias e de todos os missionários e missionárias da entidade como verdadeiros sujeitos desse processo.

  13. Organicidade interna: os Regionais mantiveram-se fiéis quanto à organização e realização de suas assembleias anuais. O Conselho Diretor realizou as três reuniões ordinárias anuais e uma reunião extraordinária. O Coletivo Nacional de Formação e os Conselhos Fiscal e Econômico tem mantido uma dinâmica sistemática de trabalho no sentido de contribuir com a caminhada da entidade no que tange às temáticas da formação e administração. Quanto à questão administrativa destacamos a elaboração e aprovação, em curso, do Manual de Normas e Procedimentos Internos do Cimi.


 

III. A Encíclica “Laudato Si’”

Não posso deixar de fazer referência à Encíclica do Papa Francisco “Laudato Si’ sobre o Cuidado da Casa Comum” que para nós do Cimi é um presente todo especial pois nos confirma na nossa caminhada. O Papa lança “um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos construindo o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós“ (LS 14). Lamenta que “a terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo“ (LS 21). Insiste que “a humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater o aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam“ (LS 23). E dá seu recado em vista da Conferência Mundial do Clima em Paris (30 de novembro a 11 de dezembro de 2015) dizendo: “A submissão da política à tecnologia e à finança demonstra-se na falência das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afetados os seus projetos“ (LS 54).

E quem de nós do Cimi não se sente apoiado quando lê as palavras do Papa: “É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais“ (LS 38).

Quanto aos povos indígenas o Papa Francisco enfatiza: “É indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projetos que afetam os seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura“ (LS 146).

Recomendo a apresentação que nosso assessor teológico Padre Paulo Suess elaborou em power-point que nos ajuda a ter uma visão bem ampla e profunda de Laudato Si’.


 

IV. Conclusão

 

Depois de quatro mandatos (1983 – 1991, 2007 – 2015) e um mandato tampão (2006) como presidente do Cimi apresento nesta nossa XXI Assembleia Geral pela última vez o Relatório da Presidência. Guardadas as devidas proporções lembro a palavra de São Paulo a seu discípulo Timóteo: “Combati o bom combate, terminei minha corrida, guardei a fé” (2 Tim 4,7). Não se trata de despedida, pois mesmo voltando a ser “soldado raso“, enquanto Deus me der a vida jamais deixarei de lutar pela nobre causa dos povos indígenas e pela Amazônia.

Digo apenas a cada irmã, a cada irmão do Cimi, às lideranças dos povos indígenas e a cada indígena neste país um cordial e sincero “Deus lhe pague”. Obrigado, de coração, à Irmã Emília e ao Cleber que comigo integraram a presidência durante os anos passados. Obrigado a vocês todas e todos pela fraterna e sororal amizade e comunhão que nos une hoje e unirá também nos anos vindouros.

 

Luziânia, GO, 17 de setembro de 2015

 

 

Erwin Kräutler

Bispo do Xingu

Presidente do Cimi

Fonte da notícia: Assessoria de Comunicação - Cimi

 

 

A encíclica sobre ecologia do Papa Francisco é um pronunciamento sem precedentes na história da Igreja Católica. Mais uma vez, o primeiro papa sul-americano faz a comunidade internacional ouvir palavras que pouco ou nenhum chefe de Estado têm coragem ou independência para pronunciar. Até mesmo entre os ambientalistas, atrelar meio ambiente e desigualdade social, tendo como pano de fundo uma postura anticapitalista, é algo reservado a poucas organizações do setor. O interessante é que o documento não partiu dos palácios do Vaticano. Francisco buscou em bispos de continentes marginalizados os apoiadores para a empreitada. Entre eles, um “austríaco moreno”, que escolheu a Amazônia como causa e moradia desde os anos 1960, além da questão indígena como pacto de vida, esteve entre os eleitos pelo papa para colaborar com a encíclica chamada de verde pela opinião pública mundial.

 

Leia mais: Papa Francisco denuncia ataques contra os povos indígenas em encíclica sobre ecologia

 

Bispo do Xingu, morador de Altamira (PA) e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Dom Erwin Kräutler esteve com o papa, em audiência particular, no início de abril deste ano. Com o bispo, estava o padre Paulo Suess, assessor teológico do Cimi. Na ocasião, Dom Erwin alertou o papa sobre a destruição em curso da Floresta Amazônica e dos ataques sofridos pelos povos indígenas. “Disse a ele que os povos indígenas só irão sobreviver física e culturalmente se permanecerem no seu habitat tradicional que hoje é ameaçado pelos grandes projetos governamentais, pelas empresas mineradoras e madeireiras e pelo agronegócio”, conta Dom Erwin.

