Bispo

Xingu, que eu amo desde criança

Conheci o Xingu através dos meus tios, padre Eurico e Guilherme, leigo. Vieram para o Xingu em 1934. As cartas que periodicamente enviaram para sua terra natal circulavam entre todos os familiares na Áustria. Falaram da realidade que estavam vivendo no Xingu. Tio Guilherme queria retornar para a Áustria em 1939, mas não foi mais possível. A guerra que estourou naquele ano impedia sua volta à pátria. Permaneceu no Brasil e casou-se em Santa Catarina. Dos seus doze filhos, um se tornou padre e duas filhas, religiosas. Tive o primeiro contato imaginário com o Xingu através desses tios. Padre Eurico falava em seringueiros, ribeirinhos, índios, especialmente os índios Kayapó. Assim meu imaginário de criança já estava povoado com gente e coisas do Xingu.

Nasci na Áustria em 1939. Em 1978 naturalizei-me brasileiro. Hoje me apresento como brasileiro, nascido na Áustria. Minha família era pobre. Éramos seis filhos. Meu pai era professor. O que ganhava foi insuficiente para sustentar a família. Assim todos tínhamos que ajudar. Nas férias escolares eu trabalhava como ajudante de pedreiro. Cheguei a conhecer o mundo do trabalho na construção civil. Fiz muitas amizades. Aqueles operários de trabalho duro me aceitaram muito bem. Estavam felizes com a minha presença nos canteiros de obra, trabalhando com eles. Minha vocação nasceu a partir desta experiência, na Juventude Operária Católica – JOC. Pensava às vezes em fazer medicina ou letras. Mas, depois descobri que a melhor contribuição que poderia dar para o mundo seria como padre. Não sabia, porém, se ia ser jesuíta ou padre secular. Aí, sim, entrou a influência do tio padre Eurico. Ele me dizia: “Se tu queres ser padre por que não vens para a nossa congregação – Missionários do Sangue de Cristo?”. Aceitei a sugestão e fiz minha opção de vida nesta congregação.

 

O surgimento de um missionário

Depois de completar os estudos secundários em junho de 1958, entrei em outubro do mesmo ano no noviciado da congregação no Principado de Liechtenstein.Em 1959, matriculei-me na Universidade Federal de Salzburg. Foram seis anos de estudo na maravilhosa cidade de Mozart. Diplomei-me em filosofia e cursei teologia na mesma Universidade Federal. Pouco antes de me formar, veio a pergunta: Onde vou exercer meu ministério de padre? Meus superiores queriam que eu continuasse os estudos e me diplomasse em Filologia Antiga: Grego e Latim. A congregação precisava de professores em um grande colégio que mantinha na Alemanha. De modo especial necessitava de professor para as aulas de Grego e Latim. Eu gostava – e gosto até hoje – destas línguas. Mas fiquei pensando comigo mesmo: “Meu Deus, vou ser padre para ser professor de Grego e Latim?” Então me veio a inspiração: “Vou ser padre numa terra onde há falta de padres e de recursos.”

Como jovem já me entusiasmava o texto da Primeira Carta de São João 3,16: “Nisto conhecemos que é o amor: Jesus deu a vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos e irmãs”. Empolgado por esta mística e tendo aprendido muito com a JOC que, junto com outros jovens, eu tinha fundado em minha cidade natal, tomei a decisão: Vou para o Brasil. E o Brasil significava o Xingu. Fui falar com o Provincial e disse: “Diante da situação em que se encontra a Prelazia do Xingu, quero ir para lá, quero dedicar minha vida aos povos do Xingu”. Mesmo constatando a necessidade de professor, o provincial concordou e disse: “Precisamos enviar nossos jovens para lugares onde há necessidade de padres, onde falta tudo. Podes ir. No entanto, deves primeiro te submeter a exames médicos para saber se és apto para o clima tropical”. Não tive a menor dúvida acerca de minhas condições de saúde que eram ótimas. Praticava esportes como esquiar e escalar montanhas.

 

Adeus à Áustria

Fui ordenado padre no dia 3 de julho de 1965 na Catedral de Salzburg. Já em 2 de novembro do mesmo ano, me despedi da família. Era o aniversário de meu pai. No dia 4 de novembro embarquei em Hamburgo no navio cargueiro “Emsstein” que me levou ao Brasil. Éramos apenas dois passageiros junto aos marinheiros do cargueiro – Frei Lucas, um franciscano, e eu. No dia 18 de novembro de 1965 o navio aportou em São Luís do Maranhão. Foi às quatro horas da tarde – à hora décima do Evangelho de João. Os dois discípulos de João Batista nunca mais se esqueceriam daquele momento em que pela primeira vez encontraram Jesus que os convidou: “Vinde e vede!”. E eles permaneceram com ele naquele dia. Também eu nunca me esqueço daquela hora e daquele dia em que pela primeira vez finquei meus pés em solo brasileiro: “era a hora décima” (Jo 1,39).

Até o navio descarregar ou carregar carga, hospedei-me por três dias no Convento dos Franciscanos em São Luís. Não falava uma palavra em português. Quando em março de 2016 estive novamente nesse convento para ordenação de meu sucessor como bispo do Xingu, dom João Muniz Alves OFM, encontrei o quarto tal e qual como nos idos de 1965. Quantos anos já haviam passado desde então! Quando dom João foi nomeado para o Xingu ele era guardião daquele mesmo convento que receberaa mim, padre novo, missionário enviado para o Brasil. Mero acaso? Não. “A mão do Senhor veio sobre mim e me conduziu...” (Ez 37,1). Quem imaginaria que, 50 anos depois da minha chegada ao Brasil, o superior do convento em que então me hospedei me sucederia na Prelazia do Xingu!

Cheguei a Belém no dia 25 de novembro, à meia noite. Lá fiquei um mês. Participei de um curso intensivo para os “Voluntários do Papa” vindos dos Estados Unidos. Não gostei muito, pois na mesa e no recreio sempre falaram Inglês. E eu não estava aí para bater papo em Inglês, mas para aprender Português. Assim pedi a Madre Ventura que me permitisse tomar as refeições com as Irmãs. E uma delas, a Irmã Mônica, encarregou-se de ensinar Português para mim. A irmã era muito exigente, graças a Deus. Mandou-me às vezes repetir uma palavra tantas vezes até que a pronúncia estava correta, sem sotaque.

 

Padre andarilho e professor

No dia 21 de dezembro viajei para a Altamira. Foi o primeiro voo na minha vida. Era um DC 3 da companhia aérea Cruzeiro. O pessoal brincava dizendo: DC-3 quer dizer que sobem dezoito e descem três. No dia 25 de dezembro, fui celebrar a missa no Santuário de Nossa Senhora de Nazaré e fiz minha primeira homilia em Português! Tremendo nas bases, é claro. Também pudera, depois de apenas um mês no Brasil! Me esforcei muito para falar o Português corretamente. Fiquei ainda uns dias em Altamira e, antes do final do ano, retornei a Belém para continuar o curso de Português com a Irmã Mônica e com os americanos (que continuavam falando Inglês nas refeições).

No dia 6 março de 1966, fui em definitivo para Altamira. E o bispo dom Clemente me deu a primeira provisão canônica: mandou-me dar catequese às crianças, dar aulas de religião no colégio e celebrar às seis e meia da manhã a missa na Igrejinha de Nossa Senhora de Nazaré, naquele tempo periferia de Altamira que era uma cidade com uns sete mil habitantes. Na realidade, não tinha muito o que fazer durante a semana, fora alguns encontros de catequese. Sábado e domingo ia então para as colônias. Era um padre andarilho. Logo mais assumi a pastoral no porto de Altamira que era Vitória do Xingu, hoje paróquia e município, e em Souzel, uma paróquia antiga do Baixo Xingu.

No Instituto Maria de Mattias havia falta de professor para o Curso Pedagógico. Assim a diretora me pediu que assumisse as aulas de Filosofia e Psicologia Educacional. Contribuí durante anos, até minha nomeação de bispo em 1980, para a formação de professoras e professores de ensino fundamental. Foi uma época muito gratificante porque tive um contato direto com a juventude de Altamira. E ainda, como não havia professor de língua estrangeira, assumi também as aulas de Inglês.

