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Mensagem de Páscoa do Bispo Dom Erwin Krautler:

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A monstruosidade de Belo Monte e descalabro em Altamira que Dilma não teve coragem de ver. Entrevista especial com D. Erwin Kräutler

Dilma impôs no ano de 2013 a paralisação dos procedimentos demarcatórios de terras indígenas”, diz o religioso. E pergunta: "Por que os teólogos não aproveitaram a audiência com Dilma para unir-se aos povos indígenas no grito uníssono de “Demarcação já!”?

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Foto: Wikistrike

A chegada de um novo ano quase sempre traz votos de renovação e esperança. Porém, 2015 não começa com esse espírito para quem vive nas cercanias das obras de construção da Usina de Belo Monte, em Altamira, no Pará. Em entrevista concedida por e-mail para IHU On-Line, o bispo do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, dom Erwin Kräutler, denuncia o que já havia previsto: “a grande euforia que cinco anos atrás tomou conta da cidade de Altamira, a ponto de muitos carros e motos exibirem adesivos “queremos Belo Monte”, cedeu lugar a um surdo desânimo. Até agora, nada do que comerciantes, empresários e os políticos de plantão esperaram e prognosticaram como a salvação do oeste do Pará se realizou. A cidade está quase intransitável. Homicídios, assaltos, arrastões estão na ordem do dia. O povo está apreensivo e assustado”, pontua.

A difícil situação apontada por dom Erwin é ainda mais complicada quando se tenta traçar uma perspectiva de futuro do governo que se inicia. Isso, levando em consideração as posturas que a presidente Dilma Rousseff vem adotando nesse seu segundo mandato. Além de não citar questões que são velhas demandas de povos indígenas em seu discurso de posse, a presidente nomeia Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura. Sinais que, para dom Erwin, podem dizer muito do que pode vir pela frente. “Para Dilma, Belo Monte nunca foi assunto de pauta com movimentos populares ou a população diretamente impactada. (...) O governo continua a defender o latifúndio e os privilégios que tem concedido ao agronegócio contra os povos indígenas. (...) O rolo compressor continuará a passar por cima de todos nós aqui no Xingu e em breve por cima dos povos do Tapajós e de outros rios da Amazônia”, prevê.

Dom Erwin Kräutler é bispo prelado de Xingu, PA, presidente do Conselho Indigenista Missionário - CIMI.

Confira a entrevista.

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Foto: IHU

IHU On-Line - Há mais de cinco anos o senhor alerta para os riscos e implicações sociais e ambientais da construção de Belo Monte. Como tem sido acompanhar esse processo, desde a elaboração do projeto até o início da construção da usina?

Dom Erwin Kräutler - Na realidade, essa luta contra o barramento do Rio Xingu já dura mais de 30 anos. Por algum tempo acreditávamos que o projeto fosse arquivado. Foi engano. Quando Lula assumiu o governo, em vez de definitivamente renunciar a essa monstruosidade, abraçou-o e secundando os pareceres eufóricos de sua ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, deu ênfase especial à execução da obra, incorporando-a ao Programa de Aceleração do Crescimento - PAC.

As implicações sociais e ambientais estavam programadas, especialmente a partir daquele dia fatídico em que o Governo entendeu que as condicionantes exigidas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente - IBAMA e pela Fundação Nacional do Índio - FUNAI não precisavam ser atendidas antes da instalação do canteiro de obras, mas poderiam ser cumpridas ao longo da execução do projeto. Com essa decisão, não foi instalado apenas o canteiro de obras, mas também o caos em Altamira. Durante a campanha eleitoral, a presidente Dilma veio visitar Belo Monte para gravar um vídeo. Seu avião pousou no aeroporto de Altamira. No entanto, ela não teve coragem de entrar na cidade para ver “in loco” o descalabro que nos assola.

IHU On-Line - Em que estágio se encontra a construção de Belo Monte?

Dom Erwin Kräutler - Volta e meia se noticia que a construção estaria atrasada por causa das várias manifestações contrárias ao projeto. Mas, tenho a impressão de que está bastante adiantada. Já são derrubadas as casas nos bairros que serão atingidos, e as famílias, transferidas para as novas moradias construídas em concreto. Sei, no entanto, que nem de longe haverá casas suficientes para abrigar todas as famílias.

