PARÓQUIAS

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PARÓQUIAS E ÁREAS PASTORAIS

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O filme ‘A vida é bela’ do italiano Roberto Benigni guarda uma semelhança sinistra com Belo Monte, barragem privada financiada com dinheiro público em fase de construção desde junho de 2011, no rio Xingu, Amazônia brasileira: o efeito ilusório!

A película lançada em dezembro de 1997 obteve grande sucesso em grande parte pela sua capacidade criativa de esconder a verdade dos fatos. O contexto é o da Segunda Guerra Mundial. O personagem Guido, um judeu, e seu filho pequenino são levados para o campo de concentração nazista. Preocupado com o menino, Guido usa sua imaginação fértil para fazê-lo crer que todo aquele terror não passava de uma brincadeira. O menino se entusiasma e, mesmo questionado por outras crianças de sua idade, buscando convencê-lo de que estão todos condenados à morte, ele segue animado com a possibilidade de ser um dos vencedores ao final da suposta gincana.

Benigni zomba da crueldade! À noite, antes de dormir, dois personagens, Guido e Ferruccio Papini, fazem brincadeiras com o filósofo alemão, Arthur Shopenhauer, o escritor favorito de Adolf Hitler.

Esse efeito ilusório, que transforma um campo de concentração nazista em brincadeira de gente grande e pequena, ocorre atualmente em Belo Monte. A diferença é que Benigni o faz por amor ao filho e os detentores do poder em Belo Monte, e seus sequazes, o fazem pelo cinismo macabro de acumulação de capital a qualquer custo.

Um projeto de intervenção capitalista dentro de um plano neocolonial da Amazônia se apresenta com ares de filantropia. Nos discursos oficiais, construir barragem aqui vira condicionante para garantia de direitos elementares de populações empobrecidas e de energia para o desenvolvimento do país. Esse discurso transforma os atingidos terrivelmente impactados em ‘beneficiários’ do projeto e equipamentos estranhos, como as previstas barragens-plataforma, em elementos de harmonia e preservação da natureza.

Quando o questionamento vai fundo, meninos de recado do governo federal apelam e afirmam que o bem de todos exige o sacrifício de alguns. É o cúmulo do cinismo! E da mentira! O bisturi que corta o Xingu, e sangra o seu povo, tira um bem natural de uso comum e o torna um recurso privado.

Prometem-se três bilhões e meio de reais a título compensação ambiental e social. Se esse dinheiro existe, ele é investido a bel prazer da Norte Energia, empresa que congrega os gigantes donos de Belo Monte.

Prometem-se diversas obras com o Xingu Sustentável nos onze municípios de influência de Belo Monte. É verdade que algumas delas aqui e ali saem, mas em todas há muitas pendências. Há estudantes que morrem de calor em suas escolas, por exemplo, porque a reforma do prédio em nome da Norte Energia não considerou o redimensionamento energético para o ar condicionado.

O recurso do Xingu Sustentável, um total de 500 milhões que estão sendo aplicados em longos 20 anos, vem, na verdade, do bolso dos brasileiros, através dos custos exorbitantes das contas de luz, e, não, do cofre dos donos de Belo Monte. Eles levam a fama, mas o povo é que paga a conta.

Existem obras, é verdade, mas há muito mais placas! E com a aproximação do período eleitoral, há políticos de tudo enquanto é cor e tendência que buscam agarrar-se a essas placas.

À Norte Energia interessam as fotos, que garantem a formalidade, se é que precisa disso. Ela manda e desmanda no pedaço! Aos políticos das diversas esferas, o que lhes interessa é colar suas imagens nessas migalhas de obras para sua perpetuação no poder. Onde existe a negação histórica do direito, qualquer coisinha serve, e já rende votos, e a política pública como garantia constitucional sai atropelada.

Quase sempre, as obras não condizem com as reais necessidades do povo. Brasil Novo sofre com problemas de abastecimento de água, na sua quantidade e qualidade. Altamira padece com o caos social. Vitória do Xingu, com nove milhões mensais de ISS, deixa quase mil famílias acampadas há mais de um ano. Souzel tem problemas crônicos com o serviço de energia. Vilas ao longo da Transamazônica, algumas com mais de 500 famílias, não podem ter um freezer maior, pois a rede de energia não suporta.