 

Bispo aos 41 anos

Em 1971, o Papa Paulo VI nomeou o padre Eurico, meu tio, bispo da Prelazia do Xingu. Já tinha 65 anos. Interessante é que ele ainda foi nomeado “bispo titular de Cissa e prelado do Xingu”. Procurei um dia saber onde se encontrava essa diocese e descobri que se tratava de uma ilha já submersa no Mar Tirreno. Assim começamos a brincar com dom Eurico dizendo que para tomar posse de sua diocese titular precisava de um equipamento de mergulho. Sempre achei estranho essa praxe de nomear bispos titulares de alguma diocese que há séculos não mais existe. No final da década de 70, a saúde dele já estava bastante debilitada. Assim ele pediu um bispo coadjutor à Nunciatura. Já pelo fato de eu ser sobrinho de dom Eurico, quem já esperava que fosse eu o seu sucessor. Mas, dom Eurico fez uma pesquisa entre os padres para saber a quem indicariam como seu sucessor. Pelo que soube muito tempo depois, o nome mais apontado foi o meu. Dom Eurico, certamente assustado, não sabia como agir e foi se consultar com dom Alberto Gaudêncio Ramos, arcebispo metropolitano de Belém. Este teria respondido: “Se os padres querem, vamos propor o nome do seu sobrinho.”

No final de outubro de 1980, fui chamado à Nunciatura. O núncio apostólico era dom Carmine Rocco. O secretário me recebeu e convidou-me a aguardar o núncio. Não tardou a aparecer. Entregou-me uma carta e pediu que a lesse. Era a minha nomeação para bispo-coadjutor na Prelazia do Xingu. Fiquei pasmo e o núncio me perguntou: “O que vai fazer agora?”. Respondi: “Volto para Altamira e vou perguntar os colegas o que acham disso”. E ele: “Eu já consultei padres, leigos e irmãs da prelazia. Confiam no senhor. Aceite!”. Apelou ainda para meu “sensus ecclesiae” e o espírito filial ao Santo Padre. Para mim, começou uma grande agonia. Não sabia mais o que dizer. O núncio olhou bem para mim e falou: “Olhe, o senhor pode aceitar tranquilamente porque o povo lhe quer muito bem. As consultas que fizemos mostram isso claramente. Façamos assim: o senhor vai agora para a capela, fique lá rezando por uma hora e depois venha assinar o termo.” Respondi: “Se é assim, que depois de uma hora devo vir assinar de qualquer jeito, assino logo para depois poder rezar sossegadamente”. O núncio ainda acrescentou: “O senhor terá que guardar o sigilo até 12 de novembro, quando a notícia será oficialmente publicada no Vaticano”.

Essa conversa com o núncio se deu no dia 31 de outubro de 1980. Voltei em seguida via Belém para Altamira. Várias pessoas souberam que tinha viajado para a capital federal e se interrogavam: “Padre Erwin foi a Brasília fazer o quê?”. Dona Berenice, a despachante da VASP e amiga de longa data, também se perguntava o que eu tinha ido fazer em Brasília. Naquele tempo não era tão comum eu viajar. Dom Eurico estava em Belém e indagou também: “O que foi fazer em Brasília?”. Como era segredo pontifício, dei-lhe uma resposta evasiva.

 

 

 

As sete palavras de Jesus na cruz

 

Primeira Palavra

 

Chegando ao lugar chamado Caveira, lá o crucificaram, bem como os malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: "Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem" (Lc 23,33-34).

 

 

"Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" rezamos no Pai Nosso. Pedimos perdão a Deus, fazendo a solene promessa de perdoarmos aos que nos ofenderam. Não é fácil realizar o que prometemos. Existem chagas que custam cicatrizar. Há violências e injustiças que deixam como saldo um mar de sofrimentos. Há infidelidades e traições que ferem profundamente o coração. Há agressões e ódios que geram abismos quase intransponíveis entre as pessoas. No entanto, não há inimigos que resistam eternamente à bondade e ao amor. Não há ódio que um dia não sucumba ao poder do Amor. O primeiro passo para o perdão é desarmar-se interiormente. Quem perdoa é sempre mais forte do que quem ofendeu. O perdão é que gera vida, não o ódio e a vingança! Dizem que o ódio é como o fogo: arde, queima, se alastra, arrasa, reduz a cinzas. Se o ódio é como fogo, então o perdão é como a água! É a água que extingue as labaredas, é a água que apaga as chamas, é a água que vence o incêndio. Assim é o perdão que extingue as vinganças, é o perdão que apaga as inimizades, é o perdão que afoga as mágoas, é o perdão que vence o ódio.

 

 

Segunda Palavra

 

Um dos malfeitores suspensos à cruz o insultava, dizendo: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós." Mas ou outro, tomando a palavra, o repreendia: "Nem sequer temes a Deus, estando nas mesma condenação? Quanto a nós, é de justiça; pagamos por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal". E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino". Ele respondeu: "Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23,39-43).

 

Um dos malfeitores crucificados chama Jesus de "Cristo", o outro o reconhece com "Rei". Por causa destes dois títulos - um religioso, outro político - Jesus morre na cruz. Como "Cristo" Jesus é condenado por "blasfêmia" porque se declara "Filho de Deus" (cf. Mt 27,62-66) reivindicando para si a dignidade divina. Como "Rei" é considerado subversivo e agitador. Os chefes do povo conseguiram o que queriam: matar Jesus de Nazaré como perturbador da ordem pública e aos que o tiverem na conta de profeta tinha que ser apresentado como homem definitivamente derrotado, destruído, aniquilado. Um dos malfeitores faz coro aos insultos dos chefes que zombeteiramente lhe recomendam: "que salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Eleito" (Lc 23,35). Ele também grita: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós". O outro, porém, reconhece a inocência de Jesus e descobre na sua derradeira hora a verdadeira identidade de quem sofre ao seu lado o mesmo suplício. Entende que o Reino de Jesus não é deste mundo (cf. Jo 18,36), mas que Jesus é Rei e viera "ao mundo para dar testemunho da verdade" (Jo 18,37). A luz da verdade que ilumina o coração e a mente do "bom ladrão" gera de repente uma ilimitada confiança e o enche de certeza de que Jesus pode salvá-lo e perdoar-lhe os seus pecados, acolhendo-o no paraíso.

 

 

Terceira Palavra

 

Junto à cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, a de Cléofas, e Maria, a Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” A partir daquela hora, o discípulo a acolheu no que era seu (Jo 19,25-27)

 

Os soldados repartiram as vestes de Jesus em quatro partes, uma para cada soldado (cf. Jo 19,23). Quatro soldados! Quatro homens sentados, distribuindo entre si, em partes iguais, os últimos pertences de Jesus e jogando dados para ver quem fica com a peça principal, a túnica sem costura. Não foi a mãe que a teceu para Jesus? Em cada fibra se esconde um traço de seu amor materno. São quatro soldados, quatro partes de roupa e uma túnica que recorda a esses homens rudes que, afinal, o crucificado também tem mãe.

 

São também quatro as mulheres. Não estão sentadas, mas sim de pé junto à cruz. Só duas delas conhecemos mais de perto: Maria, a mãe de Jesus, e Maria, a Madalena. Mas no cenário de Golgotha se encontra ainda um outro personagem. O Evangelho não revela o nome. Diz apenas que ao lado da mãe de Jesus se encontrava "o discípulo a quem amava". Ele representa todos os filhos e filhas de Deus que são os discípulos e discípulas "a quem Jesus ama". São suas irmãs, seus irmãos amados, a quem, antes de morrer, confia como última e amorosa dádiva sua própria mãe. Na última ceia nos assegurou sua presença até o fim dos tempos no pão e no vinho que se transformam no Corpo e Sangue do Senhor: Corpo entregue, Sangue derramado. No alto da cruz completa o testamento, oferecendo-nos sua mãe como Mãe Nossa também por todos os séculos. É de uma comovente solenidade e de uma expressividade singular com que Jesus fala pela última vez a sua mãe. O seu testamento se completa com a palavra dirigida ao "discípulo a quem amava", a todas e todos nós: "Eis tua mãe!"

 

 

Quarta Palavra

 

Desde a hora sexta até a hora nona, houve treva em toda a terra. Por volta da hora nona, Jesus deu um grande grito: "Eli, Eli, lamá sabachthâni?", isto é: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt 27,45-46).

 

Pouco antes de morrer em meio aos crudelíssimos tormentos que o Império Romano reservou aos criminosos, Jesus começa a balbuciar, num derradeiro esforço entre dores inimagináveis o comovente e, ao mesmo tempo, horrendo Salmo 21 (22). Como não foi o impacto desse grito aos que assistiram ao terrível espetáculo, de modo que os evangelistas fizeram questão de transmiti-lo tal e qual como Jesus o bradou, na língua que aprendeu de sua mãe no lar de Nazaré!

