Bispo

O silêncio da morte paira sobre o Xingu.

Corpos inertes flutuam de braços erguidos

Nas águas verdes-esmeralda.

Uma mulher sem vida,

agarrada às suas crianças!

 

Xingu majestoso,

Xingu misterioso,

By-tire dos Índios!

Por que te revoltaste?

Por que ficaste tão furioso?

Por que agrediste o navio

Que singrava tuas águas?

 

Ou foram homens que te provocaram?

Ávidos de lucro, te desrespeitaram?

Ultrapassaram os limites de carga e passageiros?

 

Ó minha Porto de Moz querida,

Cidade de um povo

alegre e sorridente!

Agora o luto enche tuas casas,

A aflição e tristeza te abalam.

Gritos de dor ecoam pelas ruas,

Defuntos são levados à derradeira morada,

Insônia e pesadelos povoam a noite.

 

Ó minha Porto de Moz querida,

O silêncio sufocante da morte te invadiu!

 

Mas será da morte a última palavra?

Não! Jamais! A morte foi tragada pela Vida!

 

Mesmo com o rosto desfigurado pelas lágrimas

Adoramos a tua Cruz, Senhor.

Mesmo com o coração traspassado de dor

Professamos nossa fé na Ressurreição.

Mesmo com a alma atônita,

Confiamos a Ti nossos irmãos e irmãs.

 

Dom Erwin

24 de agosto de 2017

Xingu, que eu amo desde criança

Conheci o Xingu através dos meus tios, padre Eurico e Guilherme, leigo. Vieram para o Xingu em 1934. As cartas que periodicamente enviaram para sua terra natal circulavam entre todos os familiares na Áustria. Falaram da realidade que estavam vivendo no Xingu. Tio Guilherme queria retornar para a Áustria em 1939, mas não foi mais possível. A guerra que estourou naquele ano impedia sua volta à pátria. Permaneceu no Brasil e casou-se em Santa Catarina. Dos seus doze filhos, um se tornou padre e duas filhas, religiosas. Tive o primeiro contato imaginário com o Xingu através desses tios. Padre Eurico falava em seringueiros, ribeirinhos, índios, especialmente os índios Kayapó. Assim meu imaginário de criança já estava povoado com gente e coisas do Xingu.

Nasci na Áustria em 1939. Em 1978 naturalizei-me brasileiro. Hoje me apresento como brasileiro, nascido na Áustria. Minha família era pobre. Éramos seis filhos. Meu pai era professor. O que ganhava foi insuficiente para sustentar a família. Assim todos tínhamos que ajudar. Nas férias escolares eu trabalhava como ajudante de pedreiro. Cheguei a conhecer o mundo do trabalho na construção civil. Fiz muitas amizades. Aqueles operários de trabalho duro me aceitaram muito bem. Estavam felizes com a minha presença nos canteiros de obra, trabalhando com eles. Minha vocação nasceu a partir desta experiência, na Juventude Operária Católica – JOC. Pensava às vezes em fazer medicina ou letras. Mas, depois descobri que a melhor contribuição que poderia dar para o mundo seria como padre. Não sabia, porém, se ia ser jesuíta ou padre secular. Aí, sim, entrou a influência do tio padre Eurico. Ele me dizia: “Se tu queres ser padre por que não vens para a nossa congregação – Missionários do Sangue de Cristo?”. Aceitei a sugestão e fiz minha opção de vida nesta congregação.

 

O surgimento de um missionário

Depois de completar os estudos secundários em junho de 1958, entrei em outubro do mesmo ano no noviciado da congregação no Principado de Liechtenstein.Em 1959, matriculei-me na Universidade Federal de Salzburg. Foram seis anos de estudo na maravilhosa cidade de Mozart. Diplomei-me em filosofia e cursei teologia na mesma Universidade Federal. Pouco antes de me formar, veio a pergunta: Onde vou exercer meu ministério de padre? Meus superiores queriam que eu continuasse os estudos e me diplomasse em Filologia Antiga: Grego e Latim. A congregação precisava de professores em um grande colégio que mantinha na Alemanha. De modo especial necessitava de professor para as aulas de Grego e Latim. Eu gostava – e gosto até hoje – destas línguas. Mas fiquei pensando comigo mesmo: “Meu Deus, vou ser padre para ser professor de Grego e Latim?” Então me veio a inspiração: “Vou ser padre numa terra onde há falta de padres e de recursos.”

Como jovem já me entusiasmava o texto da Primeira Carta de São João 3,16: “Nisto conhecemos que é o amor: Jesus deu a vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos e irmãs”. Empolgado por esta mística e tendo aprendido muito com a JOC que, junto com outros jovens, eu tinha fundado em minha cidade natal, tomei a decisão: Vou para o Brasil. E o Brasil significava o Xingu. Fui falar com o Provincial e disse: “Diante da situação em que se encontra a Prelazia do Xingu, quero ir para lá, quero dedicar minha vida aos povos do Xingu”. Mesmo constatando a necessidade de professor, o provincial concordou e disse: “Precisamos enviar nossos jovens para lugares onde há necessidade de padres, onde falta tudo. Podes ir. No entanto, deves primeiro te submeter a exames médicos para saber se és apto para o clima tropical”. Não tive a menor dúvida acerca de minhas condições de saúde que eram ótimas. Praticava esportes como esquiar e escalar montanhas.