IHU On-Line - O senhor tem visitado várias comunidades da Prelazia do Xingu. Qual é o sentimento das pessoas em relação à construção de Belo Monte?

Dom Erwin Kräutler - A grande euforia que cinco anos atrás tomou conta da cidade de Altamira, a ponto de muitos carros e motos exibirem adesivos “queremos Belo Monte”, cedeu lugar a um surdo desânimo. Até agora, nada do que comerciantes, empresários e os políticos de plantão esperaram e prognosticaram como a salvação do oeste do Pará se realizou. A cidade está quase intransitável. Homicídios, assaltos, arrastões estão na ordem do dia. O povo está apreensivo e assustado.

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“Lula me assegurou que o governo havia aprendido a lição dos erros cometidos em outros empreendimentos e que Belo Monte seria totalmente diferente. Mas,  se repete a história da Usina Hidrelétrica Tucuruí”

Houve certo boom na construção civil devido à procura de aluguéis. Alguns ganharam somas exorbitantes cedendo quartos ou casas a preços exagerados. Mas essa onda passou quando a Norte Energia instalou a vila residencial bem próxima ao canteiro de obras. A vila possui infraestrutura completa, com escola, farmácia, supermercado, restaurantes, padaria, academia de ginástica, clube, biblioteca e áreas livres para recreação e lazer e ainda serviços de clínica geral, ginecologia, cardiologia, oftalmologia, pediatria, odontologia, pronto-atendimento, laboratório e salas de raios-X e ultrassonografia. Essas comodidades de primeiro mundo estão em manifesto contraste com as condições em que vivemos na cidade da Altamira.

Lula me assegurou, num dos encontros que tive com ele, que o governo havia aprendido a lição dos erros cometidos em outros empreendimentos e Belo Monte seria totalmente diferente. Mas, na realidade, mais uma vez se repete a já conhecida história da Usina Hidrelétrica Tucuruí, também no Estado do Pará (a 350 km ao sul de Belém), construída a partir de 1975 e inaugurada em novembro de 1984. Surgiu uma cidade-luxo em torno da obra, e a cidade de Tucuruí foi condenada à categoria de cidade-lixo. Nosso grande medo em Altamira é de que, na inauguração de Belo Monte, as prometidas melhorias em infraestrutura nem de longe estejam concluídas e, depois da festa, se desmonta o palanque e a população ficará entregue à própria sorte.

IHU On-Line - Que espécie de conflitos a construção de Belo Monte tem gerado entre as comunidades indígenas e entre indígenas e não indígenas? Como Belo Monte tem afetado e até mesmo rompido com a cosmologia indígena?

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 “Desde que decidiu construir Belo Monte, o governo se equivocou quanto aos impactos que os povos indígenas da Grande Volta do Xingu iriam sofrer”

Dom Erwin Kräutler - Desde que decidiu construir Belo Monte, o governo se equivocou quanto aos impactos que os povos indígenas da Grande Volta do Xingu iriam sofrer. Propagou-se por todo o Brasil a informação de que nenhuma aldeia indígena seria inundada. E é verdade. De fato, a água do reservatório não vai submergir nenhuma aldeia. O contrário acontecerá: o rio que banha as aldeias vai sumir ou se tornará um córrego atrofiado com uma sequência de lagoas bem rasas. O peixe desaparecerá e sem água suficiente não haverá condições de sobrevivência nestes lugares. Os indígenas forçosamente serão desterrados para outros locais. Muitos já se transferiram para a cidade e perdem sua cultura, seus costumes e sua maneira própria de organizar-se em comunidade. Lamentavelmente, grande número sucumbe aos vícios dos brancos.

IHU On-Line - O senhor leu a carta do Grupo de Emaús à presidente Dilma? Como vê as manifestações do grupo de teólogos acerca dos impactos dos megaprojetos, sem fazer referência direta às hidrelétricas?

