Bispo

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“Concede-nos a vida, eis o nosso pedido” (cf. Ester 7,3)

No dia 4 de abril o Papa Francisco me recebeu em audiência. Como Secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia tive o privilégio de falar-lhe por quase vinte minutos sobre a Amazônia e nossas comunidades. Manifestei a nossa preocupação com o fato de 70% delas poderem participar da Eucaristia apenas duas ou três vezes ao ano. (veja vídeo em alta resolução sobre a entrevista com o Papa)

Falei das “alegrias e esperanças, tristezas e angústias de homens e mulheres, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (Gaudium et Spes,1) na Amazônia. Disse que a dura realidade de violência e morte com que somos diariamente confrontados nos aperta o coração. A Amazônia é um desafio enorme que exige da Igreja sempre novas e, muitas vezes, audaciosas respostas à luz do Evangelho. Amazônia é realmente o “teste decisivo para a Igreja e a sociedade brasileiras”

Outro tema tratado foi a ecologia, entendida no sentido mais amplo como “ecologia humana”. De fato, não podemos separar a família humana do meio-ambiente em que vive ou abstrair o meio-ambiente dos homens e mulheres responsáveis pela criação de Deus, o lar de toda a humanidade, também das futuras gerações. É uma grande responsabilidade que temos como Igreja naquela perspectiva de que o Papa Francisco falou aos bispos do Brasil no dia 27 de julho de 2013 quando fez seu “forte apelo ao respeito e à salvaguarda de toda a criação que Deus confiou ao homem, não para que a explorasse estupidamente, mas para que ela se tornasse um jardim”.

Em relação a todos esses temas o Papa Francisco me disse que espera de nós bispos sugestões concretas, propostas corajosas. Não podemos esperar do Papa receitas prontas para todas as questões e temas. O Papa volta a pedir quase com as mesmas palavras que usou no Rio de Janeiro, que tenhamos parrhesia, que sejamos “no modo portenho de falar ‘corajudos’!”

E, logicamente, como presidente do Cimi já no quarto mandato, não podia deixar de falar ao Papa Francisco dos Povos Indígenas no Brasil. Falei do Cimi, da sua presença junto aos povos indígenas e também de seu objetivo de sensibilizar e conscientizar a sociedade majoritária a respeito da dignidade e dos direitos destes povos. Recordei-lhe o encontro que teve com indígenas por ocasião da Jornada Mundial da Juventude quando um índio lhe colocou um lindo cocar na cabeça e outro índio pataxó de apenas 14 anos exclamou: “É fantástico que alguém da nossa comunidade teve oportunidade de conhecer o papa. Nós aqui estamos representando todos os índios do Brasil“. Vários indígenas da Amazônia disseram naquele dia que esperavam a ajuda do Papa na defesa de suas terras ancestrais.

Entreguei ao Papa Francisco um texto que de modo sucinto aborda todos os assuntos que em seguida passo a expor. O Papa Francisco foi muito fraterno, atencioso e interessado. Percebe-se que seu coração bate forte quando se fala das pessoas que um sistema econômico que visa somente produção e consumo considera “supérfluos” e “descartáveis” (DAp 65) porque não rezam na sua cartilha.

Finalmente pedi a bênção para os irmãos e irmãs do Xingu e os povos de todo o Brasil. Porém, antes de dar a bênção

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Abaixo, uma entrevista de Dom Erwin ao Instituto Humanitas Unisino, falando sobre sua audiência com o Papa Francisco.

O título da entrevista destaca a denúncia corajosa do Cimi e toda sua equipe e aborda assuntos caros a Igreja, como a eucaristia. Logicamente, a impressão pessoal do Bispo do Xingu sobre o Papa não podia deixar de ser um dos assuntos.

 

Denúncia feita ao Papa: “Grupos político-econômicos buscam desconstruir os direitos territoriais dos povos indígenas”.