 

Adeus à Áustria

Fui ordenado padre no dia 3 de julho de 1965 na Catedral de Salzburg. Já em 2 de novembro do mesmo ano, me despedi da família. Era o aniversário de meu pai. No dia 4 de novembro embarquei em Hamburgo no navio cargueiro “Emsstein” que me levou ao Brasil. Éramos apenas dois passageiros junto aos marinheiros do cargueiro – Frei Lucas, um franciscano, e eu. No dia 18 de novembro de 1965 o navio aportou em São Luís do Maranhão. Foi às quatro horas da tarde – à hora décima do Evangelho de João. Os dois discípulos de João Batista nunca mais se esqueceriam daquele momento em que pela primeira vez encontraram Jesus que os convidou: “Vinde e vede!”. E eles permaneceram com ele naquele dia. Também eu nunca me esqueço daquela hora e daquele dia em que pela primeira vez finquei meus pés em solo brasileiro: “era a hora décima” (Jo 1,39).

Até o navio descarregar ou carregar carga, hospedei-me por três dias no Convento dos Franciscanos em São Luís. Não falava uma palavra em português. Quando em março de 2016 estive novamente nesse convento para ordenação de meu sucessor como bispo do Xingu, dom João Muniz Alves OFM, encontrei o quarto tal e qual como nos idos de 1965. Quantos anos já haviam passado desde então! Quando dom João foi nomeado para o Xingu ele era guardião daquele mesmo convento que receberaa mim, padre novo, missionário enviado para o Brasil. Mero acaso? Não. “A mão do Senhor veio sobre mim e me conduziu...” (Ez 37,1). Quem imaginaria que, 50 anos depois da minha chegada ao Brasil, o superior do convento em que então me hospedei me sucederia na Prelazia do Xingu!

Cheguei a Belém no dia 25 de novembro, à meia noite. Lá fiquei um mês. Participei de um curso intensivo para os “Voluntários do Papa” vindos dos Estados Unidos. Não gostei muito, pois na mesa e no recreio sempre falaram Inglês. E eu não estava aí para bater papo em Inglês, mas para aprender Português. Assim pedi a Madre Ventura que me permitisse tomar as refeições com as Irmãs. E uma delas, a Irmã Mônica, encarregou-se de ensinar Português para mim. A irmã era muito exigente, graças a Deus. Mandou-me às vezes repetir uma palavra tantas vezes até que a pronúncia estava correta, sem sotaque.

 

Padre andarilho e professor

No dia 21 de dezembro viajei para a Altamira. Foi o primeiro voo na minha vida. Era um DC 3 da companhia aérea Cruzeiro. O pessoal brincava dizendo: DC-3 quer dizer que sobem dezoito e descem três. No dia 25 de dezembro, fui celebrar a missa no Santuário de Nossa Senhora de Nazaré e fiz minha primeira homilia em Português! Tremendo nas bases, é claro. Também pudera, depois de apenas um mês no Brasil! Me esforcei muito para falar o Português corretamente. Fiquei ainda uns dias em Altamira e, antes do final do ano, retornei a Belém para continuar o curso de Português com a Irmã Mônica e com os americanos (que continuavam falando Inglês nas refeições).

No dia 6 março de 1966, fui em definitivo para Altamira. E o bispo dom Clemente me deu a primeira provisão canônica: mandou-me dar catequese às crianças, dar aulas de religião no colégio e celebrar às seis e meia da manhã a missa na Igrejinha de Nossa Senhora de Nazaré, naquele tempo periferia de Altamira que era uma cidade com uns sete mil habitantes. Na realidade, não tinha muito o que fazer durante a semana, fora alguns encontros de catequese. Sábado e domingo ia então para as colônias. Era um padre andarilho. Logo mais assumi a pastoral no porto de Altamira que era Vitória do Xingu, hoje paróquia e município, e em Souzel, uma paróquia antiga do Baixo Xingu.

No Instituto Maria de Mattias havia falta de professor para o Curso Pedagógico. Assim a diretora me pediu que assumisse as aulas de Filosofia e Psicologia Educacional. Contribuí durante anos, até minha nomeação de bispo em 1980, para a formação de professoras e professores de ensino fundamental. Foi uma época muito gratificante porque tive um contato direto com a juventude de Altamira. E ainda, como não havia professor de língua estrangeira, assumi também as aulas de Inglês.

