Prelazia

Bispo responsável: Dom Erwin Krautler

Nascimento: 12/07/1939 -Koblach/ Áustria, ordenação

presbiteral: 03/07/1965 - Salzburg/ Áustria.

Sagrado bispo em 25/01/1981 - Altamira - Província

Eclesiástica Belém do Pará.

 

Endereço: Avenida João Pessoa, 1212 CEP 68371-040 - Centro, Altamira - Para - Brasil

 

Tel: 0055.0XX93.3515.1761 - Curia - 0055.0xx93.3515.2494

 

 

Características Gerais da Prelazia

A Prelazia do Xingu foi criada a 16/08/1934, pela Bula “Animarum Bonum Postulat” do Papa Pio XI, desmembrada da Arquidiocese de Belém do Pará e das então Prelazias de Santarém e Santíssima Conceição do Araguaia. Foi confiada pela Santa Sé aos cuidados da Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue de Cristo. 1º Administrador Apostólico: Dom Armando Bahlmann, OFM (1935). 2º Administrador Apostólico: Padre Clemente Geiger, CPPS (1935-1948). 1º Bispo Prelado: Dom Clemente Geiger, CPPS (1948 a 1971). 2º Bispo Prelado: Dom Eurico Krautler, CPPS (1971 a 1981).

 

Superfície: 368.086,0 KM²

População: 392.211 hab

Densidade Demográfica 1,1 hab/km² (baseado em dados do, IBGE - 2000)

 

 Mapa da Prelazia do Xingu

 

MunicípioS pertencentes: Altamira, Anapu, Bannach, Brasil Novo, Cumaru do Norte, Gurupá, Medicilândia, Ourilândia do Norte, Placas, Porto de Moz, São Félix do Xingu, Senador José Porfírio, Tucumã, Uruará, Vitória do Xingu.

 

A Prelazia do Xingu é formada por seis regiões pastorais:

Região Alto Xingu: Ourilândia do Norte, São Félix do Xingu e Tucumã;

Região Médio Xingu: Vitória e Souzel;

Região Baixo Xingu: Porto de Moz e Gurupá

Região Transamazônica Oeste: Brasil Novo, Medicilândia, Uruará e Placas;

Região Transamazônica Leste: Belo Monte e Anapu

Região de Altamira: Paróquia Sagrado Coração de Jesus, Áreas: Perpétuo Socorro e Imaculada Conceição

 

Os municípios de Cumaru do Norte e Bannach são atendidos pela Diocese de SS. Conceição do Araguaia.

 

A Prelazia possui três instâncias de decisão: Grande Assembléia do Povo de Deus no Xingu, Conselho de Pastoral e Coordenação de Pastoral.

 

 

Conselho Presbiteral

  1. Pe. Vandeir Lima Alves (Vigário Geral, Pároco Catedral)

  2. Pe. Gilmar Dalcanale (Coordenador de Pastoral, Pároco Medicilândia)

  3. Pe. Hortêncio Medeiros Matias (Reitor do Seminário, Vig. Paroquial)

  4. Pe. Patrício Brenner, SVD (Causa Indígena, Vig. Paroquial)

  5. Pe. Waldemar Pimentel Filho (Representante do Clero, Pároco Imaculada)

  6. Pe. Aderney Gemaque (Pároco Porto de Moz – Baixo Xingu)

  7. Pe. Alírio Bervian (Vig. Paroquial Assurini)

  8. Pe. Fritz Satzger, CPPS (Pároco Perpétuo Socorro - Altamira)

  9. Pe. João Evandro Pereira, SX (Vig. Paroquial - Alto Xingu).

  10. Pe. José Amaro Lopes da Silva (Pároco Sta. Luzia - Transleste)

  11. Pe. José Geraldo Magela (Pároco Brasil Novo - Transoeste)

  12. Pe. Romildo Mauricio Silva (Pároco Vitória do Xingu - Médio Xingu)


 

Composição do Conselho Presbiteral da Prelazia do Xingu


 

Conselho de Consultores


 