Parabéns a Benigni pelo efeito ilusionista por amor ao seu filho. Parabéns, também, ao povo da Amazônia, que vem descobrindo a verdade escondida sob o manto da ilusão. Apesar da eficiência dos detentores de Belo Monte, com seus efeitos especiais, transformando mentiras lavadas em verdades (quase) inquestionáveis, a verdade começa a prevalecer. Por ora ainda se invertem os fatos, transformando as vítimas em culpados, mas isso não deve durar por muito tempo.

Raimundo, morador de Assurini, vai ao escritório da Norte Energia e reclama dos estouros de pedras, que ocorrem duas vezes ao dia, às seis e dezoito horas; eles estão provocando rachaduras em sua casa. A empresa apenas responde que as bombas estão dentro do padrão. Ou seja: a casa de Raimundo, morador ribeirinho há anos, é que está fora do lugar e do padrão.

Indígenas se organizam, resistem, lutam por seus direitos. Agora se dispersam! Muitos estão perdidos nas ruas de Altamira, vítimas da miséria e do preconceito. Mas Edson Lobão, Ministro de Minas e Energia, com sua cara lavada, afirma de pés juntos que nenhum índio é molestado em Belo Monte.

Fala-se de reassentamento urbano coletivo para as mais de trinta mil pessoas moradoras próximas ao Xingu em Altamira. Espalham-se panfletos colocando casas de alvenaria de três tipologias. O que se está construindo, porém, são casas de concreto em loteamento.

A partir de hoje, 15 de janeiro de 2014, se inicia o processo de transferência de um grupo de famílias a cada dia para esses loteamentos. É um dia histórico! E penso que o efeito ilusório, por forte que seja, vai romper-se antes que as trinta mil pessoas atingidas se transfiram para lá. Ou recebam míseras indenizações.

Há três cenários possíveis: muita bala de açúcar para adoçar a vida, alguma bala de chumbo para intimidar os ânimos exaltados ou uma rebeldia organizada pela garantia do direito enquanto é tempo.

Não basta estarmos certos; é preciso força popular para fazer valer a nossa verdade! Ajudar na organização do povo é a nossa principal tarefa!

Lá na obra, funcionário do médio escalão informa que houve festa em comemoração ao pequeno número de acidentes durante o ano de 2013: teriam sido apenas dois! Não sei quantos morreram em cada um desses acidentes. Nem sei que critério se usou para se chegar a esse número. Incrível! Mas faz parte do jogo da ilusão.

O que se sabe é que, infelizmente, morre gente todos os dias, dentro e fora dos canteiros, e a imensa maioria dessas mortes tem relação direta ou indireta com Belo Monte.

Além de esconder a verdade, a ilusão possibilita transformar tragédias em negócio rentável. A morte solta rende muitos cifrões! Aos assassinatos por encomenda, que continuam na região, somam-se, agora, as mortes provocadas pela violência da expansão do capital patrocinada pelo Estado brasileiro.

Operários de outras regiões vitimados em acidentes fatais são embrulhados em bolsas próprias e, depois, devidamente preparados, enviados à sua terra de origem. Isso gira um comércio considerável!

Localmente, há convênios com funerárias que, a preços salgados, oferecem serviços completos. As salas de velório são aconchegantes com ambiente climatizado. Ali os corpos bem tratados, de pessoas que perderam a vida antes do tempo, refrescam a cabeça dos parentes condoídos e evitam comoções indesejáveis.

Belo Monte, à semelhança do filme de Benigni, é também do gênero comédia trágica. É como o fato ocorrido recentemente no hospital do câncer, em Muriaé MG. Um homem, buscando consolar o esposo de uma mulher muito querida internada ali, em fase terminal, diz-lhe: ‘É uma honra para qualquer um de nós morrer num lugar assim, tão cheio de recurso e tão bonito!’.

O nome do filme ‘A vida é bela’, segundo o próprio Benigni, é uma citação de Léon Trotsky. Aguardando a morte no exílio, ele escreve que, apesar de tudo, a vida é bela.

Pode-se parafrasear Trotsky, com um pequeno adendo: apesar de tudo, a vida é bela, pois a verdade há de revelar-se e a soberania de nosso país há de impor-se pela força do poder popular.

Pe. Claret

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Antônio Claret*

Val viera do Assurini, atravessara a balsa e chegara a Altamira para expor sua situação e de seu povo, atingido por Belo Monte. Já fizera o mesmo trajeto algumas dezenas de vezes apenas neste ano. Assurini passa por um momento crucial, pois vê a barragem seguir atropelando tudo sem uma resposta minimamente razoável por parte da Norte Energia.