 

Bispo aos 41 anos

Em 1971, o Papa Paulo VI nomeou o padre Eurico, meu tio, bispo da Prelazia do Xingu. Já tinha 65 anos. Interessante é que ele ainda foi nomeado “bispo titular de Cissa e prelado do Xingu”. Procurei um dia saber onde se encontrava essa diocese e descobri que se tratava de uma ilha já submersa no Mar Tirreno. Assim começamos a brincar com dom Eurico dizendo que para tomar posse de sua diocese titular precisava de um equipamento de mergulho. Sempre achei estranho essa praxe de nomear bispos titulares de alguma diocese que há séculos não mais existe. No final da década de 70, a saúde dele já estava bastante debilitada. Assim ele pediu um bispo coadjutor à Nunciatura. Já pelo fato de eu ser sobrinho de dom Eurico, quem já esperava que fosse eu o seu sucessor. Mas, dom Eurico fez uma pesquisa entre os padres para saber a quem indicariam como seu sucessor. Pelo que soube muito tempo depois, o nome mais apontado foi o meu. Dom Eurico, certamente assustado, não sabia como agir e foi se consultar com dom Alberto Gaudêncio Ramos, arcebispo metropolitano de Belém. Este teria respondido: “Se os padres querem, vamos propor o nome do seu sobrinho.”

No final de outubro de 1980, fui chamado à Nunciatura. O núncio apostólico era dom Carmine Rocco. O secretário me recebeu e convidou-me a aguardar o núncio. Não tardou a aparecer. Entregou-me uma carta e pediu que a lesse. Era a minha nomeação para bispo-coadjutor na Prelazia do Xingu. Fiquei pasmo e o núncio me perguntou: “O que vai fazer agora?”. Respondi: “Volto para Altamira e vou perguntar os colegas o que acham disso”. E ele: “Eu já consultei padres, leigos e irmãs da prelazia. Confiam no senhor. Aceite!”. Apelou ainda para meu “sensus ecclesiae” e o espírito filial ao Santo Padre. Para mim, começou uma grande agonia. Não sabia mais o que dizer. O núncio olhou bem para mim e falou: “Olhe, o senhor pode aceitar tranquilamente porque o povo lhe quer muito bem. As consultas que fizemos mostram isso claramente. Façamos assim: o senhor vai agora para a capela, fique lá rezando por uma hora e depois venha assinar o termo.” Respondi: “Se é assim, que depois de uma hora devo vir assinar de qualquer jeito, assino logo para depois poder rezar sossegadamente”. O núncio ainda acrescentou: “O senhor terá que guardar o sigilo até 12 de novembro, quando a notícia será oficialmente publicada no Vaticano”.

Essa conversa com o núncio se deu no dia 31 de outubro de 1980. Voltei em seguida via Belém para Altamira. Várias pessoas souberam que tinha viajado para a capital federal e se interrogavam: “Padre Erwin foi a Brasília fazer o quê?”. Dona Berenice, a despachante da VASP e amiga de longa data, também se perguntava o que eu tinha ido fazer em Brasília. Naquele tempo não era tão comum eu viajar. Dom Eurico estava em Belém e indagou também: “O que foi fazer em Brasília?”. Como era segredo pontifício, dei-lhe uma resposta evasiva.

 

Laudato Sí” – Uma encíclica diferente

O título desta conferência “Eucaristia e Ecologia” gera sem dúvida uma certa perplexidade. O que “o Memorial da Morte e Ressurreição do Senhor”, a “Hóstia Santa que se consagra sobre o altar e aos nossos olhos se levanta para o Brasil abençoar”, o que o “Sacramento dos sacramentos” tem a ver com assuntos aparentemente tão profanos como as questões ecológicas, bandeiras de luta de ambientalistas e indigenistas, de movimentos e partidos verdes?

Quem nos dá resposta é o próprio papa Francisco na sua Encíclica “Laudato Si”: “A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a se manifestar de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo a Ele no nosso próprio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico (...). A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico (...). Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira” (LS 236).

Nesta compreensão da Eucaristia como “fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente” que nos leva “a ser guardiões da criação inteira” queremos refletir sobre a Encíclica “Laudato Si”. Ser guardião implica em assumir a responsabilidade de zelar pela criação e cuidar do meio ambiente, inclusive com vista às futuras gerações. O Papa Francisco rejeita categoricamente a interpretação de Genesis 1,28 numa perspectiva de dominação implacável do ser humano sobre a criação, de exploração desenfreada e inescrupulosa dos recursos naturais como se fossemos a última geração.

A referência ao Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis realça a harmonia que deve existir entre o ser humano e os outros seres criados que São Francisco chama de irmãos e irmãs. Essa visão de harmonia de que o Papa fala coincide com o entendimento que os povos indígenas andinos conservam desde tempos imemoriais quando falam do Sumak Kawsay (Bem Viver): Existe um ser supremo que criou todas as coisas e por isso deve ser amado e respeitado. Esta consciência faz o homem e a mulher viver em paz consigo mesmo e em harmonia com os irmãos e irmãs e ao mesmo tempo com todos os seres criados, com o mundo que nos circunda.