  1. Pe. Alírio Bervian

  2. Pe. Aderney Gemaque

  3. Pe. Fritz Satzger, CPPS.

  4. Pe. Gilmar Dalcanale

  5. Pe. João Evandro Pereira, SX.

  6. Pe. Patrício Brenner, SVD


 

A PRELAZIA DO XINGU HOMENAGEIA

A RAINHA DA AMAZÔNIA E SUA PADROEIRA

NOSSA SENHORA DE NAZARÉ

Eis aí tua Mãe” (Jo19,27)

Neste ano de 2013, um dia ficou marcado em nossa memória de forma radiante e inesquecível, foi o dia 12 de setembro no qual o povo de Deus no Xingu recebeu com grande alegria a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré vinda de Belém-PA, que por um dia pode estar em solo altamirense, esta atividade organizada pelo Santuário de Nossa Senhora de Nazaré- Recreio/ Catedral – Altamira.

O olhar da fé leva-nos nestes grandes momentos de fé e de devoção a vivermos todo o carinho e o respeito à Mãe de Deus reafirmando a nossa fé, ao acolhermo-la no Aeroporto de Altamira e conduzimo-la em carreata pelas ruas da cidade.

Organizações governamentais, educacionais, eclesiais homenagearam-na, destacando: Defensoria Pública do Estado do Pará, Prefeitura de Altamira, Banco da Amazônia, as Paróquias de Altamira representando as 15 paróquias e 2 áreas pastorais da Prelazia do Xingu( Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Paróquia Imaculada Conceição e Paróquia Sagrado Coração de Jesus), 9º agrupamento do Corpo de Bombeiros,das escolas CIEK- Centro Infantil Emerlinda Kraulter e Instituto Maria de Mattias e do Hospital Municipal São Rafael.

Após as homenagens a imagem permaneceu todo o dia no Santuário de Nossa Senhora de Nazaré- Recreio, para visitação e expressão de gratidão e de pedidos dos fiéis em oração junto a Maria e, reunidos num só coração e uma só alma conduziram a Imagem em procissão pela Orla do Cais - margem do Rio Xingu seguida de celebração Eucarística na Praça Pio XII, momento de emoção e profissão de fé iluminado pela Palavra e alimentado pela Eucaristia, onde percebemos a grandeza de Nosso Deus de amor ao nos presentear como Mãe: Maria, horizonte de bondade e beleza.

Após celebração a imagem foi transladada a Catedral, destinando o momento para orações, pedidos, agradecimentos e despedida dos fiéis e em seguida conduzida em carreata ao Aeroporto para seu retorno a Belém- PA.

 

Xingu, que eu amo desde criança

Conheci o Xingu através dos meus tios, padre Eurico e Guilherme, leigo. Vieram para o Xingu em 1934. As cartas que periodicamente enviaram para sua terra natal circulavam entre todos os familiares na Áustria. Falaram da realidade que estavam vivendo no Xingu. Tio Guilherme queria retornar para a Áustria em 1939, mas não foi mais possível. A guerra que estourou naquele ano impedia sua volta à pátria. Permaneceu no Brasil e casou-se em Santa Catarina. Dos seus doze filhos, um se tornou padre e duas filhas, religiosas. Tive o primeiro contato imaginário com o Xingu através desses tios. Padre Eurico falava em seringueiros, ribeirinhos, índios, especialmente os índios Kayapó. Assim meu imaginário de criança já estava povoado com gente e coisas do Xingu.