Dom Erwin Kräutler - A carta entregue pelo Grupo Emaús à Presidente Dilma em audiência que ela concedeu a uma delegação dessa entidade no dia 26 de novembro de 2014 tem o título “O Brasil que queremos”. Vejo na escolha do título certa analogia com o documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento SustentávelRio + 20 (20 a 22 de junho de 2012) “O futuro que queremos”. É um documento chocho e insosso, sem consequências palpáveis. Assim também a carta dos teólogos não faz nenhuma reivindicação pontualizada, nenhuma exigência concreta, nenhuma denúncia circunstanciada, fornecendo nomes e endereços. E destarte, logicamente também não fala das consequências perniciosas de Belo Monte e de muitos outros projetos do Programa de Aceleração do Crescimento - PAC. Não empresta sua voz — como se esperaria de teólogos — às famílias arrancadas de seus lares e suas terras e de tantos outros que foram atingidos por barragens ao longo das décadas passadas. Não reclama nada. Só pede uma “reavaliação”.

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“O descumprimento dos parâmetros constitucionais da Carta Magna de 1988 que previu a demarcação de todas as áreas indígenas num prazo de cinco anos é o lúgubre pano de fundo de todos os conflitos sangrentos que causaram centenas de mortes de indígenas em todos os quadrantes do país”

Da mesma maneira, só fala genericamente da defesa dos direitos indígenas e quilombolas. Não emprega uma única vez a palavra “demarcação”. Dilma impôs no ano de 2013 a paralisação dos procedimentos demarcatórios de terras indígenas. Assim, demonstrando claramente que as atenções de seu governo estão voltadas aos setores da economia e da política ligados ao latifúndio, ao agronegócio, às empreiteiras, mineradoras e empresas de energia hidráulica, que visam exclusivamente à exploração da natureza em terras tradicionalmente ocupadas por povos indígenas. O descumprimento dos parâmetros constitucionais da Carta Magna de 1988 que previu a demarcação de todas as áreas indígenas num prazo de cinco anos é o lúgubre pano de fundo de todos os conflitos sangrentos que causaram centenas de mortes de indígenas em todos os quadrantes do país. Por que os teólogos não aproveitaram a audiência para unir-se aos povos indígenas no grito uníssono de “Demarcação já!”?

Ao assumir o segundo mandato, a presidente da República chegou a propor um diálogo com a sociedade. A pergunta que me faço é se ela realmente está disposta a ouvir, a discutir, a receber críticas, a conversar, por exemplo, com os povos indígenas ou os atingidos por barragens. Em relação a Belo Monte, o seu predecessor na Presidência me falou, em 22 de julho de 2009, que o diálogo tem que continuar. Mas foi Lula mesmo que o abortou. Para Dilma, Belo Monte nunca foi assunto de pauta com movimentos populares ou a população diretamente impactada. Dilma se negou a qualquer diálogo sobre este tema. Pelo contrário, mandou recado a quem fizesse oposição à menina de seus olhos: Belo Monte é irreversível!

E como vimos há poucos dias, Dilma não se deixou impressionar nem um pouco pelas manifestações contrárias à nomeação de Kátia Abreu, implementadas por amplos setores da sociedade brasileira. Na entrevista que Kátia Abreu deu à Folha de São Paulo no dia 5 de janeiro, dia de sua posse como ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, ficou bem claro qual é a posição do governo em relação aos povos indígenas. O governo continua a defender o latifúndio e os privilégios que tem concedido ao agronegócio contra os povos indígenas. Povos que, na opinião grotesca da ministra, “saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção”. Não é um fato altamente indicativo que a presidente Dilma, nos dois discursos do dia de sua posse, não fez uma única referência sequer aos povos indígenas?!

IHU On-Line - Como o senhor avalia a reeleição da presidente Dilma e as declarações logo após as eleições, de que a hidrelétrica é uma das prioridades do governo?

Dom Erwin Kräutler - Eu não esperava outra coisa. Se durante o primeiro mandato e ao longo da campanha o discurso foi esse, como ela iria mudar depois de conferir os votos e se dar conta de sua reeleição? O rolo compressor continuará a passar por cima de todos nós aqui no Xingu e em breve por cima dos povos do Tapajós e de outros rios da Amazônia. As reivindicações da população não contam. Nem o Plano Básico Ambiental é cumprido. É alterado, sempre que assim convier ao governo.

IHU On-Line - Como compreender que pessoas ligadas às CEBs e à Igreja, hoje presentes no governo, defendem a construção de hidrelétricas, sem considerar os impactos às comunidades indígenas, às comunidades tradicionais e à própria população de Altamira, por exemplo?