 

Jesus passa pela angústia de sentir-se completamente abandonado, experimenta a noite escura da tremenda solidão em meio ao redemoinho de um indizível sofrimento que se fecha sobre ele. Tudo vira trevas, sem horizonte. Jesus vive essa experiência até ao extremo.

 

Muitos de nossos irmãos e irmãs experimentam essa solidão, a dor do abandono, de não entender mais nada, de duvidar da bondade de Deus, até de usar as palavras de Jó e amaldiçoar o dia em que nasceu: "Por que não morri ao deixar o ventre materno, ou pereci ao sair das entranhas? Por que me recebeu um regaço e seios me deram de mamar?" (Jó 3,11-12) Quantos são os gritos sobem dos "porões da humanidade": "Onde estás, ó meu Deus?" Quantas perguntas sem resposta! Ouvindo, porém, o grito de Jesus sabemos que ele, na cruz, sofreu conosco. Mesmo assim, o salmo 21(22) não é um salmo de desespero, mas em meio à toda a angústia e aos tormentos, a oração procura a Deus: "Pois és tu quem me tirou do ventre de minha mãe, quem me confiou ao seu peito; eu fui lançado a ti ao sair das entranhas. Desde o ventre materno tu és meu Deus " (Sl 21(22),10-11).

 

Há muita coisa em nossa vida que jamais entendemos. Nestas horas escuras não são palavras e pias considerações que nos consolam. Resta-nos, no silêncio, contemplar a cruz. Por mais escura que seja a noite, o sol volta sempre a brilhar! O "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" não é a última palavra. Deus dá seu Sim irrevogável à vida na manhã da Páscoa ao ressuscitar Jesus. A luz afugenta as trevas.

 

 

Quinta Palavra

 

Depois disso, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para que se cumprisse a Escritura até o fim, disse: “Tenho sede!” Havia ali, uma jarra cheia de vinagre. Amarrando uma esponja embebida de vinagre num ramo de hissopo levaram-na à sua boca (Jo 19,28-29)

 

A exclamação de Jesus pode ser uma alusão ao Salmo 68 (69),22: "Como alimento deram-me fel e na minha sede serviram-me vinagre". Não precisa ser zombaria, escárnio dos soldados. Pode até ser uma expressão de afeto para com esse pobre homem que, no estertor da morte, ardendo de dor e de febre por causa das inúmeras chagas, pede que lhe molhem pelo menos os lábios. É um pedido tão humilde e totalmente humano.

 

A sede de Deus é tema de comoventes orações do Antigo Testamento: "Assim como a corça suspira pelas águas correntes, suspira igualmente minh'alma por vós, ó meu Deus! Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus?" (Sl 41(42),2-3).

 

"Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! A minh'alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água" (Sl 62(63),2).

 

 

Sexta Palavra

 

Quando tomou o vinagre, Jesus disse: “Está consumado!”. E, inclinando a cabeça entregou o espírito (Jo 19,30).

 

O quarto Evangelho começa a narração da Última Ceia de Jesus com seus discípulos com as palavras: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim". A expressão "até o fim" na língua em que o Evangelho foi escrito, o Grego, se relaciona ao "Está consumado" que Jesus falou antes de morrer. É a mesma raiz gramatical que se encontra no "até o fim" e no "consumado". "Está consumado" não mais é um gemido de dor, mas já o anúncio antecipado da Vitória.

 

Contemplamos o Senhor crucificado, o corpo dilacerado pelos açoites, as mãos e os pés perfurados. "Está consumado!". O amor chegou ao extremo. Mas contemplamos na face ensanguentada de Jesus também os rostos de tantas irmãs e irmãos nossos que sofrem: comunidades indígenas e afro-americanas; mulheres excluídas, em razão de gênero, raça ou situação sócio-econômica; jovens que recebem uma educação de baixa qualidade e não têm oportunidades de progredir; pobres, desempregados, migrantes, deslocados, agricultores sem terra; meninos e meninas submetidos à prostituição infantil; dependentes de drogas, as pessoas com limitações físicas, os portadores e vítimas de enfermidades graves que sofrem a solidão; seqüestrados e os que são vítimas da violência, do terrorismo; anciãos recusados por sua família como pessoas incômodas e inúteis; os presos em situação desumana.

 

Só o Amor "até o fim", até ao extremo, consegue ver com os olhos de Deus os pobres e condenados à morte antes do tempo. Só este Amor consegue desvendar, a partir do coração de Deus, as causas dessa realidade iníqua.

 

 

Sétima Palavra

 

Era já mais ou menos a hora sexta quando o sol se apagou, e houve treva sobre a terra inteira até à hora nona, tendo desaparecido o sol. O véu do Santuário rasgou-se ao meio, e Jesus deu um forte grito: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" Dizendo isso, expirou. O centurião, vendo o que acontecera, glorificava a Deus, dizendo: "Realmente, este homem era justo!" (Lc 23,44-47).

 

Segundo o Evangelho de São Lucas, Jesus morre pronunciando o versículo 6 do Salmo 30 (31): Pai, "em tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23,46). O versículo se completa com as palavras "tu me resgatas, Senhor, Deus fiel“.

 

Agora, Jesus está morto. O centurião romano não consegue disfarçar seu assombro. Atesta a inocência do crucificado. Afirma que era "justo". O corpo é descido da cruz e sepultado. Rolaram uma grande pedra para a entrada do túmulo (cf. Mt 27,60). O fim definitivo!

 

Aparentemente, porque a história não termina aqui! "Ao raiar do primeiro dia da semana“ (Mt 28,1), "Maria Madalena e a outra Maria“ foram ao túmulo e receberam a notícia alvissareira: "Ele não está aqui, pois ressuscitou!" (Mt 28,6) E "elas, partindo depressa (...) Correram a anunciá-lo aos seus discípulos“ (Mt 28,8). São Marcos nos conta que Maria Madalena "foi anunciá-lo àqueles que tinham estado em companhia dele e que estavam aflitos e choravam" (Mc 16,10). Pelo SIM de uma mulher, Maria, Deus inicia sua maravilhosa obra salvífica, enviando o seu Filho. Foi também através de uma mulher, de outra Maria, que se inicia o anúncio pascal que atravessará os séculos. "É verdade! O Senhor ressuscitou!" (Lc 24,34). O primeiro anúncio "Ressuscitou!" coube às mulheres (Lc 24,1-10).

 

E essa Boa Nova atravessa os séculos e milênios. É proclamado em todos os rincões da terra, do norte ao sul, do leste ao oeste, em todas as línguas e culturas.

 

Minha irmã, meu irmão,

Dom João e eu, dom Erwin, lhes desejamos uma Santa e Feliz Páscoa da Ressurreição.

Parabéns, Dom Erwin Krautler! 35 anos de episcopado.

Receba as felicitações do Povo de Deus do Xingu, seus amigos e amigas na caminhada.

"Não sou um guerreiro que combateu com armas terrestres, mas com a espada do Espírito que é a palavra de Deus"...Enfim, pus mão à obra e tinha tanta boa vontade que consegui perfeitamente. Que felicidade poder dizer: "Estou seguro de fazer a vontade do Bom Deus".
Eu não lamento a vida, oh, não! E minha vida é um ''único ato de amor! O Bom Deus me dá coragem na proporção dos meus sofrimentos. Faz-nos tanto bem, quando sofremos, ter corações amigos, cujo eco responde a nossa dor. A caridade é o caminho excelente, que conduz seguramente a Deus. Sou de tal natureza que o temor me faz recuar; com o amor não somente avanço, mas vôo..."  Santa Teresinha.
 

Laudato Sí” – Uma encíclica diferente

O título desta conferência “Eucaristia e Ecologia” gera sem dúvida uma certa perplexidade. O que “o Memorial da Morte e Ressurreição do Senhor”, a “Hóstia Santa que se consagra sobre o altar e aos nossos olhos se levanta para o Brasil abençoar”, o que o “Sacramento dos sacramentos” tem a ver com assuntos aparentemente tão profanos como as questões ecológicas, bandeiras de luta de ambientalistas e indigenistas, de movimentos e partidos verdes?

Quem nos dá resposta é o próprio papa Francisco na sua Encíclica “Laudato Si”: “A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a se manifestar de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo a Ele no nosso próprio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico (...). A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico (...). Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira” (LS 236).