Nasci na Áustria em 1939. Em 1978 naturalizei-me brasileiro. Hoje me apresento como brasileiro, nascido na Áustria. Minha família era pobre. Éramos seis filhos. Meu pai era professor. O que ganhava foi insuficiente para sustentar a família. Assim todos tínhamos que ajudar. Nas férias escolares eu trabalhava como ajudante de pedreiro. Cheguei a conhecer o mundo do trabalho na construção civil. Fiz muitas amizades. Aqueles operários de trabalho duro me aceitaram muito bem. Estavam felizes com a minha presença nos canteiros de obra, trabalhando com eles. Minha vocação nasceu a partir desta experiência, na Juventude Operária Católica – JOC. Pensava às vezes em fazer medicina ou letras. Mas, depois descobri que a melhor contribuição que poderia dar para o mundo seria como padre. Não sabia, porém, se ia ser jesuíta ou padre secular. Aí, sim, entrou a influência do tio padre Eurico. Ele me dizia: “Se tu queres ser padre por que não vens para a nossa congregação – Missionários do Sangue de Cristo?”. Aceitei a sugestão e fiz minha opção de vida nesta congregação.

 

O surgimento de um missionário

Depois de completar os estudos secundários em junho de 1958, entrei em outubro do mesmo ano no noviciado da congregação no Principado de Liechtenstein.Em 1959, matriculei-me na Universidade Federal de Salzburg. Foram seis anos de estudo na maravilhosa cidade de Mozart. Diplomei-me em filosofia e cursei teologia na mesma Universidade Federal. Pouco antes de me formar, veio a pergunta: Onde vou exercer meu ministério de padre? Meus superiores queriam que eu continuasse os estudos e me diplomasse em Filologia Antiga: Grego e Latim. A congregação precisava de professores em um grande colégio que mantinha na Alemanha. De modo especial necessitava de professor para as aulas de Grego e Latim. Eu gostava – e gosto até hoje – destas línguas. Mas fiquei pensando comigo mesmo: “Meu Deus, vou ser padre para ser professor de Grego e Latim?” Então me veio a inspiração: “Vou ser padre numa terra onde há falta de padres e de recursos.”

Como jovem já me entusiasmava o texto da Primeira Carta de São João 3,16: “Nisto conhecemos que é o amor: Jesus deu a vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos e irmãs”. Empolgado por esta mística e tendo aprendido muito com a JOC que, junto com outros jovens, eu tinha fundado em minha cidade natal, tomei a decisão: Vou para o Brasil. E o Brasil significava o Xingu. Fui falar com o Provincial e disse: “Diante da situação em que se encontra a Prelazia do Xingu, quero ir para lá, quero dedicar minha vida aos povos do Xingu”. Mesmo constatando a necessidade de professor, o provincial concordou e disse: “Precisamos enviar nossos jovens para lugares onde há necessidade de padres, onde falta tudo. Podes ir. No entanto, deves primeiro te submeter a exames médicos para saber se és apto para o clima tropical”. Não tive a menor dúvida acerca de minhas condições de saúde que eram ótimas. Praticava esportes como esquiar e escalar montanhas.

 

Adeus à Áustria

Fui ordenado padre no dia 3 de julho de 1965 na Catedral de Salzburg. Já em 2 de novembro do mesmo ano, me despedi da família. Era o aniversário de meu pai. No dia 4 de novembro embarquei em Hamburgo no navio cargueiro “Emsstein” que me levou ao Brasil. Éramos apenas dois passageiros junto aos marinheiros do cargueiro – Frei Lucas, um franciscano, e eu. No dia 18 de novembro de 1965 o navio aportou em São Luís do Maranhão. Foi às quatro horas da tarde – à hora décima do Evangelho de João. Os dois discípulos de João Batista nunca mais se esqueceriam daquele momento em que pela primeira vez encontraram Jesus que os convidou: “Vinde e vede!”. E eles permaneceram com ele naquele dia. Também eu nunca me esqueço daquela hora e daquele dia em que pela primeira vez finquei meus pés em solo brasileiro: “era a hora décima” (Jo 1,39).

Até o navio descarregar ou carregar carga, hospedei-me por três dias no Convento dos Franciscanos em São Luís. Não falava uma palavra em português. Quando em março de 2016 estive novamente nesse convento para ordenação de meu sucessor como bispo do Xingu, dom João Muniz Alves OFM, encontrei o quarto tal e qual como nos idos de 1965. Quantos anos já haviam passado desde então! Quando dom João foi nomeado para o Xingu ele era guardião daquele mesmo convento que receberaa mim, padre novo, missionário enviado para o Brasil. Mero acaso? Não. “A mão do Senhor veio sobre mim e me conduziu...” (Ez 37,1). Quem imaginaria que, 50 anos depois da minha chegada ao Brasil, o superior do convento em que então me hospedei me sucederia na Prelazia do Xingu!