Sem dúvida a Encíclica foi também uma contribuição do Papa Francisco à Conferência sobre o Clima realizada de 30 de novembro a 11 de dezembro de 2015 em Paris que se propôs substituir o Protocolo de Kyoto de 1997 de resultados decepcionantes e chegar a um acordo mundial sobre a redução das emissões de gases de efeito estufa. Nesta histórica conferência de Paris pela primeira vez não se fez mais a distinção entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento o que está bem na linha do papa que alerta na encíclica: “O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros (...). Precisamos de nova solidariedade universal“ (LS 14). Em Paris, de repente todos os países – e não apenas alguns – escolhem como meta limitar a temperatura global ao aumento de 2° C e insistem ainda em envidar todos os esforços para atingir no máximo 1,5° C.

Como secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia tive o privilégio de ser recebido pelo Papa Francisco em 4 de abril de 2014 em uma audiência particular de uns vinte minutos. Foi a ocasião em que ele me confidenciou que estava pretendendo promulgar uma encíclica sobre a ecologia. Lembro-me da ênfase especial que deu ao assunto: “Não trataremos de ecologia de modo apenas genérico, está na hora de falarmos em uma ecologia ‘humana‘“. Foi aí que pedi a ele que não se esquecesse da Amazônia e dos Povos Indígenas. Convidou-me então a colaborar nestes tópicos o que fiz com muita alegria e gratidão enviando minha contribuição ao Cardeal Pedro Turkson, Presidente da Pontifícia Comissão Justiça e Paz, encarregado de sintetizar as diversas sugestões vindas de todo mundo.

Os parágrafos 37/38 e 145/146 são o reflexo das contribuições que ofereci em nome da Igreja na Amazônia. Vejam o que o Papa escreve:

37. Alguns países fizeram progressos na conservação eficaz de certos lugares e áreas – na terra e nos oceanos –, proibindo aí toda a intervenção humana que possa modificar a sua fisionomia ou alterar a sua constituição original. No cuidado da biodiversidade, os especialistas insistem na necessidade de prestar uma especial atenção às áreas mais ricas em variedade de espécies, em espécies endémicas, raras ou com menor grau de efetiva proteção. Há lugares que requerem um cuidado particular pela sua enorme importância para o ecossistema mundial, ou que constituem significativas reservas de água assegurando assim outras formas de vida.

38. Mencionemos, por exemplo, os pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazônia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes lençóis freáticos e os glaciares. A importância destes lugares para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar. Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos se perdem inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos. Todavia, ao falar sobre estes lugares, impõe-se um delicado equilíbrio, porque não é possível ignorar também os enormes interesses econômicos internacionais que, a pretexto de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais. Com efeito, há « propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais ». É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais.

Será que a delegação brasileira na Conferência de Paris assimilou a lição do Papa? Fato é que a assim chamada “Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida” do Brasil à Conferência de Paris visa o fim do desmatamento na Amazônia, o reflorestamento e a recuperação de áreas degradadas, além do propósito de alcançar, em termos de fontes de energia, o patamar de 45% de energias renováveis.

145. Muitas formas de intensa exploração e degradação do meio ambiente podem esgotar não só os meios locais de subsistência, mas também os recursos sociais que consentiram um modo de viver que sustentou, durante longo tempo, uma identidade cultural e um sentido da existência e da convivência social. O desaparecimento duma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento duma espécie animal ou vegetal. A imposição dum estilo hegemônico de vida ligado a um modo de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas.

146. Neste sentido, é indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projetos que afetam os seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura.

Até agora em nenhum documento papal a realidade em que vivem os povos indígenas e seus legítimos anseios foram abordados de maneira tão contundente. O papa assume a defesa da dignidade e dos direitos dos povos aborígenes. Para a Igreja no Brasil, mormente na Amazônia, e de modo especial para o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organismo vinculado à CNBB, as palavras do Papa são um enorme impulso para prosseguir na luta destemida em favor destes povos que atualmente estão vivendo mais um momento crítico. Está em jogo a vitória conquistada na Assembleia Nacional Constituinte de 1987/88 de finalmente verem seus direitos inscritos na Constituição Federal. Hoje, lamentavelmente, tramitam no Congresso Nacional Projetos de Emenda Constitucional apoiados em cheio pela bancada ruralista declaradamente anti-indigena e pelos representantes do agronegócio, de alterar os parâmetros constitucionais em franco detrimento dos povos indígenas deste País.

A encíclica Laudato Sí tem que ser lida e meditada na íntegra, como um todo. É até desaconselhável assinalar apenas um e outro ponto ou insistir apenas nesse ou naquele aspecto sem levar em conta a mensagem completa. Digo isso também a respeito dos já citados parágrafos sobre a Amazônia e os Povos Indígenas. Não podem ser pinçados e analisados fora do contexto de toda a encíclica.