Nesta compreensão da Eucaristia como “fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente” que nos leva “a ser guardiões da criação inteira” queremos refletir sobre a Encíclica “Laudato Si”. Ser guardião implica em assumir a responsabilidade de zelar pela criação e cuidar do meio ambiente, inclusive com vista às futuras gerações. O Papa Francisco rejeita categoricamente a interpretação de Genesis 1,28 numa perspectiva de dominação implacável do ser humano sobre a criação, de exploração desenfreada e inescrupulosa dos recursos naturais como se fossemos a última geração.

A referência ao Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis realça a harmonia que deve existir entre o ser humano e os outros seres criados que São Francisco chama de irmãos e irmãs. Essa visão de harmonia de que o Papa fala coincide com o entendimento que os povos indígenas andinos conservam desde tempos imemoriais quando falam do Sumak Kawsay (Bem Viver): Existe um ser supremo que criou todas as coisas e por isso deve ser amado e respeitado. Esta consciência faz o homem e a mulher viver em paz consigo mesmo e em harmonia com os irmãos e irmãs e ao mesmo tempo com todos os seres criados, com o mundo que nos circunda.

Sem dúvida a Encíclica foi também uma contribuição do Papa Francisco à Conferência sobre o Clima realizada de 30 de novembro a 11 de dezembro de 2015 em Paris que se propôs substituir o Protocolo de Kyoto de 1997 de resultados decepcionantes e chegar a um acordo mundial sobre a redução das emissões de gases de efeito estufa. Nesta histórica conferência de Paris pela primeira vez não se fez mais a distinção entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento o que está bem na linha do papa que alerta na encíclica: “O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros (...). Precisamos de nova solidariedade universal“ (LS 14). Em Paris, de repente todos os países – e não apenas alguns – escolhem como meta limitar a temperatura global ao aumento de 2° C e insistem ainda em envidar todos os esforços para atingir no máximo 1,5° C.

Como secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia tive o privilégio de ser recebido pelo Papa Francisco em 4 de abril de 2014 em uma audiência particular de uns vinte minutos. Foi a ocasião em que ele me confidenciou que estava pretendendo promulgar uma encíclica sobre a ecologia. Lembro-me da ênfase especial que deu ao assunto: “Não trataremos de ecologia de modo apenas genérico, está na hora de falarmos em uma ecologia ‘humana‘“. Foi aí que pedi a ele que não se esquecesse da Amazônia e dos Povos Indígenas. Convidou-me então a colaborar nestes tópicos o que fiz com muita alegria e gratidão enviando minha contribuição ao Cardeal Pedro Turkson, Presidente da Pontifícia Comissão Justiça e Paz, encarregado de sintetizar as diversas sugestões vindas de todo mundo.

Os parágrafos 37/38 e 145/146 são o reflexo das contribuições que ofereci em nome da Igreja na Amazônia. Vejam o que o Papa escreve:

37. Alguns países fizeram progressos na conservação eficaz de certos lugares e áreas – na terra e nos oceanos –, proibindo aí toda a intervenção humana que possa modificar a sua fisionomia ou alterar a sua constituição original. No cuidado da biodiversidade, os especialistas insistem na necessidade de prestar uma especial atenção às áreas mais ricas em variedade de espécies, em espécies endémicas, raras ou com menor grau de efetiva proteção. Há lugares que requerem um cuidado particular pela sua enorme importância para o ecossistema mundial, ou que constituem significativas reservas de água assegurando assim outras formas de vida.

38. Mencionemos, por exemplo, os pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazônia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes lençóis freáticos e os glaciares. A importância destes lugares para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar. Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos se perdem inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos. Todavia, ao falar sobre estes lugares, impõe-se um delicado equilíbrio, porque não é possível ignorar também os enormes interesses econômicos internacionais que, a pretexto de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais. Com efeito, há « propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais ». É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais.

Será que a delegação brasileira na Conferência de Paris assimilou a lição do Papa? Fato é que a assim chamada “Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida” do Brasil à Conferência de Paris visa o fim do desmatamento na Amazônia, o reflorestamento e a recuperação de áreas degradadas, além do propósito de alcançar, em termos de fontes de energia, o patamar de 45% de energias renováveis.

145. Muitas formas de intensa exploração e degradação do meio ambiente podem esgotar não só os meios locais de subsistência, mas também os recursos sociais que consentiram um modo de viver que sustentou, durante longo tempo, uma identidade cultural e um sentido da existência e da convivência social. O desaparecimento duma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento duma espécie animal ou vegetal. A imposição dum estilo hegemônico de vida ligado a um modo de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas.

146. Neste sentido, é indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projetos que afetam os seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura.

Até agora em nenhum documento papal a realidade em que vivem os povos indígenas e seus legítimos anseios foram abordados de maneira tão contundente. O papa assume a defesa da dignidade e dos direitos dos povos aborígenes. Para a Igreja no Brasil, mormente na Amazônia, e de modo especial para o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organismo vinculado à CNBB, as palavras do Papa são um enorme impulso para prosseguir na luta destemida em favor destes povos que atualmente estão vivendo mais um momento crítico. Está em jogo a vitória conquistada na Assembleia Nacional Constituinte de 1987/88 de finalmente verem seus direitos inscritos na Constituição Federal. Hoje, lamentavelmente, tramitam no Congresso Nacional Projetos de Emenda Constitucional apoiados em cheio pela bancada ruralista declaradamente anti-indigena e pelos representantes do agronegócio, de alterar os parâmetros constitucionais em franco detrimento dos povos indígenas deste País.

A encíclica Laudato Sí tem que ser lida e meditada na íntegra, como um todo. É até desaconselhável assinalar apenas um e outro ponto ou insistir apenas nesse ou naquele aspecto sem levar em conta a mensagem completa. Digo isso também a respeito dos já citados parágrafos sobre a Amazônia e os Povos Indígenas. Não podem ser pinçados e analisados fora do contexto de toda a encíclica.

Mesmo assim saltam à vista algumas palavras-chave que são, por assim dizer, o “arcabouço” de toda a encíclica:

  1. As encíclicas papais são geralmente endereçadas aos “veneráveis irmãos no episcopado, ao clero, às famílias religiosas, aos fiéis da igreja católica” e como expressão de certa condescendência “a todos os homens de boa vontade”. A Encíclica do Papa Francisco “Laudato Sí”, no entanto, quer ultrapassar qualquer fronteira confessional, política, racial e ideológica e se dirige à toda a humanidade em todos os continentes. “Agora, à vista da deterioração global do ambiente, quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste planeta. Na minha exortação Evangelii gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim de os mobilizar para um processo de reforma missionária ainda pendente. Nesta encíclica, pretendo especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum“ (LS 3).

  2. “Entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que « geme e sofre as dores do parto » (Rom 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gen 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos“ (LS 2).

  3. O Papa insiste na “ecologia humana”. Ele cita a encíclica “Centesimus Annus” de 1991 do Papa João Paulo II que fala das “condições morais de uma autêntica ecologia humana”. E explicita: “A destruição do ambiente humano é um fato muito grave, porque, por um lado, Deus confiou o mundo ao ser humano e, por outro, a própria vida humana é um dom que deve ser protegido de várias formas de degradação. Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas «nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades»“ (LS 5).

  4. “O progresso humano autêntico possui um carácter moral e pressupõe o pleno respeito pela pessoa humana, mas deve prestar atenção também ao mundo natural e «ter em conta a natureza de cada ser e as ligações mútuas entre todos, num sistema ordenado». Assim, a capacidade do ser humano transformar a realidade deve desenvolver-se com base na doação originária das coisas por parte de Deus“ (LS 5).

  5. “A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio“ (LS 11).

  6. A “cultura do descarte (...) afeta tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo (...) acaba por danificar o planeta inteiro“ (LS 22).

  7. “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar (...). A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum“ (LS 13).

  8. É errado “pensar que os outros seres vivos devam ser considerados como meros objetos submetidos ao domínio arbitrário do ser humano. Quando se propõe uma visão da natureza unicamente como objeto de lucro e interesse, isso comporta graves consequências também para a sociedade. A visão que consolida o arbítrio do mais forte favoreceu imensas desigualdades, injustiças e violências para a maior parte da humanidade porque os recursos se tornam propriedade do primeiro que chega ou de quem tem mais poder: o vencedor leva tudo“ (LS 82).

  9. “O ser humano não é plenamente autónomo. A sua liberdade adoece, quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal. (...) Podemos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum lúcido domínio de si” (105).