Cheguei a Belém no dia 25 de novembro, à meia noite. Lá fiquei um mês. Participei de um curso intensivo para os “Voluntários do Papa” vindos dos Estados Unidos. Não gostei muito, pois na mesa e no recreio sempre falaram Inglês. E eu não estava aí para bater papo em Inglês, mas para aprender Português. Assim pedi a Madre Ventura que me permitisse tomar as refeições com as Irmãs. E uma delas, a Irmã Mônica, encarregou-se de ensinar Português para mim. A irmã era muito exigente, graças a Deus. Mandou-me às vezes repetir uma palavra tantas vezes até que a pronúncia estava correta, sem sotaque.

 

Padre andarilho e professor

No dia 21 de dezembro viajei para a Altamira. Foi o primeiro voo na minha vida. Era um DC 3 da companhia aérea Cruzeiro. O pessoal brincava dizendo: DC-3 quer dizer que sobem dezoito e descem três. No dia 25 de dezembro, fui celebrar a missa no Santuário de Nossa Senhora de Nazaré e fiz minha primeira homilia em Português! Tremendo nas bases, é claro. Também pudera, depois de apenas um mês no Brasil! Me esforcei muito para falar o Português corretamente. Fiquei ainda uns dias em Altamira e, antes do final do ano, retornei a Belém para continuar o curso de Português com a Irmã Mônica e com os americanos (que continuavam falando Inglês nas refeições).

No dia 6 março de 1966, fui em definitivo para Altamira. E o bispo dom Clemente me deu a primeira provisão canônica: mandou-me dar catequese às crianças, dar aulas de religião no colégio e celebrar às seis e meia da manhã a missa na Igrejinha de Nossa Senhora de Nazaré, naquele tempo periferia de Altamira que era uma cidade com uns sete mil habitantes. Na realidade, não tinha muito o que fazer durante a semana, fora alguns encontros de catequese. Sábado e domingo ia então para as colônias. Era um padre andarilho. Logo mais assumi a pastoral no porto de Altamira que era Vitória do Xingu, hoje paróquia e município, e em Souzel, uma paróquia antiga do Baixo Xingu.

No Instituto Maria de Mattias havia falta de professor para o Curso Pedagógico. Assim a diretora me pediu que assumisse as aulas de Filosofia e Psicologia Educacional. Contribuí durante anos, até minha nomeação de bispo em 1980, para a formação de professoras e professores de ensino fundamental. Foi uma época muito gratificante porque tive um contato direto com a juventude de Altamira. E ainda, como não havia professor de língua estrangeira, assumi também as aulas de Inglês.

 

Bispo aos 41 anos

Em 1971, o Papa Paulo VI nomeou o padre Eurico, meu tio, bispo da Prelazia do Xingu. Já tinha 65 anos. Interessante é que ele ainda foi nomeado “bispo titular de Cissa e prelado do Xingu”. Procurei um dia saber onde se encontrava essa diocese e descobri que se tratava de uma ilha já submersa no Mar Tirreno. Assim começamos a brincar com dom Eurico dizendo que para tomar posse de sua diocese titular precisava de um equipamento de mergulho. Sempre achei estranho essa praxe de nomear bispos titulares de alguma diocese que há séculos não mais existe. No final da década de 70, a saúde dele já estava bastante debilitada. Assim ele pediu um bispo coadjutor à Nunciatura. Já pelo fato de eu ser sobrinho de dom Eurico, quem já esperava que fosse eu o seu sucessor. Mas, dom Eurico fez uma pesquisa entre os padres para saber a quem indicariam como seu sucessor. Pelo que soube muito tempo depois, o nome mais apontado foi o meu. Dom Eurico, certamente assustado, não sabia como agir e foi se consultar com dom Alberto Gaudêncio Ramos, arcebispo metropolitano de Belém. Este teria respondido: “Se os padres querem, vamos propor o nome do seu sobrinho.”

