50 anos atrás acontecia a

Inauguração do Hospital São Rafael

 

Por: Pe. Miguel Rhode

(Conrado e equipe de enfermagem do Hospital São Rafael)

 

Muita gente não sabe, mas a Prelazia do Xingu e seus Missionários construíram o Hospital que há tantas pessoas serviu e serve. O mesmo na época da construção da Tranzamazônica foi simplesmente “tomado” pelos militares como se eles o tivessem construído. O terreno e prédio são da Prelazia da Xingu. Na Alemanha foi entrevistada uma das missionárias da época de inauguração do Hospital.

 

Juana Bluemel fez parte da primeira equipe de assistentes de desenvolvimento, iniciando seu serviço no novo e primeiro hospital da cidade Altamira. O hospital São Rafael foi inaugurado no mês de Janeiro 1967. Juana assumiu o serviço da parteira. Junto com ela estavam Rose Muffler (como Juana da Alemanha) e Luisa Abdank da Áustria. Estas duas foram enfermeiras. Nesta entrevista Juana está se lembrando deste período cinquenta anos atrás.

 

Juana, 50 anos atrás em Altamira! Do que você lembra de imediato?

Eu passei um tempo muito bom em Altamira. Foi um tempo agitado. Eu era muito jovem neste tempo. Meus colegas tinham sete e nove anos de idade mais. Foi para mim uma grande aventura.

 

Como você chegou da Alemanha para Altamira?

Foi um caminho longo. Minha vida inteira eu passei quase como viajante. Eu morei junto a minha família na zona oeste da Alemanha. Quando os Russos fecharam as fronteiras para o resto da Alemanha fugimos na última hora. Na parte ocidental da Alemanha eu terminei meu tempo escolar. Depois entrei na formação profissional e me tornei parteira. Foi na época dos 60. Foi o tempo em que o Jesuíta Pe. Leppich começou um famoso programa de pregação em público ... nas praças e ruas. Estas pregações despertaram um entusiasmo pela missão dentro de mim. Por isso contatei um serviço de desenvolvimento depois da minha formatura. Através deste serviço eu fui enviada junta as duas colegas para Altamira no Xingu.

 

Você recebeu uma preparação para este serviço tão longe de seu país e fora de sua cultura?

Sim! Fizemos um treinamento e uma preparação por três meses na cidade do Friburgo no sul da Alemanha. Depois passamos ainda três meses em Portugal para aprender o Português. Só depois partimos da Alemanha em direção do Brasil. A viagem iniciou em Hamburgo e nos levou diretamente para Belém. Viajamos com um navio de carga.

 

E quando você chegou em Altamira? E o que você encontrou no seu destino?

Nós chegamos no mês de Outubro 1966 no Xingu – depois de 18 dias de viagem no navio e mais umas semanas em Belém para nos adaptar e praticar a nova língua. Em Belém ficamos num convento de freiras.

Altamira foi neste tempo uma cidade pequena, totalmente diferente desta cidade que eu reencontrei numa visita mais tarde em 2004. O hospital foi um prédio bem simples com 20 salas para os doentes, uma sala de cirurgia, uma sala para partos, cozinha e nossos quartos. E ainda tinha uma pequena igreja. A coisa foi financiada e construída pela obra missionária “Misereor”. Foi uma vida bem simples, mas eu me senti muito bem. A vida na cidade ainda foi semelhante à vida de uma grande família.

 

 

E seu trabalho? Do que você se lembra?

(sorridente) ... de muitos momentos!! Ficamos normalmente sem ajuda médica. Se for, passou uma vez por mês um médico no hospital para realizar cirurgias e cuidar das doenças mais graves. Lembro-me uma vez um médico se comprometeu a ficar o tempo todo em Altamira. Ele não agüentou e nos deixou depois de poucas semanas. Assim o hospital era nossa. Ajudar nos partos era minha tarefa. Pequenas cirurgias como costurar feridas ou estabilizar ossos quebrados ficou com as minhas colegas. E juntos cuidamos dos pacientes e trataram das doenças típicas tropicais. Era normalmente um trabalho de médicos assistentes, um alem do trabalho típico de enfermeiras. Foi bom assim. Nem um dia passou igual ao outro. Todos dias eram únicos. Em todos nestes anos realizamos também cursos de formação em enfermagem para jovens. Estavam sempre cinco, seis meninas conosco. Normalmente eles ficaram um ano no hospital para aprender o mais importante da profissão.

 

Você se lembra de momentos ou situações especiais?

Sim, também aqui eu poderia contar muitas histórias. Uma vez chegou um homem no hospital picado por uma cobra na perna. A ferida inflamou terrível. Ele pediu-nos amputar a perna. A gente cuidou dele e graças a Deus nestes dias passou o nosso médico em Altamira. Ele fez a cirurgia de amputação, mas para esta a gente tinha que emprestar ainda um serrote. Não tina esta ferramenta em casa. Outra vez chegou um jovem. Numa briga violenta ele tinha levado uma bala na barriga. Aqui não tinha tempo de esperar. Para evitar uma inflamação o intestino precisava ser costurado dentro de 24 h. O Pe. Konrad ajudou na preparação da cirurgia e a Luise realizou-a. Graças aos conhecimentos e a habilidade dela tudo saiu bem. Hoje em dia uma situação desta? Não para pensar!

A minha lembrança mais especial ... num parto prematuro faleceu a mãe. A criança, um menino, ficou conosco. Nós o criamos nos primeiros anos. Cléo, o nome dele, foi depois adotado pela família de uma das nossas meninas em formação. Nunca vou me esquecer disso. Cléo chamou cada uma de nós de mamãe.

 

O final do tempo e de seu trabalho em Altamira ... Quando você deixou o Xingu?

Nosso serviço ficou terminado até o mês de Abril 1970. Partimos nós três juntos. Esta vez viajamos de modo luxurioso com um navio de cruzeiro. Chegamos em Gênova na Itália. Daqui cada uma tomou seu rumo. Meu reencontro com a minha família foi maravilhoso. Não houve muito contato com os familiares durante estes quatro anos. Meu pai no primeiro instante nem me reconheceu. Foi bom estar de volta em casa.

 

Mais uma pergunta: O que fica deste tempo como enfermeira na missão?

Fica o sentimento bom que eu estava no lugar certo no tempo certo. Eu nunca me arrependi da minha decisão. Estes anos em Altamira marcaram a minha vida e se tornaram importante para o meu desenvolvimento pessoal. Se ainda estivesse jovem ... eu ia decidir de novo por uma missão como esta.