  10. Se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos nos iludir de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais. Quando o pensamento cristão reivindica, para o ser humano, um valor peculiar acima das outras criaturas, suscita a valorização de cada pessoa humana e, assim, estimula o reconhecimento do outro. A abertura a um «tu» capaz de conhecer, amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana. Por isso, para uma relação adequada com o mundo criado, não é necessário diminuir a dimensão social do ser humano nem a sua dimensão transcendente, a sua abertura ao «Tu» divino. Com efeito, não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus“ (LS 119).

  11. O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social. (LS 48). “Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza“ (LS 139).

  12. Sempre se deve recordar que «a proteção ambiental não pode ser assegurada somente com base no cálculo financeiro de custos e benefícios. O ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou a promover adequadamente». Mais uma vez repito que convém evitar uma concepção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos“ (LS 190).

  13. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e econômico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso“ (LS 194).

  14. Já no início da Laudato Si o Papa Francisco insiste numa “conversão ecológica global” (LS 5), aprofundando esse tema no final da Encíclica quando diz: “Desejo propor aos cristãos algumas linhas de espiritualidade ecológica que nascem das convicções da nossa fé, pois aquilo que o Evangelho nos ensina tem consequências no nosso modo de pensar, sentir e viver“. Trata-se na realidade de uma “espiritualidade para alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Com efeito, não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima. E o Papa cita a sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium quando diz que essa mística é “uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária“ e acrescenta: “Temos de reconhecer que nós, cristãos, nem sempre recolhemos e fizemos frutificar as riquezas dadas por Deus à Igreja, nas quais a espiritualidade não está desligada do próprio corpo nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia“ (LS 216).

  15. Também já no começo da Encíclica o Papa Francisco fala dos passos da conversão citando do patriarca de Constantinopla Bartolomeu que “propôs-nos passar do consumo ao sacrifício, da avidez à generosidade, do desperdício à capacidade de partilha, numa ascese que «significa aprender a dar, e não simplesmente renunciar. É um modo de amar, de passar pouco a pouco do que eu quero àquilo de que o mundo de Deus precisa. É libertação do medo, da avidez, da dependência» (LS 9). No final ele acrescenta: “Convido todos os cristãos a explicitar esta dimensão da sua conversão, permitindo que a força e a luz da graça recebida se estendam também à relação com as outras criaturas e com o mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a criação inteira que viveu, de maneira tão elucidativa, São Francisco de Assis“ (LS 221).

 

Termino assim convidando as irmãs e os irmãos a rezarmos juntos e com o Papa Francisco a “Oração pela nossa terra” que ele propõe no final da Encíclica (LS 246):

Deus Omnipotente,
que estais presente em todo o universo
e na mais pequenina das vossas criaturas,
Vós que envolveis com a vossa ternura
tudo o que existe,
derramai em nós a força do vosso amor
para cuidarmos da vida e da beleza.
Inundai-nos de paz,
para que vivamos como irmãos e irmãs
sem prejudicar ninguém.
Ó Deus dos pobres,
ajudai-nos a resgatar
os abandonados e esquecidos desta terra
que valem tanto aos vossos olhos.
Curai a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição.
Tocai os corações
daqueles que buscam apenas benefícios
à custa dos pobres e da terra.
Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,
a contemplar com encanto,
a reconhecer que estamos profundamente unidos
com todas as criaturas
no nosso caminho para a vossa luz infinita.
Obrigado porque estais conosco todos os dias.
Sustentai-nos, por favor, na nossa luta
pela justiça, o amor e a paz.


 

Belém, 19 de agosto de 2016

XVII Congresso Eucarístico Nacional

 

Erwin Kräutler

Bispo em. do Xingu

D. Erwin Kräutler: minha grande família que escolhi é o povo do Xingu

Entrevista exclusiva concedida a
João Carlos Pereira
Especial para O LIBERAL


Nunca pensei que entrevistar D. Erwin Kräutler fosse uma tarefa tão fácil. Liguei para a Diocese, querendo saber onde o encontraria, e fui informado de que estava visitando comunidades. A sugestão da secretária foi que enviasse um e-mail. O que poderia parecer um balde de água fria em meu propósito, rapidamente se transformou numa grande surpresa. Duas horas depois, D. Erwin já havia lido a mensagem e se colocava à disposição. Responderia as perguntas por escrito, porque, onde estava, nem sempre se consegue falar bem no celular.  Quando leu que sua renúncia gerou um grande fato jornalístico, se assustou e desejou saber “quais as razões”. Seria apenas uma rotina administrativa, prevista no artigo 401, parágrafo 1, do Código Canônico, se o renunciante em questão não se chamasse Erwin Kräutler. Ele possui histórico de vida tão raro quanto precioso, no campo social, entre os homens que se dispuseram a entregar (literalmente) a própria vida, seguindo a melhor tradição – da qual se fez digno herdeiro – dos apóstolos de Jesus, pela causa dos menos favorecidos. E quando a notícia é a de que se afasta, oficialmente, de uma missão tão importante, surge outra  interrogação tão grande, quanto a que se formou com o afastamento do cardeal Paulo Evaristo Arns da arquidiocese de São Paulo: o que vai ser  daqueles cuja voz era ouvida apenas pelas palavras de seu Bispo? A comparação não é desmedida. D. Paulo e  d. Erwin, assim como outros grandes Bispos brasileiros, como Hélder Câmara e Pedro Casaldáliga, por exemplo,  passaram a vida lutando, corajosamente,  pelas causas que abraçaram, sem jamais haverem perdido a dimensão da fé. (JCP)