No final de outubro de 1980, fui chamado à Nunciatura. O núncio apostólico era dom Carmine Rocco. O secretário me recebeu e convidou-me a aguardar o núncio. Não tardou a aparecer. Entregou-me uma carta e pediu que a lesse. Era a minha nomeação para bispo-coadjutor na Prelazia do Xingu. Fiquei pasmo e o núncio me perguntou: “O que vai fazer agora?”. Respondi: “Volto para Altamira e vou perguntar os colegas o que acham disso”. E ele: “Eu já consultei padres, leigos e irmãs da prelazia. Confiam no senhor. Aceite!”. Apelou ainda para meu “sensus ecclesiae” e o espírito filial ao Santo Padre. Para mim, começou uma grande agonia. Não sabia mais o que dizer. O núncio olhou bem para mim e falou: “Olhe, o senhor pode aceitar tranquilamente porque o povo lhe quer muito bem. As consultas que fizemos mostram isso claramente. Façamos assim: o senhor vai agora para a capela, fique lá rezando por uma hora e depois venha assinar o termo.” Respondi: “Se é assim, que depois de uma hora devo vir assinar de qualquer jeito, assino logo para depois poder rezar sossegadamente”. O núncio ainda acrescentou: “O senhor terá que guardar o sigilo até 12 de novembro, quando a notícia será oficialmente publicada no Vaticano”.

Essa conversa com o núncio se deu no dia 31 de outubro de 1980. Voltei em seguida via Belém para Altamira. Várias pessoas souberam que tinha viajado para a capital federal e se interrogavam: “Padre Erwin foi a Brasília fazer o quê?”. Dona Berenice, a despachante da VASP e amiga de longa data, também se perguntava o que eu tinha ido fazer em Brasília. Naquele tempo não era tão comum eu viajar. Dom Eurico estava em Belém e indagou também: “O que foi fazer em Brasília?”. Como era segredo pontifício, dei-lhe uma resposta evasiva.

 

O silêncio da morte paira sobre o Xingu.

Corpos inertes flutuam de braços erguidos

Nas águas verdes-esmeralda.

Uma mulher sem vida,

agarrada às suas crianças!

 

Xingu majestoso,

Xingu misterioso,

By-tire dos Índios!

Por que te revoltaste?

Por que ficaste tão furioso?

Por que agrediste o navio

Que singrava tuas águas?

 

Ou foram homens que te provocaram?

Ávidos de lucro, te desrespeitaram?

Ultrapassaram os limites de carga e passageiros?

 

Ó minha Porto de Moz querida,

Cidade de um povo

alegre e sorridente!

Agora o luto enche tuas casas,

A aflição e tristeza te abalam.

Gritos de dor ecoam pelas ruas,

Defuntos são levados à derradeira morada,

Insônia e pesadelos povoam a noite.

 

Ó minha Porto de Moz querida,

O silêncio sufocante da morte te invadiu!

 

Mas será da morte a última palavra?

Não! Jamais! A morte foi tragada pela Vida!

 

Mesmo com o rosto desfigurado pelas lágrimas

Adoramos a tua Cruz, Senhor.

Mesmo com o coração traspassado de dor

Professamos nossa fé na Ressurreição.

Mesmo com a alma atônita,

Confiamos a Ti nossos irmãos e irmãs.

 

Dom Erwin

24 de agosto de 2017

 

 

As sete palavras de Jesus na cruz

 

Primeira Palavra

 

Chegando ao lugar chamado Caveira, lá o crucificaram, bem como os malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: "Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem" (Lc 23,33-34).