Às nove horas e quarenta minutos chegara ao INCRA com a intenção somente de remarcar reunião para a Agrovila Sol Nascente, no Centro de Formação Irmã Dorothy. No dia primeiro de setembro estivera ali, e agendara a reunião para cinco de outubro, mas o Executor do Órgão simplesmente se esquecera. Como essa gente é esquecida!

Val apresentara-se à recepcionista, que já o conhecia. Lembrava bem o seu rosto de camponês indignado, e a sua questão. Mesmo assim ele falara tudo de novo. Ela anotou ‘tudinho’, e disse que o Executor estava atendendo outra pessoa: ‘é só aguardar’, disse-lhe, indicando a cadeira.

Val sentara-se um pouco, exausto que estava. Saíra de casa de madrugada, andara 12 km a pé, pegara um Pau de arara, suportara os solavancos por mais 28 km. Não é fácil!

Pressentindo que aquilo iria demorar, ensaiara entrar e subir até a Casa de Governo, que funciona no andar de cima. Mas fora logo barrado pelo Guarda. A atendente o chamou, pegou-lhe o nome, depois o liberou para subir as escadas.

Não havia ninguém na Casa de Governo, embora fosse horário de trabalho, dez horas. A copeira, que, por acaso, estava ali, na sala de atendimento, disse-lhe, amavelmente: ‘eles ainda não chegaram!’. E justificou-se: ‘certamente encontraram alguma coisa para resolver pelo caminho’.

Val ficara imaginando que a Casa de Governo em Altamira – único município brasileiro que tem esse tipo de serviço, um órgão exótico e precário - é como um Corpo de Bombeiros, que serve para apagar fogo, mas sem extintor.

Descendo de novo as escadas, Val procurara ao menos um cafezinho, que lhe restaurasse as forças, mas não encontrara. Havia uma garrafa no galpão, com copos de plástico, mas vazia. Então tomara água, e sentara-se de novo na cadeira.

Dali ficara reparando ao redor. Uma mulher idosa, mas jovial, falava ao telefone. Como conversasse alto, ele ia ouvindo a fala dela. Contava para alguém, do outro lado, da Belo Sun, mineradora canadense em processo de instalação na Volta Grande do Xingu, região onde o rio terá 100 km secos por causa de Belo Monte. Parecia satisfeita. Dizia que os homens eram bonzinhos, davam carona, carregavam as compras dos ribeirinhos numa distância de 10 km, visitavam as casas, tomavam café. Val ouvira tudo aquilo como um filme antigo que lhe retornasse à cabeça.

Outra mulher, que chegara apressada, queria resolver uma questão do seu lote. Foi-lhe dito, porém, que precisava de um Requerimento de seu pai. Ela fez o que podia, disse que isso era impossível, que seu pai mora distante, no interior, mas a atendente simplesmente afirmou: ‘não podemos fazer nada!’. A Mulher se foi!

Um senhor alto e claro, com capacete no braço, entrou e foi direto à recepcionista, cochichou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Nesse exato momento, alguém do INCRA bateu-lhe nas costas, com ares de intimidade: ‘em que lhe posso ajudar?’. Depois, virando-se para a recepcionista, olhando-a no rosto, disse, num misto de exclamação e pergunta: ‘aqui em baixo, ele pode entrar de bermuda, não é mesmo!? A atendente apenas confirmou com a cabeça. Parecia que aquilo já era uma coisa costumeira. Ele entrou, e os dois ficaram um tempão conversando numa mesa, lá no canto do salão.

Val permanecera no INCRA de nove e quarenta até onze e quarenta, mas saíra satisfeito, pois, ao menos, conseguira, em duas horas, remarcar a reunião, que, agora, ficou agendada para o dia vinte e cinco de outubro. É torcer para o Executor não esquecer-se de novo!

Val resolvera subir outra vez à Casa de Governo e, agora, tivera sorte. A coordenadora estava. Ela o atendeu, entrecortando a conversa, resolvendo, por telefone, um fechamento da Transamazônica em Pacajá, motivado por um atentado contra uma lutadora local. Uma caminhoneta estranha lhe atingira a moto, e a jogara longe. Por sorte a mulher não perdera a vida, mas ficara muito machucada.

Na Casa de Governo, Val descobrira um dado que o deixara surpreso, e ainda mais indignado. O PA (Projeto de Assentamento) Assurini - um dos assentamentos da grande área do Assurini, com trinta mil pessoas - tem quatrocentas e cinquenta e nove famílias e, ‘tecnicamente’, caberiam apenas trezentas.

