Carta Compromisso da Prelazia do Xingu


 

A Igreja, Povo de Deus do Xingu, em diálogo com os movimentos sociais, procura viver no Espírito do Ressuscitado que é luz para nosso caminho e garantia da Vida em plenitude. Durante os dias 26 a 28 de maio de 2017 nos reunimos no Centro de Formação Bethânia para o Seminário da REPAM respondendo ao apelo de nosso papa Francisco para aprofundar sua Encíclica “Laudato Si (Louvado Sejas), sobre o Cuidado com a Casa comum”. Acreditamos na Luz e alimentamos sempre a esperança, mesmo quando se faz noite sobre o solo sagrado do Xingu regado com o sangue dos nossos mártires. Com a graça de Deus renovamos nossos compromissos batismais e crismais na defesa e promoção da vida onde a morte é semeada; do amor e da paz onde o ódio é espalhado; da justiça quando vemos os povos do Xingu agredidos por injustiças, violências, desrespeito e discriminação.

O clamor da Mãe Terra se junta ao clamor de suas filhas e filhos. Denunciamos os efeitos causados pelos grandes projetos predatórios: hidrelétricas, mineradoras e garimpos, agropecuária e madeireiros que ocasionam aumento populacional desordenado nas cidades provocado pelo êxodo rural; o deslocamento forçado; aumento dos índices de violência urbana, no campo e contra indígenas; desemprego; prostituição e abuso sexual; tráfico humano; aumento do consumo de drogas e álcool; ausência de políticas públicas básicas e de qualidade; aumento do desmatamento; uso indiscriminado de agrotóxicos; morte cultural dos indígenas pela fragmentação das aldeias, e invasão e grilagem nas terras indígenas e extrativistas. Denunciamos que a maioria das condicionantes para a construção de Belo Monte não foi cumprida. Agora os impactos causados são duradouros, em grande parte irreversíveis.

Apesar destes males, mantemos vivas a esperança e a coragem porque reconhecemos que o Senhor caminha conosco e nos orienta: “Não tenham medo”! Queremos ser uma “Igreja em saída”, discípula e missionária que vive e anuncia o Evangelho “derrubando muros e construindo pontes” neste solo sagrado. São sinais desta construção de pontes: Agricultura Familiar; projetos agroecológico – extrativistas; lutas e resistências dos povos indígenas e comunidades tradicionais (quilombolas, ribeirinhos); o protagonismo da juventude e das mulheres nas Comunidades Eclesiais de Base e movimentos populares;

Aprendemos com a Laudato Si, que há duas crises graves e urgentes que se articulam e se influenciam: a crise climática e a crise ecológica. Elas são consequências de uma economia que visa apenas o lucro e do individualismo consumista como centro da vida social. O papa nos propõe a Ecologia Integral, onde o ser humano e a natureza encontram-se interligados. Convoca-nos a uma ação política de tomada de posição em defesa da vida no Planeta; a uma conversão ecológica e promoção da educação ambiental. Ainda a cultivar e cuidar da Criação, como compromisso com as atuais e futuras gerações.

Comprometidos então com o pedido do Papa Francisco, somos responsáveis com as seguintes ações:

  • Construir um fórum composto pelos povos tradicionais implementando medidas educacionais levando em consideração a questão étnico-racial nas escolas dos municípios;

  • Unir forças na proteção das terras e meio ambiente contra as políticas predatórias dos grandes projetos e dos empreendimentos governamentais;

  • Reconhecer e manter as experiências e os saberes tradicionais;

  • Valorizar os produtos da região e lutar pela regularização fundiária;

  • Propor que as Universidades Públicas e os centros de pesquisa públicos acompanhem as atividades desenvolvidas dos grandes projetos de exploração e mineração informando os resultados à sociedade;

  • Reforçar o apoio às políticas públicas para infância e juventude;

  • Apoiar implantação de Centros de Apoio Psicossocial Álcool e Droga-CAPS-AD;

  • Criar uma Ouvidoria ou uma pastoral da escuta para acompanhamento das famílias nas paróquias e das famílias atingidas;

  • Cobrar as condicionantes de Belo Monte não cumpridas pelos consórcios, assim como de outros projetos de mineração (Belo Sun, Pulma, Vale);

  • Participar dos conselhos de controle social dos municípios;

  • Apoiar e lutar por uma nova política energética e pela Política Nacional dos Atingidos por Barragens;

  • Despertar a consciência prática da Ecologia Integral;

  • Implementar um projeto de evangelização para juventude, enfrentando as violências e considerando as suas famílias;

Celebramos a vida que é dom de Deus e, na interação com a natureza, lançamos sementes de árvores nativas, convictos de que elas frutificarão efetivando a implantação da Rede Eclesial Pan-Amazônica no Xingu.

Pedimos ao Deus vivo que abençoe, e a sua Mãe, Virgem de Nazaré, rainha da Amazônia, nossa padroeira, que interceda por nós para que sejamos fiéis a nossa missão na defesa da vida no Xingu.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

Altamira, 28 de maio de 2017


 

Povo de Deus do Xingu

 

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