Entrevista especial com Dom Erwin Kräutler

 

“Denunciei ao Papa que, contrariando o que determina a Constituição Brasileira, o atual governo suspendeu os procedimentos administrativos de reconhecimento e demarcação de terras indígenas no país”, narra o Bispo do Xingu.

Foto: Cultura Indigena 

A maior diocese do Brasil fica no Xingu e soma aproximadamente 800 comunidades, mas tem apenas 27 padres. Fora essa desproporção, a região conta com muitos desafios à defesa dos direitos dos indígenas e, também, ao trabalho da Igreja na Amazônia. Ambos os temas foram tratados no encontro de Dom Erwin Kräutler, Bispo do Xingu, com o papa Francisco, no último dia 4 de abril.

“Agradeci o privilégio de ser recebido em audiência como bispo do Xingu, que é a maior circunscrição eclesiástica do Brasil em extensão territorial. (...) Como em toda a Amazônia, também no Xingu as comunidades, em sua imensa maioria, só têm acesso à celebração eucarística dominical duas ou três vezes ao ano”, conta Dom Erwin Kräutler, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

“Denunciei que existem hoje grupos político-econômicos ligados ao agronegócio, a mineradoras e empreiteiras, com apoio e participação do governo brasileiro, que buscam desconstruir os direitos territoriais dos povos indígenas e, para conseguir tal objetivo, utilizam sistematicamente instrumentos político-administrativos, judiciais e legislativos”, argumenta Dom Erwin.

“E neste contexto falei dos empreendimentos desenvolvimentistas que causam um verdadeiro caos social e ambiental. Citei como exemplo a hidrelétrica Belo Monte, no Xingu. Todas as apreensões técnicas manifestadas por especialistas não conseguiram convencer o governo brasileiro a desistir desse megaprojeto. Em torno de 40 mil pessoas são diretamente atingidas por Belo Monte e terão que deixar suas casas”, complementa.

Dom Erwin Kräutler é Bispo do Xingu e presidente nacional do Conselho Indigenista Missionário – CIMI.

Foto: Plattform Belo Monte

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como foi seu encontro com o Papa Francisco? Sobre quais assuntos conversaram? Belo Monte e a situação da população do Xingu foram temas abordados pelo senhor?

Dom Erwin Kräutler - O encontro com o Papa Francisco tinha a ver com minha função de Secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia. O nosso Cardeal Dom Claudio Hummes, que é presidente desta comissão, incentivou-me a solicitar uma audiência particular com o Papa para falar-lhe da minha vida e da experiência na Amazônia e, como testemunha que conhece a Amazônia há meio século, colocá-lo a par de nossas preocupações como Igreja nesta região. Mas sou também Presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), já no quarto mandato. E com esta responsabilidade me senti realmente na obrigação de partilhar com o nosso Papa Francisco a realidade em que vivem os povos indígenas no Brasil, seus sofrimentos e angústias.

A audiência estava marcada para as 10 horas do dia 4 de abril de 2014. Eu havia convidado o Padre Paulo Suess, assessor teológico do Cimi e profundo conhecedor da Causa Indígena no Brasil e na América Latina, a acompanhar-me nesta audiência para que o pudesse apresentar ao Papa. Após saudarmos o Papa e as fotos de praxe, o Padre Paulo Suess ofereceu-lhe seu Dicionário de Aparecida - 40 palavras-chave para uma leitura pastoral do Documento de Aparecida (São Paulo: Paulus, 2007) e mais um texto que redigiu sobre as comunidades sem Eucaristia. Aí o Papa falou logo que esperava sugestões concretas, propostas corajosas dos bispos como ele já havia pedido em 27 de julho de 2013, por ocasião de sua visita ao Brasil, na Jornada Mundial da Juventude: “Peço, por favor, para serem corajosos, para terem parrhesia! No jeito ‘portenho’ (de Buenos Aires) de falar, lhes diria para serem ‘corajudos’”.