 

Francisco, ao ouvir as palavras do bispo, confessou que estava preparando uma encíclica sobre ecologia e prontamente convidou Dom Erwin para colaborar. “O papa pediu-me então que colaborasse enviando alguma contribuição minha neste sentido o que, voltando ao Brasil, imediatamente fiz. Ao ler agora a Encíclica deparo-me com vários números do documento em que o papa levou em conta os nossos anseios e angústias”, explica o bispo do Xingu.

 

No próximo mês de setembro, Dom Erwin encerra o seu segundo mandato consecutivo como presidente do Cimi e não poderá ser reeleito. Durante a Constituinte, entre 1987 e 1988, Dom Erwin era o presidente do Cimi. Na ocasião, sofreu um dos inúmeros atentados no decorrer de sua atuação no Xingu. Em defesa da Amazônia, chegou a ser preso e sua detenção arbitrária foi transmitida, em rede nacional, a todo o país. A história de Dom Erwin perpassa os últimos 55 anos de resistência popular, dos povos indígenas e comunidades tradicionais na Amazônia contra grandes empreendimentos e todo tipo de contravenção envolvendo grilagem de terras, crimes de pistolagem, mineração, retirada de madeira, exploração do trabalho escravo e sexual, desde o período da ditadura militar. Nesse meio tempo, Dom Erwin perdeu companheiros e companheiras de luta, como a Irmã Dorothy Stang.

 

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Dom Erwin sobre a Encíclica Verde do papa Francisco:

 

Por que o Papa Francisco decidiu elaborar uma encíclica sobre ecologia, algo sem precedentes na Igreja Católica? O que o senhor destaca no documento?

 

Havia nas décadas passadas alguns pronunciamentos papais pontuais sobre temas de ecologia. O primeiro Papa que se referiu explicitamente à questão do meio ambiente foi Paulo VI, quando em 16 de novembro de 1970 dirigiu uma mensagem à FAO por ocasião de seu XXV aniversário: “O homem gastou milênios para aprender a submeter a natureza,a dominar a terra (...). Agora soou a hora de ele dominar o seu próprio domínio”.
João Paulo II e Bento XVI insistiram na responsabilidade humana em relação ao meio ambiente. Cito o Papa João Paulo II em sua encíclica Sollicitudo Rei Socialis de 1987: “Usá-los (os recursos naturais) como se fossem inesgotáveis, com domínio absoluto, põe seriamente em perigo sua disponibilidade não só para a geração presente, mas, sobretudo, para as gerações futuras” (n. 34). O Papa Paulo VI escreveu sete, João Paulo II quatorze e Bento XVI três encíclicas. Os três redigiram outras numerosas mensagens aos bispos e fiéis da Igreja Católica e a "todas as pessoas de boa vontade", mas não dedicaram nenhum documento especial ao tema da ecologia. Assim estava na hora de a Igreja Católica manifestar-se oficialmente sobre esse assunto que diz respeito à humanidade toda para além de todas as fronteiras, também as confessionais. Escreve agora o Papa Francisco: “Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós“ (LS 14).

 

A imprensa internacional comenta, ironicamente, que o Papa deverá lançar o 11º mandamento: não poluirás. Também que ele atribui os problemas ambientais ao acúmulo de riquezas, à voracidade do Capital. Que impacto a encíclica causará na comunidade internacional e na própria Igreja?

 

Não precisa de um outro mandamento. O quinto mandamento “Não matarás” já inclui o pecado contra o meio ambiente porque ao desrespeitarmos a criação que Deus nos deixou como lar, ao queimarmos e arrasarmos as florestas, ao envenenarmos o solo com agrotóxicos e pesticidas que deixam resíduos em nossos alimentos, ao poluirmos rios, mares e lagos, ao fazermos o ar quase irrespirável por causa de gases venenosos de fábricas e descargas, estamos comprometendo seriamente a vida em nosso planeta e a sobrevivência num ambiente sadio dos filhos e netos de nossa geração que parece comportar-se como se fosse a última. Neste sentido o papa nos fala com toda clareza: “O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos. Se não o fizermos, carregamos na consciência o peso de negar a existência aos outros. Por isso, os bispos da Nova Zelândia perguntavam-se que significado possa ter o mandamento ‘não matarás‘, quando ‘uns vinte por cento da população mundial consomem recursos numa medida tal que roubam às nações pobres, e às gerações futuras, aquilo de que necessitam para sobreviver‘“ (LS 95).