 

 

"Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" rezamos no Pai Nosso. Pedimos perdão a Deus, fazendo a solene promessa de perdoarmos aos que nos ofenderam. Não é fácil realizar o que prometemos. Existem chagas que custam cicatrizar. Há violências e injustiças que deixam como saldo um mar de sofrimentos. Há infidelidades e traições que ferem profundamente o coração. Há agressões e ódios que geram abismos quase intransponíveis entre as pessoas. No entanto, não há inimigos que resistam eternamente à bondade e ao amor. Não há ódio que um dia não sucumba ao poder do Amor. O primeiro passo para o perdão é desarmar-se interiormente. Quem perdoa é sempre mais forte do que quem ofendeu. O perdão é que gera vida, não o ódio e a vingança! Dizem que o ódio é como o fogo: arde, queima, se alastra, arrasa, reduz a cinzas. Se o ódio é como fogo, então o perdão é como a água! É a água que extingue as labaredas, é a água que apaga as chamas, é a água que vence o incêndio. Assim é o perdão que extingue as vinganças, é o perdão que apaga as inimizades, é o perdão que afoga as mágoas, é o perdão que vence o ódio.

 

 

Segunda Palavra

 

Um dos malfeitores suspensos à cruz o insultava, dizendo: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós." Mas ou outro, tomando a palavra, o repreendia: "Nem sequer temes a Deus, estando nas mesma condenação? Quanto a nós, é de justiça; pagamos por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal". E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino". Ele respondeu: "Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23,39-43).

 

Um dos malfeitores crucificados chama Jesus de "Cristo", o outro o reconhece com "Rei". Por causa destes dois títulos - um religioso, outro político - Jesus morre na cruz. Como "Cristo" Jesus é condenado por "blasfêmia" porque se declara "Filho de Deus" (cf. Mt 27,62-66) reivindicando para si a dignidade divina. Como "Rei" é considerado subversivo e agitador. Os chefes do povo conseguiram o que queriam: matar Jesus de Nazaré como perturbador da ordem pública e aos que o tiverem na conta de profeta tinha que ser apresentado como homem definitivamente derrotado, destruído, aniquilado. Um dos malfeitores faz coro aos insultos dos chefes que zombeteiramente lhe recomendam: "que salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Eleito" (Lc 23,35). Ele também grita: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós". O outro, porém, reconhece a inocência de Jesus e descobre na sua derradeira hora a verdadeira identidade de quem sofre ao seu lado o mesmo suplício. Entende que o Reino de Jesus não é deste mundo (cf. Jo 18,36), mas que Jesus é Rei e viera "ao mundo para dar testemunho da verdade" (Jo 18,37). A luz da verdade que ilumina o coração e a mente do "bom ladrão" gera de repente uma ilimitada confiança e o enche de certeza de que Jesus pode salvá-lo e perdoar-lhe os seus pecados, acolhendo-o no paraíso.

 

 

Terceira Palavra

 

Junto à cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, a de Cléofas, e Maria, a Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” A partir daquela hora, o discípulo a acolheu no que era seu (Jo 19,25-27)

 

Os soldados repartiram as vestes de Jesus em quatro partes, uma para cada soldado (cf. Jo 19,23). Quatro soldados! Quatro homens sentados, distribuindo entre si, em partes iguais, os últimos pertences de Jesus e jogando dados para ver quem fica com a peça principal, a túnica sem costura. Não foi a mãe que a teceu para Jesus? Em cada fibra se esconde um traço de seu amor materno. São quatro soldados, quatro partes de roupa e uma túnica que recorda a esses homens rudes que, afinal, o crucificado também tem mãe.

 

São também quatro as mulheres. Não estão sentadas, mas sim de pé junto à cruz. Só duas delas conhecemos mais de perto: Maria, a mãe de Jesus, e Maria, a Madalena. Mas no cenário de Golgotha se encontra ainda um outro personagem. O Evangelho não revela o nome. Diz apenas que ao lado da mãe de Jesus se encontrava "o discípulo a quem amava". Ele representa todos os filhos e filhas de Deus que são os discípulos e discípulas "a quem Jesus ama". São suas irmãs, seus irmãos amados, a quem, antes de morrer, confia como última e amorosa dádiva sua própria mãe. Na última ceia nos assegurou sua presença até o fim dos tempos no pão e no vinho que se transformam no Corpo e Sangue do Senhor: Corpo entregue, Sangue derramado. No alto da cruz completa o testamento, oferecendo-nos sua mãe como Mãe Nossa também por todos os séculos. É de uma comovente solenidade e de uma expressividade singular com que Jesus fala pela última vez a sua mãe. O seu testamento se completa com a palavra dirigida ao "discípulo a quem amava", a todas e todos nós: "Eis tua mãe!"