Comunidades sem Eucaristia

O Papa convidou-me então a sentar. Agradeci o privilégio de ser recebido em audiência como bispo do Xingu, que é a maior circunscrição eclesiástica do Brasil em extensão territorial. Há no Xingu em torno de 800 comunidades e apenas 27 padres. Como em toda a Amazônia, também no Xingu as comunidades, em sua imensa maioria, só têm acesso à celebração eucarística dominical duas ou três vezes ao ano. É muito doloroso para mim, como bispo, conviver com essa realidade. De repente o Papa me perguntou: “O que pensa ou qual a sua proposta neste sentido?”. Jamais esperava que o Papa quisesse ouvir a minha opinião, e disse: “Não tenho uma ‘receita’ pronta, mas precisamos com urgência encontrar uma solução para que o nosso povo deixe de ser excluído da Eucaristia”. O Papa me respondeu então que havia algumas “teses interessantes”, por exemplo, a de um bispo alemão que foi bispo na África do Sul. Trata-se de Dom Fritz Lobinger (*1929), que de 1987 a 2004 foi bispo da Diocese de Aliwal. Seu livro Altar vazio. As comunidades podem pedir ordenação de ministros próprios (Aparecida: Editora Santuário, 2010) foi traduzido em várias línguas. Dom Fritz Lobinger sonha com ministros ordenados que pertencem à comunidade e continuam a vida de família e profissional. O papa lembrou ainda uma diocese no México onde, nas muitas etnias indígenas, há centenas de diáconos casados que exercem seu ministério junto ao seu povo e presidem as suas comunidades. Só lhes falta a ordenação sacerdotal para poder presidir também a celebração eucarística. É a diocese de San Cristobal de Las Casas, no estado de Chiapas. Mais uma vez o papa Francisco insistiu que os bispos de determinada região apresentassem propostas bem concretas e corajosas. Disse-me que esperava e aguardava tais propostas dos bispos.

Lembrou o grande José de Anchieta, agora “São José de Anchieta”. Quem sabe, esse santo, que chegou das Ilhas Canárias ao Brasil com menos de 20 anos e nunca mais voltou à sua terra natal, pode fomentar nas dioceses brasileiras com número suficiente de padres o espírito missionário rumo à Amazônia.

Vi os olhos do Papa brilharem quando falou dos missionários e missionárias na Amazônia. Recordou-me que o Cardeal Dom Claudio Hummes havia lhe falado a respeito de tantos bispos e padres, religiosas e religiosos, leigas e leigos engajados na evangelização desta região de extensão continental e expressou a todos seu carinho e sua admiração.

Os Povos Indígenas no Brasil

Passei então à questão dos povos indígenas. Falei do Cimi, da sua presença junto aos povos indígenas e também de seu objetivo de sensibilizar e conscientizar a sociedade majoritária a respeito da dignidade e dos direitos destes povos. Disse que o Cimi contribuiu decisivamente para que os índios tenham reconhecido na Carta Magna do Brasil “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e o direito originário às terras que tradicionalmente ocupam” (artigo 231 da Constituição Brasileira). Denunciei que existem hoje grupos político-econômicos ligados ao agronegócio, a mineradoras e empreiteiras, com apoio e participação do governo brasileiro, que buscam desconstruir os direitos territoriais dos povos indígenas e, para conseguir tal objetivo, utilizam sistematicamente instrumentos político-administrativos, judiciais e legislativos.

Denunciei ainda que, contrariando o que determina a Constituição Brasileira, o atual governo suspendeu os procedimentos administrativos de reconhecimento e demarcação de terras indígenas no país. A paralisação das demarcações é uma das principais causas de conflitos de que os povos indígenas são vítimas. Citei alguns exemplos que comprovam a violência contra os povos indígenas. Falei do confinamento dos Guarani-Kaiowá numa área tão diminuta que resulta em mortes, suicídios e sofrimento atroz e permanente. Lembrei também a precária assistência à saúde por parte do Estado Brasileiro, especialmente na Terra Indígena Vale do Javari, no estado do Amazonas; 85% dos indígenas tiveram contato ou estão contaminados por um ou mais vírus da hepatite. Não podia deixar de referir-me também aos aproximadamente 90 grupos de povos indígenas na Amazônia brasileira em situação de isolamento, muitos deles correndo risco de dizimação.