Mesmo assim saltam à vista algumas palavras-chave que são, por assim dizer, o “arcabouço” de toda a encíclica:

  1. As encíclicas papais são geralmente endereçadas aos “veneráveis irmãos no episcopado, ao clero, às famílias religiosas, aos fiéis da igreja católica” e como expressão de certa condescendência “a todos os homens de boa vontade”. A Encíclica do Papa Francisco “Laudato Sí”, no entanto, quer ultrapassar qualquer fronteira confessional, política, racial e ideológica e se dirige à toda a humanidade em todos os continentes. “Agora, à vista da deterioração global do ambiente, quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste planeta. Na minha exortação Evangelii gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim de os mobilizar para um processo de reforma missionária ainda pendente. Nesta encíclica, pretendo especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum“ (LS 3).

  2. “Entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que « geme e sofre as dores do parto » (Rom 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gen 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos“ (LS 2).

  3. O Papa insiste na “ecologia humana”. Ele cita a encíclica “Centesimus Annus” de 1991 do Papa João Paulo II que fala das “condições morais de uma autêntica ecologia humana”. E explicita: “A destruição do ambiente humano é um fato muito grave, porque, por um lado, Deus confiou o mundo ao ser humano e, por outro, a própria vida humana é um dom que deve ser protegido de várias formas de degradação. Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas «nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades»“ (LS 5).

  4. “O progresso humano autêntico possui um carácter moral e pressupõe o pleno respeito pela pessoa humana, mas deve prestar atenção também ao mundo natural e «ter em conta a natureza de cada ser e as ligações mútuas entre todos, num sistema ordenado». Assim, a capacidade do ser humano transformar a realidade deve desenvolver-se com base na doação originária das coisas por parte de Deus“ (LS 5).

  5. “A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio“ (LS 11).

  6. A “cultura do descarte (...) afeta tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo (...) acaba por danificar o planeta inteiro“ (LS 22).

  7. “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar (...). A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum“ (LS 13).

  8. É errado “pensar que os outros seres vivos devam ser considerados como meros objetos submetidos ao domínio arbitrário do ser humano. Quando se propõe uma visão da natureza unicamente como objeto de lucro e interesse, isso comporta graves consequências também para a sociedade. A visão que consolida o arbítrio do mais forte favoreceu imensas desigualdades, injustiças e violências para a maior parte da humanidade porque os recursos se tornam propriedade do primeiro que chega ou de quem tem mais poder: o vencedor leva tudo“ (LS 82).

  9. “O ser humano não é plenamente autónomo. A sua liberdade adoece, quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal. (...) Podemos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum lúcido domínio de si” (105).

  10. Se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos nos iludir de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais. Quando o pensamento cristão reivindica, para o ser humano, um valor peculiar acima das outras criaturas, suscita a valorização de cada pessoa humana e, assim, estimula o reconhecimento do outro. A abertura a um «tu» capaz de conhecer, amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana. Por isso, para uma relação adequada com o mundo criado, não é necessário diminuir a dimensão social do ser humano nem a sua dimensão transcendente, a sua abertura ao «Tu» divino. Com efeito, não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus“ (LS 119).

  11. O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social. (LS 48). “Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza“ (LS 139).

  12. Sempre se deve recordar que «a proteção ambiental não pode ser assegurada somente com base no cálculo financeiro de custos e benefícios. O ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou a promover adequadamente». Mais uma vez repito que convém evitar uma concepção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos“ (LS 190).

  13. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e econômico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso“ (LS 194).

  14. Já no início da Laudato Si o Papa Francisco insiste numa “conversão ecológica global” (LS 5), aprofundando esse tema no final da Encíclica quando diz: “Desejo propor aos cristãos algumas linhas de espiritualidade ecológica que nascem das convicções da nossa fé, pois aquilo que o Evangelho nos ensina tem consequências no nosso modo de pensar, sentir e viver“. Trata-se na realidade de uma “espiritualidade para alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Com efeito, não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima. E o Papa cita a sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium quando diz que essa mística é “uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária“ e acrescenta: “Temos de reconhecer que nós, cristãos, nem sempre recolhemos e fizemos frutificar as riquezas dadas por Deus à Igreja, nas quais a espiritualidade não está desligada do próprio corpo nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia“ (LS 216).

  15. Também já no começo da Encíclica o Papa Francisco fala dos passos da conversão citando do patriarca de Constantinopla Bartolomeu que “propôs-nos passar do consumo ao sacrifício, da avidez à generosidade, do desperdício à capacidade de partilha, numa ascese que «significa aprender a dar, e não simplesmente renunciar. É um modo de amar, de passar pouco a pouco do que eu quero àquilo de que o mundo de Deus precisa. É libertação do medo, da avidez, da dependência» (LS 9). No final ele acrescenta: “Convido todos os cristãos a explicitar esta dimensão da sua conversão, permitindo que a força e a luz da graça recebida se estendam também à relação com as outras criaturas e com o mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a criação inteira que viveu, de maneira tão elucidativa, São Francisco de Assis“ (LS 221).