 

É público o convite que o papa fez pessoalmente ao senhor, em visita ao Vaticano, para contribuir na elaboração da encíclica. Quais as contribuições feitas pelo senhor ao texto da encíclica?

 

Considero um grande privilégio que o Papa Francisco me concedeu uma audiência particular no dia 4 de abril de 2014. Devo-o de certa maneira ao Cardeal Dom Claudio Hummes que é presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia de que sou secretário. Ele me incentivou a solicitar essa audiência nesta minha função e na qualidade de presidente do Cimi. Nos primeiros minutos da audiência também o Padre Paulo Suess, assessor teológico do Cimi, esteve presente e teve oportunidade de entregar ao papa o seu livro “Dicionário da Evangelii gaudium. 50 palavras-chave para uma leitura pastoral“. Foram vinte minutos inesquecíveis. O papa parecia ter todo o tempo à disposição. Foi muito cordial e fraterno. Descrevi a realidade da Amazônia e as condições em que vivem os seus povos. Referi-me primeiro às nossas comunidades e lamentei que por causa da acentuada escassez de ministros ordenados só têm acesso à eucaristia algumas vezes ao ano. Falei dos povos indígenas e entreguei-lhe uma mensagem do Cimi previamente redigida, chamando a sua atenção para os diversos pontos do documento. Disse a ele que os povos indígenas só irão sobreviver física e culturalmente se permanecerem no seu habitat tradicional que hoje é ameaçado pelos grandes projetos governamentais, pelas empresas mineradoras e madeireiras e pelo agronegócio. Aí o papa me revelou que estava pensando em escrever uma encíclica sobre a Ecologia e já havia encarregado o Cardeal africano Peter K. A. Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, de elaborar um “borrador” (espanhol: anteprojeto, esboço). Aí eu insisti que num documento tão importante não poderia faltar uma clara referência à Amazônia e aos povos indígenas. O papa pediu-me então que colaborasse enviando ao Cardeal alguma contribuição minha neste sentido o que, voltando ao Brasil, imediatamente fiz. Ao ler agora a Encíclica deparo-me com vários números do documento em que o papa levou em conta os nossos anseios e angústias e realmente os assumiu como suas próprias preocupações. À guisa de exemplo cito apenas dois números em que nossas questões estão presentes com toda clareza:

 

O número 38 se refere explicitamente à Amazônia:

 

“Mencionemos, por exemplo, os pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazônia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes lençóis freáticos e os glaciares. A importância destes lugares para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar. Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos. Todavia, ao falar sobre estes lugares, impõe-se um delicado equilíbrio, porque não é possível ignorar também os enormes interesses econômicos internacionais que, a pretexto de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais. Com efeito, há «propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais». É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais“ (LS 38).

 

E o número 146 enfoca a questão indígena do jeito como a conhecemos e vivemos no Brasil:

 

“É indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projetos que afetam os seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura“ (LS 146).

 

O que Dilma poderá aprender com a nova encíclica do Papa Francisco?

 

Não sei se a presidente Dilma vai ler essa Carta do Papa. Iria recomendar a ela que a lesse e meditasse com muita atenção. Seria importante que não só ela, mas todos os integrantes do Governo, do Congresso Nacional e também do Supremo se inteirassem de seu conteúdo tão importante também para o nosso país. Está na hora de o Brasil mudar de paradigma do tipo de desenvolvimento e progresso que está querendo para o país e atualmente promovendo a todo vapor. As agressões inescrupulosas ao meio ambiente são tiros no próprio pé. A natureza há tempo está reclamando. Os desastres naturais são frequentes; secas, escassez de água, enchentes e inundações são sem dúvida consequências dos maus tratos que a natureza sofre há décadas. Cientistas alertam há tempo para as causas desses fenômenos. Pensando na função da Amazônia de regular o clima mundial, está na hora de o Brasil acordar e dar-se conta da imensa responsabilidade que tem em relação ao nosso planeta.