1 – O Papa aceitou sua renúncia um ano e meio depois do envio oficial do pedido. Nesse tempo, o senhor esperava que a Santa Sé – o próprio Francisco – solicitassem que permanecesse no cargo? Isso aconteceu com os cardeais Ratzinger e Bergoglio, que apresentaram renúncia aos homens que vieram a suceder, no trono de Pedro.
Apresentei minha renúncia em carta ao Papa Francisco no dia 8 de julho de 2014 como o Direito da Igreja recomenda a um bispo que está completando 75 anos de idade. Poucas semanas depois veio a resposta. O Papa pediu-me que continuasse no cargo “nunc por tunc” (= “por enquanto”) até que fosse nomeado o meu sucessor. Passou um ano e meio até que isso acontecesse.
2 Nesse período, o senhor continuou a trabalhar sem pensar no desligamento ou fez planos para quando chegasse o documento do papa, aceitando seu pedido?
Continuei com minha agenda repleta de visitas programadas às comunidades e compromissos dentro e fora da Prelazia.
3 O que pretende fazer agora. D. Erwin?  Ficará no Xingu, com Bispo Emérito, auxiliando seu sucessor, um franciscano que é professor de Teologia? Quais os seus planos?
Terei o privilégio de ser o consagrante principal na ordenação episcopal de Frei João Muniz Alves que será meu sucessor como Bispo Prelado do Xingu. Ele precisará de um bom tempo para conhecer essa maior circunscrição eclesiástica do Brasil e assumir a sua missão de bispo numa realidade complexa e em parte também conflitiva. Não vou passar o cargo para ele e sumir do mapa. Um novo bispo não entra pela porta da frente e o seu antecessor sai na mesma hora pela porta dos fundos. Seria um absurdo. Se ele me escolheu como consagrante principal certamente conta ainda com minha ajuda de irmão até conhecer de perto as regiões, paróquias e áreas de pastoral, as diversas dimensões da Prelazia e também os desafios da Igreja do Xingu. Sem dúvida, haverá um tempo razoável de transição, mas sem transtornos. Estarei simplesmente à disposição de meu sucessor. Aliás, fiquei muito feliz com a nomeação desse frade franciscano que nasceu em nosso estado vizinho, no Maranhão. Laudato Sí – Que Deus seja louvado!
Não faço planos. Sou secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia presidida pelo Cardeal Dom Cláudio Hummes e assumi a função de coordenador da REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica) no Brasil. Esses cargos continuam independentes da sucessão no Xingu. Além do mais recebi e recebo muitos convites para orientar retiros para Padres e Religiosas/os. Não me faltará trabalho e oportunidade de engajar-me nas diversas frentes de nossa Igreja. Aliás, nem consigo atender a todos os convites dentro e fora do país para falar sobre a Causa Indígena e a questão da Amazônia em diversos fóruns, seminários em nível nacional e internacional. Certamente não vou morrer de tédio, sem saber o que fazer. Deus me livre!
4 O Pará é sua terra adotiva, como Belém foi a terra que adotou, até o fim,  D. Vicente Joaquim Zico,  seu irmão no episcopado. Um homem com duas pátrias (ainda que naturalizado), como se sente agora, quando está, pelo menos oficialmente, dispensado da missão de dirigir uma Diocese?
Completei cinquenta anos de Xingu. Quando fui nomeado bispo, já vivia há quinze anos no Xingu. Sempre digo que sou “brasileiro nascido na Áustria”. Não fui mandado para o Xingu. A escolha e decisão foi minha. Quando à meia noite de 24 a 25 de novembro de 1965 cheguei em Belém a bordo de num navio cargueiro, sabia que ia ficar. Em 21 de dezembro de 1965 já estive em Altamira. Nunca me arrependi. Ninguém nega as raízes. Seria um absurdo, mas entendo-me hoje como xinguara. Identifico-me com essa região em que vivo há meio século e com seu povo. A maioria dos municípios do Xingu me outorgou o título de cidadão honorífico. Sou Doutor honoris causa pela Universidade Federal do Pará. E tem mais: Aposto que exista alguém que conhece o Xingu e o seu povo tão bem como eu. Visitei as comunidades em toda parte, fui até as cabeceiras dos igarapés e os fundos das vicinais da Transamazônica. Andei pelo Alto e Baixo Xingu. Visitei aldeias indígenas e as comunidades mais distantes. 50 anos não são 50 dias! Com tudo isso, quem ainda ousaria duvidar que sou do Xingu. Nunca me apresentei como “austríaco”. Sempre digo que sou do Xingu. Nasci na Áustria, sim, mas vivi e vivo a minha vida aqui. Não tenho planos de voltar definitivamente à Áustria. É perigoso transplantar uma árvore velha. Se o fizer, ela vai murchar, perder as folhas e lentamente morrer.
5 Onde mora sua família? Seus amigos estão todos no Pará? A gente do Xingu, os índios, eles são sua família? Penso que o senhor pode dizer como Jesus: “minha mãe e meus irmãos são os que fazem a vontade de Deus”. Onde estão os “seus”, D.  Erwin?
Tenho minha família em dois níveis. A biológica, é claro, e a família que escolhi. Meus pais, Deus já os recebeu nos prados eternos. Morreram idosos, ambos no mesmo ano. Mamãe foi primeiro aos 91 anos em janeiro de 2004, papai seguiu aos 94 anos em maio daquele ano. Tenho irmãos e irmãs, sobrinhas, sobrinhos, cunhadas, cunhados e muitos primos e primas, inclusive no Brasil, já que meu tio, irmão da minha mãe, casou aqui. Somos uma família tradicional com muitas ramificações. A primeira informação sobre um antepassado com meu sobrenome e no lugar em que eu nasci, é do início do século XV.
Mas minha grande família que escolhi é o povo do Xingu. É minha gente. Esse povo me acolheu com muito carinho quando cheguei, com a idade de apenas 26 anos, Padre recém-ordenado, cheio de entusiasmo. Em todos esses anos senti sempre o carinho do povo do Xingu. Quando fui ameaçado de morte por alguns mafiosos que não aceitaram o meu empenho intransigente em favor dos pobres, dos índios, os atingidos pela barragem, ou queriam vingar-se porque denunciei injustiças e violências e apontei ainda os criminosos que abusaram de meninas do colégio, o povo reagiu imediatamente e tomou partido em meu favor. Havia faixas dizendo: “Dom Erwin, nós te amamos!” Quantas “declarações de amor” recebi e continuo recebendo. Onde chego em visita a uma comunidade, o povo me abraça, beija, quer pousar comigo para fotos. A turma jovem bate  “selfies”. E no final da visita, sempre a mesma pergunta: “Quando vem de novo?”. Quantas despedias com lágrimas! Alguém ainda dúvida, quem é minha família?
6 Sabe-se que o senhor é um homem de hábitos simples, que deu a vida pela causa que abraçou. É padre no melhor sentido do termo. O que não pode fazer, enquanto Bispo, que pretenda fazer agora?
Continuo bispo, só deixo de ser o titular da Prelazia do Xingu. Há coisas que há muito tempo queria fazer e não tive condições de fazê-lo. O arquivo da Prelazia precisa urgentemente de uma atenção especial. Acumularam-se muitos documentos e cartas. Sempre gostei de escrever, mas na maioria das vezes foi quase que “sob pressão”. Queria ter tempo para contar tantas histórias vividas ao longo desse meio século.
7 Belo monte foi a causa em que, recentemente, mais se engajou. O mundo inteiro ouviu sua voz, protestando contra a construção da usina. Menos, ao que parece, o ex-presidente Lula e a presidente Dilma. Belo Monte é agenda proibida com a Presidente? Quando soube que não poderia tratar desse tema, o senhor desistiu do encontro. O que vale a pena conversar com ela?
Belo Monte já é uma realidade. Lutamos por décadas contra esse projeto e não conseguimos evitar a sua realização. Estive duas vezes com Lula, em 19 de março e 22 de julho de 2009. Naquelas audiências tive ainda esperança de poder reverter o quadro. Na segunda audiência éramos dez pessoas: indígenas, ribeirinhos, procuradores da República, Dr. Célio Berman da USP e a mulher mais empenhada na luta em favor da Amazônia e de seus povos que conheci em minha vida, a minha comadre Antônia Melo. Foi naquela oportunidade que o Lula me segurou no braço e falou aquela frase que virou até manchete: “Não vamos empurrar esse projeto goela abaixo de quem quer que seja!”. Falou ainda que Belo Monte, se for realizado seria totalmente diferente de outros empreendimentos deste tipo. Ele não pretendia repetir Balbina que chamou de “monumento à insanidade”. Lembrou ainda a grande dívida que o Brasil tem com os atingidos de outras barragens e finalizou dizendo que Belo Monte só será feito “se for do agrado de todos”. Naquela hora fiquei eufórico. Acreditei na sinceridade do presidente. Só mais tarde dei-me conta de que todas as palavras do presidente foram mera encenação. Falou o que o bispo queria ouvir. Quando descobri que fui traído, fiquei com nojo! Como presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) tentei ainda um contato com a Dilma. Mas soube que, se Belo Monte constasse da pauta de assuntos a serem tratados com a presidente, ela mandaria cortar imediatamente, pois Belo Monte é fato consumado. Quem se prontificou a receber-me em audiência foi o Ministro da Secretaria-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Foi agendada a audiência. Mas poucos dias antes da data marcada, em um evento promovido pela Pastoral Social da CNBB, Gilberto Carvalho foi categórico em anunciar em alto e bom som que a construção de Belo Monte está decidida e essa decisão é irreversível. O que eu iria ainda fazer lá no gabinete desse homem? Pousar para uma foto ao lado de um sorridente ministro como prova do “diálogo” entre o governo e o bispo do Xingu? Não fui! Fui eu quem cancelou a audiência.
8 O ex-presidente Lula prometeu diálogo, respeito às pessoas e que a usina só sairia do papel se fosse do agrado de todos. Isso não aconteceu. Parece que tudo que ele prometeu foi para ser agradável ao senhor. Deve ter ficado uma grande mágoa por haver ser sido iludido por um presidente da República...
Soube depois da segunda audiência em 22 de julho de 2009 que a equipe que cerca o presidente já havia questionado a concessão de uma audiência ao bispo do Xingu, alegando tratar-se de “agenda negativa”. Mas Lula manteve o que prometeu em 19 de março. Garantiu efusivamente a continuação daquilo que ele chamou de diálogo. Foi marcado um outro encontro para outubro do mesmo ano. Passei no final de outubro de 2009 uma semana em Brasília aguardando ser chamado para um novo “diálogo”. Cada dia recebi um telefonema do planalto dizendo que “hoje não dá, talvez amanhã”. Na sexta-feira Gilberto Carvalho me telefonou às 21:30 avisando que “lamentavelmente” não daria desta feita eu ser recebido pelo presidente pois ele partiria para Venezuela para encontrar-se com Hugo Chávez. Na minha ingenuidade ainda acreditei no “diálogo” até que finalmente descobri que fui gentilmente convidado a cair fora.
9 Belo Monte já é uma luta perdida. Como o senhor se sente, depois de haver alertado o planeta para os desastres ambientais que a construção da usina provocaria e, sobretudo, para os dramas humanos? Como o senhor vê o quadro, agora irreversível, das pessoas que vivem na região da usina? As casas, pelo menos, oferecem condições dignas de moradia?
Muitas vezes me perguntam, se eu não estava tremendamente frustrado e decidido de pendurar as chuteiras de uma vez, já que não fui, ou melhor, já que não fomos vitoriosos em nossa luta. Primeiro não me entendo como derrotado, de jeito nenhum. Como bispo cumpri minha missão. Quem se deixa orientar pelo Evangelho não faz depender o seu engajamento em favor dos irmãos e irmãs da certeza da vitória, já previamente garantida. Aliás, a execução de Jesus na forma mais cruel que a antiguidade conhecia é aparentemente um atestado insofismável do fracasso total e absoluto de sua missão. De fato, os sumos sacerdotes e anciãos acharam que com a morte de Jesus toda a sua mensagem fosse varrida de uma vez da face da terra. No entanto, da cruz saiu a maior revolução de todos os tempos, a revolução do amor. É bem interessante também a palavra de Mahatma Gandhi: “A satisfação está no empenho, não no sucesso. Empenho total é sucesso total”
As casas construídas para as famílias compulsoriamente desalojadas e arrancadas de sua terra são bonitinhas por fora e apertadas por dentro. São planejadas nos gabinetes de Brasília e não levam em conta a índole do povo paraense e amazônida e as  peculiaridades climáticas da região. Mesmo que têm mais uns poucos metros quadrados inserem-se no estilo das gaiolas denominadas “Minha Casa – Minha Vida”. São uma agressão à cultura habitacional do paraense, do amazônida, pois não levam em conta os costumes do povo que vive aqui. A tradicional hospitalidade amazônida que sempre acha mais um lugar em casa para atar a rede para um familiar, parente ou amigo, é brutalmente massacrada. Imagine-se só um casal com talvez dois filhos diante do pai ou da mãe que vivem no interior e vem a Altamira para se tratar e logicamente se dirigem à casa de seu filho ou filha para hospedar-se. O filho, a filha terá que repetir a sentença do dono da pensão em Belém quando Maria e José procuraram abrigo: “Aqui não tem lugar!”.