Dom Erwin Kräutler - Respondo com um comentário de um padre gaúcho a respeito da carta de repúdio do Conselho Indigenista Missionário - Cimi à entrevista de Kátia Abreu. Partilho do mesmo sentimento do padre: “Sou padre diocesano há 50 anos (...). Desde meus últimos anos de Teologia e até hoje sempre me comprometi na defesa dos direitos dos mais pobres, entre os quais indígenas e sem terra. Conseguimos avançar pouco e agora o freio é escancarado com a prepotente Kátia Abreu. Engajei-me na construção do PT imaginando que o poder em mãos de lideranças, boa parte formada na visão da Teologia e Pastoral populares, constituiriam um ‘outro Brasil possível’, mas caíram no ralo comum. Nos traíram!”.

IHU On-Line - O senhor conhece Thais Santi, a nova procuradora do MP de Altamira? Quais são os desafios dela diante das dificuldades em torno de Belo Monte, considerando que já passaram outros procuradores por Altamira — a exemplo de Felício Pontes Jr. —, mas que pouco conseguiu avançar por conta da estrutura judiciária?

Dom Erwin Kräutler - Conheço, sim, a Thais Santi. Como também o Felício Pontes. A minha amizade com Felício já é de muitos anos. Sempre estive ligado a ele na defesa dos direitos dos povos do Xingu. E ainda de modo especial após o assassinato da Irmã Dorothy, que no próximo dia 12 de fevereiro completará dez anos.

A Thaís está em Altamira desde 2012. Muito a estimo e admiro a sua coragem. É uma verdadeira dádiva para Altamira. Posso dizê-lo em relação a seu profissionalismo e sua competência, à sua determinação na busca de solução para as mais diferentes questões que é solicitada a dirimir. Além disso, é de uma personalidade cativante. Sabe ouvir o povo simples. Faço votos de que não saia tão cedo de Altamira. É impressionante e esclarecedora a entrevista que Thaís deu a Eliane Brum: A anatomia de um etnocídio.

Tive, aliás, a felicidade de conhecer várias jovens procuradoras que passaram por Altamira e lamentavelmente ficaram apenas pouco tempo. Lembro-me também com gratidão do procurador Marco Antônio, que voltou para o seu estado de origem, o Mato Grosso do Sul. Em conversas descontraídas descobri que todos sonharam com um Brasil diferente, um Brasil bem “legal” (no mais estrito sentido da palavra!) e queriam dar a sua contribuição, lutando pelos direitos e a dignidade dos povos do Xingu, indígenas, migrantes, ribeirinhos e habitantes das cidades e vilas ao longo deste rio majestoso e maravilhoso, condenado a morrer. Esbarraram quase sempre em estruturas judiciárias adversas que obedecem a outros interesses.

IHU On-Line – Nesse começo de 2015, que mensagem é possível transmitir àqueles que vivem as consequências de Belo Monte?

Dom Erwin Kräutler - Na passagem de ano escrevi uma meditação que quero deixar aqui como palavra final de nossa entrevista:

31 de dezembro, 24:00 horas:
É 1º de janeiro, 0,00 hora.
O ano velho e o novo se tocam.
O que passou, não volta mais.
O futuro está por vir.
O “agora” é agora!
Mas, enquanto falo “agora”,
Já se foi.
Tudo flui, voa, some, morre.
E acorda, floreia, revive, brilha de novo.

A noite se torna dia,
A luz dissipa a escuridão.
A vida vence a morte.

Nosso caminho nos leva
Até o último „agora“:
Quando vida e morte
São como 24 e 0:00 horas
E o tempo esvanece na eternidade.

Até lá, Cada momento é um presente,
Mas também um convite para amar.

 

amar.

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“Com a terra, o céu murchou” (Is 24,4)

A paralisação das demarcações de terras indígenas.