 

Termino assim convidando as irmãs e os irmãos a rezarmos juntos e com o Papa Francisco a “Oração pela nossa terra” que ele propõe no final da Encíclica (LS 246):

Deus Omnipotente,
que estais presente em todo o universo
e na mais pequenina das vossas criaturas,
Vós que envolveis com a vossa ternura
tudo o que existe,
derramai em nós a força do vosso amor
para cuidarmos da vida e da beleza.
Inundai-nos de paz,
para que vivamos como irmãos e irmãs
sem prejudicar ninguém.
Ó Deus dos pobres,
ajudai-nos a resgatar
os abandonados e esquecidos desta terra
que valem tanto aos vossos olhos.
Curai a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição.
Tocai os corações
daqueles que buscam apenas benefícios
à custa dos pobres e da terra.
Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,
a contemplar com encanto,
a reconhecer que estamos profundamente unidos
com todas as criaturas
no nosso caminho para a vossa luz infinita.
Obrigado porque estais conosco todos os dias.
Sustentai-nos, por favor, na nossa luta
pela justiça, o amor e a paz.


 

Belém, 19 de agosto de 2016

XVII Congresso Eucarístico Nacional

 

Erwin Kräutler

Bispo em. do Xingu

 

 

As sete palavras de Jesus na cruz

 

Primeira Palavra

 

Chegando ao lugar chamado Caveira, lá o crucificaram, bem como os malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: "Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem" (Lc 23,33-34).

 

 

"Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" rezamos no Pai Nosso. Pedimos perdão a Deus, fazendo a solene promessa de perdoarmos aos que nos ofenderam. Não é fácil realizar o que prometemos. Existem chagas que custam cicatrizar. Há violências e injustiças que deixam como saldo um mar de sofrimentos. Há infidelidades e traições que ferem profundamente o coração. Há agressões e ódios que geram abismos quase intransponíveis entre as pessoas. No entanto, não há inimigos que resistam eternamente à bondade e ao amor. Não há ódio que um dia não sucumba ao poder do Amor. O primeiro passo para o perdão é desarmar-se interiormente. Quem perdoa é sempre mais forte do que quem ofendeu. O perdão é que gera vida, não o ódio e a vingança! Dizem que o ódio é como o fogo: arde, queima, se alastra, arrasa, reduz a cinzas. Se o ódio é como fogo, então o perdão é como a água! É a água que extingue as labaredas, é a água que apaga as chamas, é a água que vence o incêndio. Assim é o perdão que extingue as vinganças, é o perdão que apaga as inimizades, é o perdão que afoga as mágoas, é o perdão que vence o ódio.

 

 

Segunda Palavra

 

Um dos malfeitores suspensos à cruz o insultava, dizendo: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós." Mas ou outro, tomando a palavra, o repreendia: "Nem sequer temes a Deus, estando nas mesma condenação? Quanto a nós, é de justiça; pagamos por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal". E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino". Ele respondeu: "Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23,39-43).

 

Um dos malfeitores crucificados chama Jesus de "Cristo", o outro o reconhece com "Rei". Por causa destes dois títulos - um religioso, outro político - Jesus morre na cruz. Como "Cristo" Jesus é condenado por "blasfêmia" porque se declara "Filho de Deus" (cf. Mt 27,62-66) reivindicando para si a dignidade divina. Como "Rei" é considerado subversivo e agitador. Os chefes do povo conseguiram o que queriam: matar Jesus de Nazaré como perturbador da ordem pública e aos que o tiverem na conta de profeta tinha que ser apresentado como homem definitivamente derrotado, destruído, aniquilado. Um dos malfeitores faz coro aos insultos dos chefes que zombeteiramente lhe recomendam: "que salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Eleito" (Lc 23,35). Ele também grita: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós". O outro, porém, reconhece a inocência de Jesus e descobre na sua derradeira hora a verdadeira identidade de quem sofre ao seu lado o mesmo suplício. Entende que o Reino de Jesus não é deste mundo (cf. Jo 18,36), mas que Jesus é Rei e viera "ao mundo para dar testemunho da verdade" (Jo 18,37). A luz da verdade que ilumina o coração e a mente do "bom ladrão" gera de repente uma ilimitada confiança e o enche de certeza de que Jesus pode salvá-lo e perdoar-lhe os seus pecados, acolhendo-o no paraíso.

 

 

Terceira Palavra

 

Junto à cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, a de Cléofas, e Maria, a Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” A partir daquela hora, o discípulo a acolheu no que era seu (Jo 19,25-27)

 

Os soldados repartiram as vestes de Jesus em quatro partes, uma para cada soldado (cf. Jo 19,23). Quatro soldados! Quatro homens sentados, distribuindo entre si, em partes iguais, os últimos pertences de Jesus e jogando dados para ver quem fica com a peça principal, a túnica sem costura. Não foi a mãe que a teceu para Jesus? Em cada fibra se esconde um traço de seu amor materno. São quatro soldados, quatro partes de roupa e uma túnica que recorda a esses homens rudes que, afinal, o crucificado também tem mãe.