Finalmente recordei o encontro do Papa com indígenas por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, quando um índio lhe colocou um lindo cocar na cabeça e outro índio-pataxó de apenas 14 anos exclamou: “É fantástico que alguém da nossa comunidade teve oportunidade de conhecer o papa. Nós aqui estamos representando todos os índios do Brasil“. Vários indígenas da Amazônia disseram, naquele dia, que esperavam a ajuda do Papa na defesa de suas terras ancestrais.

Amazônia e a Ecologia

Com uma outra recordação que fiz ao papa, passamos para a questão da Ecologia. Lembrei-lhe o que havia falado aos bispos do Brasil em seu discurso de 27 de julho de 2013: “Queria convidar todos a refletirem sobre o que Aparecida disse a propósito da Amazônia, incluindo o forte apelo ao respeito e à salvaguarda de toda a criação que Deus confiou ao homem, não para que a explorasse estupidamente, mas para que ela se tornasse um jardim”. E neste contexto falei dos empreendimentos desenvolvimentistas que causam um verdadeiro caos social e ambiental. Citei como exemplo a hidrelétrica Belo Monte no Xingu. Todas as apreensões técnicas manifestadas por especialistas não conseguiram convencer o governo brasileiro a desistir desse megaprojeto. Em torno de 40 mil pessoas são diretamente atingidas por Belo Monte e terão que deixar suas casas.

O Papa me disse então que está pensando numa encíclica sobre a ecologia e enfatizou: “também a ecologia humana”. Tem toda a razão. Não podemos separar a família humana do meio ambiente em que vive ou abstrair o meio ambiente dos homens e mulheres responsáveis pela criação de Deus, o lar de toda a humanidade, também das futuras gerações. Insisti dizendo que nesta futura encíclica a Amazônia e os Povos Indígenas não podem ficar ausentes. O Papa me revelou que já havia encarregado o cardeal africano Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, a elaborar um esboço. Respondi ao Papa: “Pois é, estive ontem com o Cardeal Turkson por várias horas e um dos assuntos foi exatamente este. Insisti que a Amazônia e os Povos indígenas não faltassem numa futura encíclica sobre ecologia. E o cardeal me pediu que o ajudasse nestes pontos. Aceitei o convite com muita alegria”. O Papa acenou contente e agradeceu minha disponibilidade de colaborar.

O abraço do Povo do Xingu

Finalmente falei ao Papa que o meu povo do Xingu lhe quer muito bem e o abraça carinhosamente: “Devo transmitir-lhe o abraço de milhares e milhares de mulheres e homens”. Aí ele disse que retribuía o abraço e, sorrindo, me encarregou de dar, em nome dele, um abraço a cada uma, a cada um dos irmãos e das irmãs na Prelazia do Xingu.

Já na despedida pediu ao povo do Xingu que rezasse muito por ele. Lembrei-me do momento em que apareceu, pela primeira vez como Papa, na sacada da Basílica de São Pedro e, antes de dar sua primeira bênção, pediu a oração do povo de Roma e do mundo inteiro. Assim também pediu, primeiro, orações para depois enviar sua bênção ao povo do Xingu. Agradeci mais uma vez o privilégio de receber-me em audiência e beijei o seu tão simples Anel de Pescador. Em seguida, o Papa me acompanhou gentilmente até a porta.

IHU On-Line - Quais suas impressões da conversa com o Papa Francisco?