 

Apresentamos mais um Relatório de Violência contra os Povos Indígenas com dados de 2013. Destacamos que muitas das agressões registradas têm como pano de fundo a paralisação de todos os procedimentos de demarcação de terras indígenas,  imposta pela Presidente da República Dilma Rousseff. Recorrentemente o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) tem denunciado a omissão do poder público na condução da política indigenista e o descaso para com a vida destes povos.  Em 2013 a omissão se tornou ainda mais enfática quando o  governo federal deixou de cumprir sua responsabilidade constitucional de realizar os procedimentos administrativos de demarcação. A atitude de retardar os já morosos processos em curso demonstra que as atenções do governo estão voltadas aos setores da economia e da política ligados ao latifúndio, ao agronegócio, às empreiteiras, mineradoras e empresas de energia hidráulica, que visam exclusivamente a exploração da natureza em terras tradicionalmente ocupadas por povos indígenas. Os interesses privados destes grupos encontram ressonância na política desenvolvimentista praticada pelo governo e também em seus interesses eleitoreiros.

Os dados reunidos neste relatório demonstram que a paralisação dos procedimentos de demarcação das terras indígenas têm graves consequências para vida das comunidades indígenas. Acirraram-se os conflitos em diversos estados da federação, tornando ainda mais instáveis e precárias as condições de sobrevivência das famílias indígenas acampadas à beira das rodovias, ou daquelas comunidades cujas terras se encontram em grande parte invadidas. Além disso, intensificaram-se as violências e ameaças de morte contra indígenas que se mobilizam para reivindicar o inicio ou a continuidade dos procedimentos demarcatórios.

O grave descaso do governo para com os direitos territoriais indígenas gerou também novas investidas contra estes os povos, protagonizadas por grupos privados ou por representantes públicos. Os dados coletados em 2013 evidenciam a promoção, por particulares, de inúmeros eventos públicos com o intuito de criminalizar as lutas indígenas e, ao mesmo tempo, de desqualificar suas formas de vida. Também tem sido frequente a difusão de discursos com teor preconceituoso, discriminatório e racista em meios digitais de informação, bem como em jornais, programas de televisão e de rádio. O “Leilão da Resistência”, promovido pela CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária) no Mato Grosso do Sul, foi um desses eventos.

No entender do Cimi, o Governo Federal deve ser responsabilizado pela trágica realidade vivida pelos povos indígenas que não tem assegurada a posse de suas terras. O governo também age de modo conivente diante das invasões e da depredação dos recursos naturais e é omisso nas suas obrigações constitucionais de fiscalizar, proteger e assegurar o usufruto das terras pelos Povos Indígenas.

O descaso para com os povos indígenas não se restringe apenas aos direitos territoriais. Manifesta-se também no criminoso desleixo no atendimento à saúde das populações indígenas que resultou, de acordo com dados do próprio Ministério da Saúde, na morte de 693 crianças. A constatação de que, a cada 100 indígenas que morrem no Brasil, 40 são crianças, torna inegável o fato de que está em curso uma política indigenista genocida.

Além de denunciar as violências praticadas contra os povos indígenas e de responsabilizar o governo pelo agravamento dessa dramática situação, este relatório pretende alertar para a necessidade de promovermos uma ampla e intensa luta em defesa da vida. A sobrevivência física e cultural dos povos indígenas está estreitamente vinculada à garantia de seus territórios. Urge revermos as prioridades sociais e as direções políticas de nosso país, realizando debates, reflexões e estudos que estimulem a participação para o controle social e que possibilitem a formulação de propostas e projetos de vida com dignidade para todos.

Para os indígenas expulsos de suas terras ou continuamente ameaçados de perdê-las concretiza-se infelizmente a palavra do Profeta Isaías: “A terra está de luto e doente, o mundo definha, está doente; com a terra, o céu murchou“ (Is 24,4). Para povos indígenas despojados de seu habitat ancestral, o mundo vira deserto e o céu do bem-viver é profanado.

Clique aqui para acessar o relatório:

Altamira, 29 de junho 2014

 

Erwin Kräutler

Bispo do Xingu e

Presidente do Cimi

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O bispo do Xingu (PA) e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), dom Erwin Kräutler, foi agraciado com a comenda Dom Luciano Mendes de Almeida, oferecida pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana (MG) para lembrar a importância do legado espiritual, intelectual e social deixado por Dom Luciano. Desde 2008, a premiação é entregue no dia 27 de agosto, data de falecimento do arcebispo. Em 2014, foram cinco pessoas homenageadas e uma instituição.