 

São também quatro as mulheres. Não estão sentadas, mas sim de pé junto à cruz. Só duas delas conhecemos mais de perto: Maria, a mãe de Jesus, e Maria, a Madalena. Mas no cenário de Golgotha se encontra ainda um outro personagem. O Evangelho não revela o nome. Diz apenas que ao lado da mãe de Jesus se encontrava "o discípulo a quem amava". Ele representa todos os filhos e filhas de Deus que são os discípulos e discípulas "a quem Jesus ama". São suas irmãs, seus irmãos amados, a quem, antes de morrer, confia como última e amorosa dádiva sua própria mãe. Na última ceia nos assegurou sua presença até o fim dos tempos no pão e no vinho que se transformam no Corpo e Sangue do Senhor: Corpo entregue, Sangue derramado. No alto da cruz completa o testamento, oferecendo-nos sua mãe como Mãe Nossa também por todos os séculos. É de uma comovente solenidade e de uma expressividade singular com que Jesus fala pela última vez a sua mãe. O seu testamento se completa com a palavra dirigida ao "discípulo a quem amava", a todas e todos nós: "Eis tua mãe!"

 

 

Quarta Palavra

 

Desde a hora sexta até a hora nona, houve treva em toda a terra. Por volta da hora nona, Jesus deu um grande grito: "Eli, Eli, lamá sabachthâni?", isto é: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt 27,45-46).

 

Pouco antes de morrer em meio aos crudelíssimos tormentos que o Império Romano reservou aos criminosos, Jesus começa a balbuciar, num derradeiro esforço entre dores inimagináveis o comovente e, ao mesmo tempo, horrendo Salmo 21 (22). Como não foi o impacto desse grito aos que assistiram ao terrível espetáculo, de modo que os evangelistas fizeram questão de transmiti-lo tal e qual como Jesus o bradou, na língua que aprendeu de sua mãe no lar de Nazaré!

 

Jesus passa pela angústia de sentir-se completamente abandonado, experimenta a noite escura da tremenda solidão em meio ao redemoinho de um indizível sofrimento que se fecha sobre ele. Tudo vira trevas, sem horizonte. Jesus vive essa experiência até ao extremo.

 

Muitos de nossos irmãos e irmãs experimentam essa solidão, a dor do abandono, de não entender mais nada, de duvidar da bondade de Deus, até de usar as palavras de Jó e amaldiçoar o dia em que nasceu: "Por que não morri ao deixar o ventre materno, ou pereci ao sair das entranhas? Por que me recebeu um regaço e seios me deram de mamar?" (Jó 3,11-12) Quantos são os gritos sobem dos "porões da humanidade": "Onde estás, ó meu Deus?" Quantas perguntas sem resposta! Ouvindo, porém, o grito de Jesus sabemos que ele, na cruz, sofreu conosco. Mesmo assim, o salmo 21(22) não é um salmo de desespero, mas em meio à toda a angústia e aos tormentos, a oração procura a Deus: "Pois és tu quem me tirou do ventre de minha mãe, quem me confiou ao seu peito; eu fui lançado a ti ao sair das entranhas. Desde o ventre materno tu és meu Deus " (Sl 21(22),10-11).

 

Há muita coisa em nossa vida que jamais entendemos. Nestas horas escuras não são palavras e pias considerações que nos consolam. Resta-nos, no silêncio, contemplar a cruz. Por mais escura que seja a noite, o sol volta sempre a brilhar! O "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" não é a última palavra. Deus dá seu Sim irrevogável à vida na manhã da Páscoa ao ressuscitar Jesus. A luz afugenta as trevas.

 

 

Quinta Palavra

 

Depois disso, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para que se cumprisse a Escritura até o fim, disse: “Tenho sede!” Havia ali, uma jarra cheia de vinagre. Amarrando uma esponja embebida de vinagre num ramo de hissopo levaram-na à sua boca (Jo 19,28-29)

 

A exclamação de Jesus pode ser uma alusão ao Salmo 68 (69),22: "Como alimento deram-me fel e na minha sede serviram-me vinagre". Não precisa ser zombaria, escárnio dos soldados. Pode até ser uma expressão de afeto para com esse pobre homem que, no estertor da morte, ardendo de dor e de febre por causa das inúmeras chagas, pede que lhe molhem pelo menos os lábios. É um pedido tão humilde e totalmente humano.

 

A sede de Deus é tema de comoventes orações do Antigo Testamento: "Assim como a corça suspira pelas águas correntes, suspira igualmente minh'alma por vós, ó meu Deus! Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus?" (Sl 41(42),2-3).

 

"Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! A minh'alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água" (Sl 62(63),2).