Dom Erwin Kräutler - O Papa Francisco é muito cordial, fraterno. Seu sorriso não tem nada de postiço. É a vitrine de sua alma e seu coração. Quem se encontra com ele, logo se sente acolhido. Mesmo que no Palácio Apostólico se respire o ar de muitos séculos passados e as tantas salas com tronos e obras de arte que parecem mais um museu, quando entrei na biblioteca e o Papa veio ao meu encontro e com um cordial sorriso me estendeu a mão, percebi que estou “em casa”. Quem cria um ambiente tão afável e acolhedor não são as obras de arte, mas a pessoa do Papa Francisco.

Não sei por que, mas durante a nossa conversa, de repente me veio à mente a figura de Moisés que tirou o povo da casa da escravidão para levá-lo à Terra Prometida. Teve de suportar lancinantes decepções, incompreensão, maledicência aberta e velada, até a revolta do povo a ponto de querer retornar à terra de que Deus o tirou “com mão forte e braço estendido” (Dt 4,34; 26,8). Mas Moisés, em meio a todas as frustrações, deixou-se conduzir pelo Senhor, foi em frente, passo a passo. E por quê? Uma profunda mística o alimentou e manteve firme, também em horas de trevas mais espessas. Nunca esqueceu o que Deus lhe falou na alvorada do Êxodo: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12). “O Senhor o conhecia face a face” (Dt 34,10) é o derradeiro comentário sobre Moisés no Livro do Deuteronômio. Penso que o Papa vive uma mística semelhante. Sabe que Deus está com ele e essa certeza da presença de Deus em sua vida é o segredo de seu sorriso cativante.

IHU On-Line - Como o senhor descreveria a reação das pessoas, em geral, e da Igreja, em particular, na Europa, e, especialmente, na Áustria, do pontificado de Francisco?

Dom Erwin Kräutler - Vivo há quase 50 anos no Xingu e por isso não me atrevo a fazer análises a respeito das Igrejas na Europa, nem sequer na Áustria, onde nasci. Deixo isso com os pastoralistas de lá. Mas pelos meus contatos com padres e bispos e pessoas mais engajadas, percebo que há um profundo sentimento de gratidão a Deus e uma incontida alegria por termos esse papa. Não se espera dele que de hoje para amanhã consiga fazer as reformas, há tempo necessárias, mas há uma imensa esperança de que o Papa Francisco dê uma guinada em nossa Igreja.

Alguns são impacientes e querem que o Papa tome decisões “já” em relação às na Europa chamadas “Heisse Eisen” (questões escaldantes), como as normas para admissão ao sacerdócio, o celibato, o papel da mulher na Igreja, o processo para escolha de bispos, a comunhão para casados em segundas núpcias.

Existem também pessoas que, ao que parece, insistem em continuar nos tempos do Concílio de Trento (1545-1563). Não aceitam o modo simples, humilde, acolhedor do papa e, pior, questionam até a sua teologia, seus apelos à misericórdia e duvidam de sua ortodoxia arvorando-se em defensores da fé católica. Graças a Deus é uma minoria numericamente insignificante, mas é gente fanática, intransigente, birrenta que dá dó.

IHU On-Line - Quais são as expectativas quanto ao Sínodo Extraordinário para a Família na Europa? E no Brasil?

Dom Erwin Kräutler - As expectativas são enormes, especialmente depois da pesquisa realizada pela Santa Sé no mundo inteiro. O Sínodo Extraordinário terá uma tarefa homérica a cumprir e as discussões sinodais, sem dúvida, serão acaloradas, o que não deixa de ser positivo quando se buscam respostas aos anseios de milhões e milhões de famílias que aguardam deste Sínodo linhas, diretrizes, orientações.