10 O senhor consegue dimensionar o tamanho do prejuízo que os povos indígenas tiveram, histórica e continuamente, na Amazônia, desde que aqui chegou, em 1965, como padre recém-ordenado?
Lamento que os povos indígenas que até agora viviam na Volta Grande do Xingu não têm condições de sobreviver em suas terras. Não sei se vão sobreviver fisicamente. Culturalmente sei que não! Os grandes projetos governamentais são todos anti-indígenas. Não levam  em conta a presença, desde tempos imemoriais, destes povos. O  sujeito da história é o projeto, não um povo.
Mas vivi nas décadas passadas também uma experiência muito positiva e gratificante. Desde que cheguei à Amazônia nutri uma afeição especial pelos povos indígenas. Nunca me esqueço da ducha fria que levei quando como padre recém-chegado perguntei pelos Kayapó e um cidadão me respondeu que deveria “largar de mão esses caboclos” e ainda acrescentou: “Se Deus quiser, daqui a vinte anos não sobrará um deles!” Naquela hora jurei comigo mesmo que no que depender de mim lutaria sem trégua em favor dos povos indígenas, pela sua sobrevivência, sua cultura e pelo direito às suas terras ancestrais. Já em 1983 fui pela primeira vez eleito presidente nacional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Exerci essa função por quatro mandatos. Uma das maiores vitórias que registro em minha vida foi a inscrição dos direitos indígenas na Constituição Federal de 1988. Foi fruto do empenho do Cimi e da Igreja Católica junto com os povos indígenas. Através de inúmeros encontros com os deputados constituintes, conversas e palestras, inclusive no Congresso, conseguimos finalmente uma votação favorável ao capítulo “Dos Índios” (Art. 231 e Art. 232). No dia 1º de junho de 1988, o plenário da Assembleia Nacional Constituinte aprovou a redação do capítulo específico sobre os direitos indígenas. No segundo e último turno de votação plenária, na sessão de 30 de agosto de 1988, de 453 votos, o capítulo sobre os índios obteve 437 votos favoráveis, 8 abstenções e 8 votos contrários.
Lastimo agora ter que constatar que através da PEC 215/2000 a poderosa bancada ruralista no Congresso declarou guerra às conquistas de 1988, querendo alterar os parâmetros constitucionais.
11. Quando aqui chegou, há exatos meio século, a Igreja era governado pelo, agora, beato Paulo VI, que cuidava de dar vida às decisões do concílio convocado por seu predecessor, o agora São João XXIII. O Concílio não mudaria apenas o rito da missa, mas muita coisa deveria ser alterada. O que, se dependesse de sua forma de ver a vida, poderia ser mudado nas relações da Igreja com o mundo e da Igreja com seus padres e freiras? A manutenção do celibato é tema proibido ou deve ser revisto pelo papa?
Não considero o tema “celibato” um tema proibido. É um fato que muitos bispos falam sobre o assunto e não apenas “à boca pequena”. Concordo que se trata de um tema delicado que dá margem para muitas interpretações, às vezes até bastante equivocadas. Quero, porém, colocar os pingos nos is. A decisão por uma vida celibatária é decisão de um homem ou de uma mulher que opta livremente por esse estado de vida. Ninguém tem direito de forçar alguém a tomar essa decisão como ninguém pode obrigar um homem ou uma mulher a se casar. O celibato tem um valor imenso quando é assumido voluntariamente “por causa do Reino” (Mt 19,12). Pessoalmente não poderia imaginar-me fazer o que fiz ou expor-me do jeito como tive que me expor, enfrentar circunstâncias adversas como tive que enfrentar e suportar até ameaças à minha vida se tivesse mulher e filhos. Pelo menos na hora das ameaças teria que tomar a decisão de sair da conjuntura hostil e lembrar-me da primeira responsabilidade como esposo e pai de família. A família sempre teria que ser a prioridade número um.
O celibato se torna “problema” quando é acoplado à Eucaristia que, segundo as atuais leis e normas da Igreja, pode só e exclusivamente ser presidida por um homem celibatário. O Vaticano II (1962-65) afirmou que “nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da santíssima Eucaristia, a partir da qual, portanto, deve começar toda a educação do espírito comunitário” (PO 6). A Constituição Dogmática “Lumen gentium” do mesmo Concilio fala da Eucaristia como “fonte” e “ponto culminante de todas a vida cristã” (LG 11). É portanto urgente que a Igreja cria estruturas para que os 70% das comunidades da Amazônia que só tem acesso à Eucaristia duas ou três vezes ao ano possam ter acesso à celebração eucarística dominical.
O “problema” não é o celibato em si que é uma graça, mas a exclusão de milhões da celebração eucarística dominical por causa de estruturas perfeitamente modificáveis.
12 É verdade que o senhor pediu ao Papa permissão especial para ordenar homens casados, uma vez que há uma carência enorme de sacerdotes em sua Diocese, onde há 800 comunidades e apenas 27 padres. Qual foi a resposta da Santa Sé? Se é que houve resposta.
Nunca pedi ao Papa explicitamente uma “permissão especial para ordenar homens casados”. Que eu tivesse feito um pedido nestes termos foi uma interpretação que apareceu em alguns jornais. Na realidade falei na audiência particular que o Papa Francisco me concedeu em 4 de abril de 2014 sobre as “comunidades sem eucaristia”. O Papa falou então aquela frase que também virou manchete. Ele me disse que espera dos bispos “propostas corajosas”. Voltando ao Brasil relatei na Assembleia Geral de 2014 em Aparecida aos bispos reunidos o que o Papa me havia dito. Em seguida a Presidência da CNBB constituiu uma comissão que está estudando e elaborando propostas “corajosas” que oportunamente podem ser submetidas ao Papa Francisco. Espero apenas que isso aconteça o quanto antes.
13 Na sua opinião, como deveria ser a ação da Igreja, hoje, numa terra continental como a Amazônia, onde algumas denominações ditas “evangélicas” avançam rápida e (desculpe o termo) predatoriamente sobre a consciência católica?
Minha experiência é que, quando alguém participa e se engaja em sua comunidade e a comunidade está funcionando realmente na sua dimensão samaritana e profética, se entendendo como a família das famílias em que todas e todos tem vez e voz, e ainda tornando-se espaço para a meditação da Palavra de Deus e de oração e celebração é muito raro um membro se despedir e mudar para uma outra denominação.
14 Padres casados são uma solução paliativa um futuro inevitável para a Igreja?
Mais uma vez, não se trata de padres casados ou não. O cerne da questão é o acesso dos fiéis à Eucaristia.  
15. O Papa Francisco tem conseguido fazer com que as pessoas pensem, pelo menos, na misericórdia de Deus para com as minorias, como os gays; ou para com mulheres que praticaram aborto. É a Igreja se abrindo ao mundo para acolher os que, até então, viviam à margem. O que o senhor pensa sobre isso? Como sua vivência entre povos indígenas e a gente simples do interior do Brasil, com poucos direitos à cidadania e à dignidade de vida,  fez o senhor pensar esses temas?
A história do Bom Samaritano que Jesus contou (Lc 10, 25-37) é para mim o paradigma para entender o que significam compaixão e misericórdia. Compaixão é um estado emotivo, um sentimento afetuoso do tipo: “Coitadinho!” “Dá dó ver o pobrezinho!”. Misericórdia é a compaixão traduzida em ação, em solidariedade, em amor que se doa sem nada esperar em troca.  O detalhe está no original grego do Evangelho de São Lucas, onde a pergunta de Jesus não é “quem foi o próximo” como erroneamente quase todas as edições da Bíblia traduzem. Jesus pergunta: “quem tornou-se próximo?”. Ser próximo é a constatação de alguém estar bem perto de outrem. Tornar-se próximo implica numa decisão conscientemente tomada de aproximar-se de outra pessoa, no caso da história do Evangelho, de quem foi assaltado e está necessitando de primeiros socorros. Não importa quem é, de onde vem, a que raça pertence, que religião professa. Basta que esteja sofrendo, basta que esteja precisando de nosso auxílio, de nosso apoio.