 

 

Sexta Palavra

 

Quando tomou o vinagre, Jesus disse: “Está consumado!”. E, inclinando a cabeça entregou o espírito (Jo 19,30).

 

O quarto Evangelho começa a narração da Última Ceia de Jesus com seus discípulos com as palavras: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim". A expressão "até o fim" na língua em que o Evangelho foi escrito, o Grego, se relaciona ao "Está consumado" que Jesus falou antes de morrer. É a mesma raiz gramatical que se encontra no "até o fim" e no "consumado". "Está consumado" não mais é um gemido de dor, mas já o anúncio antecipado da Vitória.

 

Contemplamos o Senhor crucificado, o corpo dilacerado pelos açoites, as mãos e os pés perfurados. "Está consumado!". O amor chegou ao extremo. Mas contemplamos na face ensanguentada de Jesus também os rostos de tantas irmãs e irmãos nossos que sofrem: comunidades indígenas e afro-americanas; mulheres excluídas, em razão de gênero, raça ou situação sócio-econômica; jovens que recebem uma educação de baixa qualidade e não têm oportunidades de progredir; pobres, desempregados, migrantes, deslocados, agricultores sem terra; meninos e meninas submetidos à prostituição infantil; dependentes de drogas, as pessoas com limitações físicas, os portadores e vítimas de enfermidades graves que sofrem a solidão; seqüestrados e os que são vítimas da violência, do terrorismo; anciãos recusados por sua família como pessoas incômodas e inúteis; os presos em situação desumana.

 

Só o Amor "até o fim", até ao extremo, consegue ver com os olhos de Deus os pobres e condenados à morte antes do tempo. Só este Amor consegue desvendar, a partir do coração de Deus, as causas dessa realidade iníqua.

 

 

Sétima Palavra

 

Era já mais ou menos a hora sexta quando o sol se apagou, e houve treva sobre a terra inteira até à hora nona, tendo desaparecido o sol. O véu do Santuário rasgou-se ao meio, e Jesus deu um forte grito: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" Dizendo isso, expirou. O centurião, vendo o que acontecera, glorificava a Deus, dizendo: "Realmente, este homem era justo!" (Lc 23,44-47).

 

Segundo o Evangelho de São Lucas, Jesus morre pronunciando o versículo 6 do Salmo 30 (31): Pai, "em tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23,46). O versículo se completa com as palavras "tu me resgatas, Senhor, Deus fiel“.

 

Agora, Jesus está morto. O centurião romano não consegue disfarçar seu assombro. Atesta a inocência do crucificado. Afirma que era "justo". O corpo é descido da cruz e sepultado. Rolaram uma grande pedra para a entrada do túmulo (cf. Mt 27,60). O fim definitivo!

 

Aparentemente, porque a história não termina aqui! "Ao raiar do primeiro dia da semana“ (Mt 28,1), "Maria Madalena e a outra Maria“ foram ao túmulo e receberam a notícia alvissareira: "Ele não está aqui, pois ressuscitou!" (Mt 28,6) E "elas, partindo depressa (...) Correram a anunciá-lo aos seus discípulos“ (Mt 28,8). São Marcos nos conta que Maria Madalena "foi anunciá-lo àqueles que tinham estado em companhia dele e que estavam aflitos e choravam" (Mc 16,10). Pelo SIM de uma mulher, Maria, Deus inicia sua maravilhosa obra salvífica, enviando o seu Filho. Foi também através de uma mulher, de outra Maria, que se inicia o anúncio pascal que atravessará os séculos. "É verdade! O Senhor ressuscitou!" (Lc 24,34). O primeiro anúncio "Ressuscitou!" coube às mulheres (Lc 24,1-10).

 

E essa Boa Nova atravessa os séculos e milênios. É proclamado em todos os rincões da terra, do norte ao sul, do leste ao oeste, em todas as línguas e culturas.

 

Minha irmã, meu irmão,

Dom João e eu, dom Erwin, lhes desejamos uma Santa e Feliz Páscoa da Ressurreição.

Parabéns, Dom Erwin Krautler! 35 anos de episcopado.

Receba as felicitações do Povo de Deus do Xingu, seus amigos e amigas na caminhada.

"Não sou um guerreiro que combateu com armas terrestres, mas com a espada do Espírito que é a palavra de Deus"...Enfim, pus mão à obra e tinha tanta boa vontade que consegui perfeitamente. Que felicidade poder dizer: "Estou seguro de fazer a vontade do Bom Deus".
Eu não lamento a vida, oh, não! E minha vida é um ''único ato de amor! O Bom Deus me dá coragem na proporção dos meus sofrimentos. Faz-nos tanto bem, quando sofremos, ter corações amigos, cujo eco responde a nossa dor. A caridade é o caminho excelente, que conduz seguramente a Deus. Sou de tal natureza que o temor me faz recuar; com o amor não somente avanço, mas vôo..."  Santa Teresinha.