O discurso proferido pelo cardeal Walter Kasper no Consistório dos Cardeais, em 20 de fevereiro de 2014, pode ser um excelente ponto de partida para as discussões na ala sinodal, especialmente numa questão muito candente como o acesso à comunhão eucarística de divorciados em segundas núpcias. Walter Kasper lembra, em seu discurso, o que o Papa Francisco falou em 24 de janeiro de 2014 aos oficiais do Tribunal da Rota Romana (a instância superior de apelação na Sé Apostólica). O papa afirma que “a pastoral e a misericórdia não se contrapõem à justiça, mas, por assim dizer, são a justiça suprema, porque por trás de cada causa elas avistam não só um caso a ser examinado na ótica de uma norma geral, mas sim uma pessoa humana que, como tal, nunca pode tornar-se um mero caso e sempre tem uma dignidade única“.

Espero que haja realmente diálogo. No Sínodo para a América em que participei, em 1997, como delegado da CNBB, não havia suficiente espaço para trocar ideias, discutir pontos de vista. Faço votos de que finalmente se crie um organograma e fluxograma favoráveis ao diálogo.

E espero ainda que neste sínodo não sejam apenas os padres sinodais, cardeais e bispos que tenham voz, mas que casais e famílias sejam convidados e ouvidos, inclusive pessoas cujo matrimônio fracassou e pedem compaixão e misericórdia para sua situação dolorosa e muitas vezes irreversível.

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Relatório da Presidência do Cimi referente ao período 2012-2013


Introdução

 

Sede zelosos e diligentes, fervorosos de espírito, servindo sempre ao Senhor, alegres por causa da esperança, fortes nas tribulações, perseverantes na oração” Rom 12,12

 

Vivemos estes últimos dois anos com desafios e preocupações constantes. Lado a lado com os povos indígenas enfrentamos o mais violento dos ataques aos seus direitos na história recente do país.

A opção do governo brasileiro por um modelo de “desenvolvimento” altamente dependente da exploração e exportação de matérias-primas, especialmente das commodities agrícolas e minerais, acelerou a disputa pelo controle dos territórios no país.

Setores político-econômicos anti-indígenas e antidemocráticos, representantes do latifúndio, das mineradoras e das grandes empreiteiras e o governo brasileiro mostraram estranha proximidade e articulação. Em relação aos direitos territoriais dos povos indígenas, fizeram de tudo para:

a) inviabilizar e impedir o reconhecimento e a demarcação das terras indígenas que continuam usurpadas, ocupadas por não índios;

b) reabrir e rever procedimentos de demarcação de terras indígenas já finalizados;

c) invadir, explorar e mercantilizar as terras demarcadas.

Buscaram desconstruir os direitos historicamente conquistados pelos povos fazendo uso de uma ampla gama de instrumentos administrativos e legislativos, tais como: as Portarias 419/11 e 303/12, o Decreto 7957/13, As Propostas de Emendas Constitucionais (PECs) 038/99, 215/00, 237/13, os projetos de Lei 1610/96, 195/11, o Projeto de Lei Complementar 227/12.

Ações policialescas resultaram na morte de líderes indígenas: Adenilson Kirixi Munduruku, no Estado do Pará e Oziel Terena, no Mato Grosso do Sul.

A presença de cada missionária e missionário junto aos povos indígenas foi fundamental e tem contribuído para a defesa e mobilização dos povos indígenas, elemento central para evitar os retrocessos almejados pelos seus inimigos.

Foi justamente nesses momentos de presença solidária que nos demos conta da grande resistência e capacidade de mobilização e articulação dos povos e vivemos momentos de alegria e realização institucional e pessoal.

Os anos 2012 e 2013 foram marcados também por reflexões na busca de soluções para os nossos problemas "caseiros":

- a formação de missionárias e missionários;

- a busca de financiamento para os trabalhos das equipes em todos os regionais;

- a definição de horizontes de nossas estratégias para uma atuação conjunta.

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não havia lugar para eles“
(Lc 2,7)

Por que não havia lugar para eles?

São forasteiros.

Ninguém os conhece.

Falam com sotaque da Galileia.

Aqui não é lugar para estranhos!

 

E essa mulher grávida!

Logo mais vai dar à luz.

Aqui não é lugar para parto.