 

 

Quarta Palavra

 

Desde a hora sexta até a hora nona, houve treva em toda a terra. Por volta da hora nona, Jesus deu um grande grito: "Eli, Eli, lamá sabachthâni?", isto é: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt 27,45-46).

 

Pouco antes de morrer em meio aos crudelíssimos tormentos que o Império Romano reservou aos criminosos, Jesus começa a balbuciar, num derradeiro esforço entre dores inimagináveis o comovente e, ao mesmo tempo, horrendo Salmo 21 (22). Como não foi o impacto desse grito aos que assistiram ao terrível espetáculo, de modo que os evangelistas fizeram questão de transmiti-lo tal e qual como Jesus o bradou, na língua que aprendeu de sua mãe no lar de Nazaré!

 

Jesus passa pela angústia de sentir-se completamente abandonado, experimenta a noite escura da tremenda solidão em meio ao redemoinho de um indizível sofrimento que se fecha sobre ele. Tudo vira trevas, sem horizonte. Jesus vive essa experiência até ao extremo.

 

Muitos de nossos irmãos e irmãs experimentam essa solidão, a dor do abandono, de não entender mais nada, de duvidar da bondade de Deus, até de usar as palavras de Jó e amaldiçoar o dia em que nasceu: "Por que não morri ao deixar o ventre materno, ou pereci ao sair das entranhas? Por que me recebeu um regaço e seios me deram de mamar?" (Jó 3,11-12) Quantos são os gritos sobem dos "porões da humanidade": "Onde estás, ó meu Deus?" Quantas perguntas sem resposta! Ouvindo, porém, o grito de Jesus sabemos que ele, na cruz, sofreu conosco. Mesmo assim, o salmo 21(22) não é um salmo de desespero, mas em meio à toda a angústia e aos tormentos, a oração procura a Deus: "Pois és tu quem me tirou do ventre de minha mãe, quem me confiou ao seu peito; eu fui lançado a ti ao sair das entranhas. Desde o ventre materno tu és meu Deus " (Sl 21(22),10-11).

 

Há muita coisa em nossa vida que jamais entendemos. Nestas horas escuras não são palavras e pias considerações que nos consolam. Resta-nos, no silêncio, contemplar a cruz. Por mais escura que seja a noite, o sol volta sempre a brilhar! O "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" não é a última palavra. Deus dá seu Sim irrevogável à vida na manhã da Páscoa ao ressuscitar Jesus. A luz afugenta as trevas.

 

 

Quinta Palavra

 

Depois disso, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para que se cumprisse a Escritura até o fim, disse: “Tenho sede!” Havia ali, uma jarra cheia de vinagre. Amarrando uma esponja embebida de vinagre num ramo de hissopo levaram-na à sua boca (Jo 19,28-29)

 

A exclamação de Jesus pode ser uma alusão ao Salmo 68 (69),22: "Como alimento deram-me fel e na minha sede serviram-me vinagre". Não precisa ser zombaria, escárnio dos soldados. Pode até ser uma expressão de afeto para com esse pobre homem que, no estertor da morte, ardendo de dor e de febre por causa das inúmeras chagas, pede que lhe molhem pelo menos os lábios. É um pedido tão humilde e totalmente humano.

 

A sede de Deus é tema de comoventes orações do Antigo Testamento: "Assim como a corça suspira pelas águas correntes, suspira igualmente minh'alma por vós, ó meu Deus! Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus?" (Sl 41(42),2-3).

 

"Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! A minh'alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água" (Sl 62(63),2).