O bispo prelado do Xingu foi o escolhido para discursar em agradecimento à faculdade em nome dos agraciados, e se disse honrado em poder homenagear “o venerável Servo de Deus que fora arcebispo de Mariana, estimado e amado no Brasil e além das fronteiras da nossa pátria“.

"Nunca duvidei que estava diante de um santo”, disse dom Erwin ao relembrar os encontros com dom Luciano. Ele afirma que, apesar da canonização ser um acontecimento post mortem, o povo já o aclamava como santo, por intuir que lá estava alguém consagrado a Deus sem nenhuma restrição.

Comparando dom Luciano ao papa Francisco, dom Erwin declarou que vê concretizado no pontífice os ideais do arcebispo de Mariana, seu irmão de ordem. “Em uma mensagem aos jovens, o papa Francisco se refere ao santo de quem adotou o nome quando foi eleito papa. Podemos aplicar estas palavras perfeitamente ao nosso dom Luciano: ‘Francisco viveu a imitação de Cristo pobre e o amor pelos pobres de modo indivisível, como as duas faces duma mesma moeda‘“, acrescentou.

O bispo homenageado contou também como dom Luciano defendeu e batalhou pelos direitos dos povos indígenas, confidenciando histórias pessoais e sua grande admiração ao religioso. “Acredito que sua futura beatificação e canonização fará brilhar uma luz de esperança para os povos autóctones do Brasil. Se em vida dom Luciano ofereceu seus sofrimentos a Deus em favor dos indígenas, na glória dos céus será definitivamente seu padroeiro e intercessor“, encerrou dom Erwin.

Cerca de 200 pessoas passaram pelo local do evento “Comenda Dom Luciano 2014”. Para os presentes, a homenagem é muito importante para a manutenção da história do futuro beato.  “ A comenda significa perpetuar o sonho evangelizador de dom Luciano”, explica a professora universitária Virginia Castro Buarque.

Beatificação de dom Luciano

Uma missa celebrada quarta-feira, 27, na Catedral Metropolitana de Mariana, marcou o começo da fase diocesana do processo de beatificação de dom Luciano. O tribunal eclesiástico irá investigar a vida do ex-arcebispo para verificar se ele viveu heroicamente as virtudes teológicas e, em seguida, as graças alcançadas por sua intercessão. Após a aprovação dos documentos em Roma, a comprovação de um milagre passa a reconhecer o religioso como beato. Um segundo milagre pode o tornar santo.  

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O Povo de Deus das 777 Comunidades Eclesiais de Base da Prelazia do Xingu, que neste dia especial, 12 de julho de 2014, quer com todo carinho em uma simples e humilde oração dizer:

Senhor, Deus da vida,

Agradecemos,

pelos 75 anos de vida de nosso bispo Dom Erwin,

por sua história de vida compartilhada há 49 anos conosco, povo do Xingu,

por sua presença ativa e efetiva em nossas comunidades,

por sua gratuidade e alteridade conduzindo a missão evangelizadora da Igreja,

por sua voz profética a anunciar a boa nova da vida e denunciar as injustiças,

por sua vida comunitária e orante, fé e vida , conduzindo o povo a transformar a sociedade em uma sociedade mais solidária, justa e fraterna,

por ser sinal de alegria, e esperança em nossas comunidades promovendo vida.

Mas também, queremos perdi-lhe, Senhor:

Abençoe a cada novo amanhecer sua vida em graça e plenitude.

Dê-lhe a sabedoria necessária, iluminado pela sua Palavra, para conduzir o povo de Deus,

O discernimento para usar as palavras certas, no momento certo, na hora certa, para as pessoas certas diante dos desafios que a realidade do Xingu nos impõe,

A fé e a piedade, reafirmada na prática diária da Eucaristia, reacendendo nas comunidades o valor do amor no gesto de misericórdia, reconciliação e doação partilhada,

A ciência, a fortaleza e o temor a Deus para ajudar a cada dia nossas comunidades a serem no mundo testemunhas de diálogo, de serviço e de anuncio da fé em Jesus Cristo, para que todos possam crer n’Aquele que é Caminho , Verdade e Vida.

E sempre o abençoe, o guarde, mostre sua face e se compadeça de sua vida, volva seu rosto para ele e lhe dê a paz.

Amém!

(Centro Pastoral)