Um recém-nascido perturba e

tira o sossego de outros hóspedes.

 

Aqui não há lugar!

Somente lá fora, naquele estábulo!

 

Brasil, país imenso,

privilegiado por Deus,

natureza exuberante,

terra fecunda,

águas saudáveis!

 

Mas é um lar de portas abertas?

Há lugar para todos?

 

Indígenas expulsos de suas terras.

Agricultores banidos do campo.

Famílias arrancadas de suas casas e sítios

por causa da hidrelétrica de Belo Monte.

Mães com crianças sem abrigo.

Doentes sem leito nos hospitais.

 

Jesus nasceu fora da cidade.

Dois mil anos atrás não havia lugar para ele.

Será que hoje é diferente?

 

Que o Santo Natal nos faça abrir os olhos e o coração

e as bênçãos de Deus nos acompanhem no Ano Novo!

 


A foto é de Mário Sérgio Rainha Campos, tirada na Aldeia Kararaô, no Xingu. O Departamento de Direito Internacional da OEA promoveu em parceria com o Art Museum of the Americas um concurso de fotografia com o tema “OLHARES INDÍGENAS”. A fotografia de Mário Sérgio foi clássificada como vencedora e ele me pediu um comentário para ser apresentado na premiação que ocorreu em 9 de novembro de 2013 em Washington.

A menina é filha de um povo ameaçado em sua sobrevivência cultural e física. A ambição, a ganância, a busca desenfreada de riquezas passam por cima de seres humanos, profanam sua sabedoria milenar e os consideram supérfluos e descartáveis. O mundo em que só vale quem produz ou consome os condena à morte.

 

O Xingu é a última fronteira indígena. Aqui se abrigam ainda povos de todos os troncos linguísticos da América do Sul. Belo Monte é o golpe fatal no coração da Amazônia, o réquiem para os povos indígenas. Belo Monte é a orquestração de dissonâncias e cacofonias que hoje se sobrepõe às vozes paradisíacas das selvas outrora eternas, que sufoca o silêncio das águas intermináveis e irá emudecer o estrondo das majestosas cataratas.

 

A menina não sabe que está sendo preparada para um rito que um apocalipse implacável engendrado por homens desalmados pretende destruir para sempre. Oxalá a foto se transforme num último ingente clamor de todos os indígenas a sacudir a humanidade, um brado de esperança para quem não quer morrer e acredita até hoje no "sumak kawsay" no "bem viver" para todos e sempre.“

 

Santo Natal e abençoado Ano Novo!

Que em nosso querido Brasil

haja lugar para os Povos Indígenas!

 

Erwin Kräutler

Bispo do Xingu

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Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho,

quando nos explicava as Escrituras!” (Lc 24,32)

 

CARTA DO PRIMEIRO ENCONTRO DA IGREJA CATÓLICA NA AMAZÔNIA LEGAL

 

Irmãs e irmãos,

 

Reunidos no Primeiro Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, em Manaus, entre os dias 28 e 31 de outubro de 2013, nós, bispos, presbíteros, religiosas e religiosos, agentes de pastoral leigas e leigos, queremos partilhar com vocês as reflexões e análises sobre a situação atual da nossa região e as respostas que, como pastores, pretendemos dar aos desafios de nossos tempos. Agradecemos a Deus pelas maravilhas que operou entre nós e nossos irmãos e irmãs que, por um compromisso profético, testemunharam sua fé, muitas vezes até as últimas consequências (cf. Jo 13,1), dispostos a “dar não somente o Evangelho, mas até a própria vida” (1 Tes 2,8). Ao nos prepararmos para celebrar os 400 anos do início da evangelização na Amazônia, assumimos a missão que o Senhor nos propõe, de sermos suas testemunhas, discípulas/os, missionárias/os de sua Palavra, pois a Igreja é “enviada por Cristo a manifestar e a comunicar o amor de Deus a todos os homens e mulheres e a todos os povos” (AG 10).