 

 

Sexta Palavra

 

Quando tomou o vinagre, Jesus disse: “Está consumado!”. E, inclinando a cabeça entregou o espírito (Jo 19,30).

 

O quarto Evangelho começa a narração da Última Ceia de Jesus com seus discípulos com as palavras: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim". A expressão "até o fim" na língua em que o Evangelho foi escrito, o Grego, se relaciona ao "Está consumado" que Jesus falou antes de morrer. É a mesma raiz gramatical que se encontra no "até o fim" e no "consumado". "Está consumado" não mais é um gemido de dor, mas já o anúncio antecipado da Vitória.

 

Contemplamos o Senhor crucificado, o corpo dilacerado pelos açoites, as mãos e os pés perfurados. "Está consumado!". O amor chegou ao extremo. Mas contemplamos na face ensanguentada de Jesus também os rostos de tantas irmãs e irmãos nossos que sofrem: comunidades indígenas e afro-americanas; mulheres excluídas, em razão de gênero, raça ou situação sócio-econômica; jovens que recebem uma educação de baixa qualidade e não têm oportunidades de progredir; pobres, desempregados, migrantes, deslocados, agricultores sem terra; meninos e meninas submetidos à prostituição infantil; dependentes de drogas, as pessoas com limitações físicas, os portadores e vítimas de enfermidades graves que sofrem a solidão; seqüestrados e os que são vítimas da violência, do terrorismo; anciãos recusados por sua família como pessoas incômodas e inúteis; os presos em situação desumana.

 

Só o Amor "até o fim", até ao extremo, consegue ver com os olhos de Deus os pobres e condenados à morte antes do tempo. Só este Amor consegue desvendar, a partir do coração de Deus, as causas dessa realidade iníqua.

 

 

Sétima Palavra

 

Era já mais ou menos a hora sexta quando o sol se apagou, e houve treva sobre a terra inteira até à hora nona, tendo desaparecido o sol. O véu do Santuário rasgou-se ao meio, e Jesus deu um forte grito: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" Dizendo isso, expirou. O centurião, vendo o que acontecera, glorificava a Deus, dizendo: "Realmente, este homem era justo!" (Lc 23,44-47).

 

Segundo o Evangelho de São Lucas, Jesus morre pronunciando o versículo 6 do Salmo 30 (31): Pai, "em tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23,46). O versículo se completa com as palavras "tu me resgatas, Senhor, Deus fiel“.

 

Agora, Jesus está morto. O centurião romano não consegue disfarçar seu assombro. Atesta a inocência do crucificado. Afirma que era "justo". O corpo é descido da cruz e sepultado. Rolaram uma grande pedra para a entrada do túmulo (cf. Mt 27,60). O fim definitivo!

 

Aparentemente, porque a história não termina aqui! "Ao raiar do primeiro dia da semana“ (Mt 28,1), "Maria Madalena e a outra Maria“ foram ao túmulo e receberam a notícia alvissareira: "Ele não está aqui, pois ressuscitou!" (Mt 28,6) E "elas, partindo depressa (...) Correram a anunciá-lo aos seus discípulos“ (Mt 28,8). São Marcos nos conta que Maria Madalena "foi anunciá-lo àqueles que tinham estado em companhia dele e que estavam aflitos e choravam" (Mc 16,10). Pelo SIM de uma mulher, Maria, Deus inicia sua maravilhosa obra salvífica, enviando o seu Filho. Foi também através de uma mulher, de outra Maria, que se inicia o anúncio pascal que atravessará os séculos. "É verdade! O Senhor ressuscitou!" (Lc 24,34). O primeiro anúncio "Ressuscitou!" coube às mulheres (Lc 24,1-10).

 

E essa Boa Nova atravessa os séculos e milênios. É proclamado em todos os rincões da terra, do norte ao sul, do leste ao oeste, em todas as línguas e culturas.

 

Minha irmã, meu irmão,

Dom João e eu, dom Erwin, lhes desejamos uma Santa e Feliz Páscoa da Ressurreição.