É essa vocação da Igreja, de cada cristão e cristã: tornar-se próximo. Em primeiro lugar nunca fica o julgamento ou uma possível condenação. A “aproximação” em termos de ajuda, carinho, compreensão tem sempre a primazia. Defendo a vida desde a concepção até o desenlace natural de uma pessoa. Mas defendo também que as mulheres em situações de risco sejam amparadas e tenham alternativas concretas para evitarem o pior, a morte provocada do neném debaixo de seu coração. Quando se fala em aborto, geralmente só se pensa na mulher. Tantas vezes fica sozinha no seu dilema, entregue à própria sorte. Cadê o homem que engravidou a mulher? Está palitando os dentes em qualquer esquina da rua como se nada tivesse acontecido! Existe ainda, e muito, essa desgraça de machismo.
Quanto aos indígenas, a misericórdia se traduz em defesa de seus direitos constitucionais e numa sensibilidade toda especial para com os primeiros habitantes desta terra. Atitudes ultrajantes e racistas continuam a existir e são muitas vezes cultivadas no seio da família. Se para os pais os índios são “caboclos” e “selvagens” quem vai evitar que os filhos tenham a mesma compreensão? Grande parte do material didático de nossas escolas tem que ser revisado.
16. São João Paulo II foi duro com o ex-presidente Sarney, quando disse que a reforma agrária no Brasil não poderia fracassar, porque era uma questão de direitos humanos. O que fez a Igreja para que esse processo não parasse de vez?
Fico intrigado como a questão da “reforma agrária” desapareceu da pauta do governo. Foi durante anos a bandeira prioritária do PT que inclusive ajudou o Lula ganhar a eleição. De repente nem é mais assunto de pauta nos Encontros Nacionais do PT. É uma das grandes decepções que carrego comigo: um partido que assumiu compromisso com as causas dos menos favorecidos no Brasil, especialmente os trabalhadores no campo e os operários debandou para o outro lado, fazendo alianças com o latifúndio e o agronegócio. Parece-me que para  garantir a governabilidade os políticos hoje estão prontos para fazer aliança até com o diabo.
Ainda bem que a Igreja Católica nunca abandonou essa causa. Sempre de novo a questão agrária estava na pauta de assuntos das Assembleias Gerais da CNBB. E a Pastoral de Terra (CPT) continua firme na defesa dos direitos dos agricultores e denuncia vigorosamente todo tipo de crimes no campo, desde a manutenção de empregados em regime de escravatura até os assassinatos brutais a mando do latifúndio. No caso da questão indígena o CIMI é hoje criminalizado por defender os direitos dos indígenas às suas terras ancestrais, ancorados na Constituição Federal em vigor. No Mato Grosso do Sul uma deputada estadual inventou uma CPI do CIMI que corre atualmente naquela Assembleia Estadual. Que inversão de valores!
17 O papa Francisco – cuja simplicidade, na casa Santa Marta, onde teve um  encontro privado com o Pontífice, que o deixou muito impressionado pela simplicidade – escreveu uma carta encíclica sobre ecologia. O senhor acha que ele continua pregando no deserto, como João Batista?
O encontro que tive com o Papa não ocorreu na Casa Santa Marta, mas na biblioteca do Palácio Apostólico. Passei quatro dias na Casa Santa Marta onde pude realmente apreciar a simplicidade do Papa Francisco. Vi como entrou à noite no refeitório e pegou o seu prato como qualquer hóspede para servir-se no buffet. Num outro dia vi-o chamar e aguardar o elevador, os guardas suíços em discreta distância.
Estou convicto de que a Encíclica Laudato Sí influenciou a 21ª Conferência do Clima (COP 21) realizada há poucas semanas em Paris. Aliás, esta encíclica também tornou-se um ponto alto em minha vida de bispo na Amazônia quando descobri que minhas sugestões a respeito da Amazônia e dos Povos Indígenas apresentadas naquela memorável audiência foram contempladas nos números 38 e 146.
Pode ser que o Papa é ainda uma voz no deserto, mas ninguém nega que ela repercute e  muito e não será mais calada.
18 O senhor ainda consegue acreditar num Brasil que não para de produzir notícias sobre a corrupção e a incompetência dos governos para agir em favor da vida dos que mais necessitam?
“A esperança é a última que morre” é um ditado popular. Continuamos a sonhar com um Brasil diferente. Aqui e acolá surgem fatos concretos. O “Lava-jato” já é um indicativo de mudança. Esses “cabra ruim” que lesaram o Brasil e os brasileiros hoje pelo menos são indiciados e quem nem em pesadelo sonhou com prisão está hoje vendo o sol quadrado. É pena que tudo anda tão devagar que às vezes se perde a confiança. Será que de novo tudo vai acabar em pizza? Como um presidente da Câmara de Deputados comprovadamente corrupto e mentiroso pode ser manter no poder? São perguntas que cada um de nós se faz.
Mas mesmo assim, mais uma vez:  “A esperança é a última que morre”
19 Agora que já não é mais responsável por uma Diocese, pensa em dispensar a proteção policial que o acompanha 24 horas por dia, até ir a um aniversário? Já se sente livre para ser livre ou a Amazônia, inclusive nesse sentido, continua a ser um lugar perigoso para pensa em Justiça Social como o senhor?
Não fui eu que pedi a proteção pessoal. Pelo contrário me opus e só aceitei diante da insistência de quem “sabia mais que eu” e me recomendou encarecidamente que aceitasse a decisão do governo. Assim cabe também à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República com seu programa de Proteção dos Defensores de Direitos Humanos a encerrar a proteção especial.
Não vejo atualmente nenhuma razão de manter a proteção. Mas, como um superintendente da polícia me falou: „Quando tudo parece tranquilo, mesmo assim nunca se sabe o que essa gente está tramando“
20 Para finalizar, D. Erwin: o senhor conheceu outras irmãs (ou irmãos) como trabalho e coragem semelhantes ao de  Dorothy Stang em sua caminhada como padre ou como Bispo, que corram os mesmos riscos da missionária assassinada em 2005?   
Conheci, sim, pessoalmente o Dema, Ademir Alfeu Federicci, casado com Maria da Penha e pai de quatro filhos assassinado na madrugada de 25 de agosto de 2001 em sua casa. Caiu morto aos pés de sua mulher. “Maria cuide de nossos filhos!” teriam sido suas últimas palavras. Morreu pela mesma causa que foi a razão do assassinato, uns anos mais tarde, de Irmã Dorothy Mae Stang.
Irmão Humberto Mattle foi morto no corredor da Casa da Prelazia em que moro. O motivo verdadeiro de seu assassinato à queima-roupa ninguém sabe até hoje.
Já em 28 de abril de 1985 Irmã Cleusa Rody Coelho foi barbaramente executada. Conheci-a do Cimi. Dedicou a sua vida aos Apurinã, na Prelazia de Lábrea, AM. A autópsia revelou que foi espancada até a morte. Todas as suas costelas estavam quebradas, seu crânio fraturado.
Diante dessas e outras mortes bárbaras sempre lembro a palavra que se encontra na Primeira Carta de São João: “Nisto conhecemos o amor que Ele deu sua vida por nós. Também nós devemos dar nossas vidas pelos irmãos e as irmãs" (1 Jo 3,16).

Porto de Moz, 30 de dezembro de 2015