Val questionara! ‘O INCRA errou’, disse o funcionário, na maior calma. ‘Mas fazer o quê? Cento e cinquenta e nove famílias vão ter que sair!’.

Val saíra com a cabeça quente, e meio confusa. A Norte Energia quer expulsar os camponeses da terra para encher o lago de Belo Monte. Agora, também o INCRA quer arrancar, da mesma localidade, cento e quarenta e nove famílias.

A manhã terminou! Val fora à casa do seu cunhado para almoçar e voltar à tarde para continuar sua via crucis.

Sua próxima estação, às 14 horas, foi o IBAMA. O sol estava muito quente. Ele olhara para o Xingu, ali do lado, e tivera vontade de deixar tudo e cair naquelas águas. Um Guarda, da sombra, lhe perguntou o que desejava, e lhe indicou a porta de entrada. ‘Fique à vontade’, disse-lhe.

Ele entrara, sentara-se, depois notara uma menina lá no canto, num local cercado de vidro com um pequeno orifício, e fora procurá-la. A menina, que era a secretária, o atendeu maravilhosamente bem. Ouviu-o com atenção.

A principal informação que Val buscava ali era sobre o Caderno de Preços da Norte Energia. Sempre muito educada, a menina lhe explicou que a Superintendente do IBAMA está há três meses para Brasília. Estaria fazendo cursos e encontros. E disse que todas as questões referentes a Belo Monte se revolvem lá. ‘Aqui não temos nem o Caderno de Preços’. Abrindo um sorriso, lhe prometeu: ‘ela chega no dia nove de novembro, com certeza vai trazer muitas informações para vocês, inclusive vamos solicitar à Norte Energia o Caderno de Preços. Quem sabe eles nos arranjam um!?’.

Val saíra boquiaberto; rira daquela situação cômica e, ao mesmo tempo, dramática. Belo Monte vai a pleno vapor! Mas ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe de nada. Nem o IBAMA, em tese o órgão que dá as licenças.

Despedira-se, e saíra rumo à Prefeitura. Lá ele desejava averiguar resposta de ofício protocolado no dia três de setembro reivindicando informações sobre processo de concessão de operação da balsa do Assuniri (os camponeses pagam uma espécie de pedágio para ir à sede do próprio município; uma moto, por exemplo, são sete reais) e projeto de asfaltamento da Transassurini.

Fora antes ao setor de protocolo. A secretária procurou, procurou, até encontrar o número do ofício, e o assunto. E pediu-lhe que se dirigisse ao gabinete do Prefeito: ‘lá você terá a resposta!’, disse.

Ele chegara lá, meio tímido, com aquele pedaço de papel na mão, escrito à caneta, e mostrara à senhora que se achava atrás do balcão. Falara que desejava obter a resposta da Prefeitura sobre aquele documento.

A senhora, ranzinza, parecia não ouvir direito. Atendeu-o mal. Depois lhe disse apenas que era hora de almoço. Val olhara no relógio. Eram quatorze horas e trinta minutos. A dona continuou falando: ‘a secretária vai chegar às 16 horas’.

Val saíra dali coçando a cabeça, enquanto decidia o que fazer, e resolvera ir embora. Não dava tempo de esperar. Precisava tomar ônibus para Vitória do Xingu às dezesseis e trinta, onde iria visitar acampamento de 1000 famílias. Com Belo Monte, a questão da moradia está explodindo por todo canto.

No dia 18 à tarde, Val soubera da ocupação do escritório da Norte Energia, no bairro Jatobá. Eliosvaldo lhe contara tudo. Famílias organizadas no MAB chegaram, entraram, e dialogaram de cabeça erguida.

A pressão foi grande! Do lado da empresa, seguranças privados e policiais: Força Nacional, militares; do lado dos atingidos, o poder rebelde de um povo indignado. A prepotência da Norte Energia foi cedendo, ficando indicativo de três reuniões para ouvir a pauta dos trabalhadores.

A Via-sacra termina na ressurreição! Val é uma pessoa de fé! E sente que a Via-sacra à moda Belo Monte poderá terminar antes, com a força da insurreição popular. Pois tudo que se espreme demais, e não tem autoridade que ‘resolva’, sai entre os dedos. Ele se alegra com isso!

*Padre missionário na Prelazia do Xingu

e militante do MAB.


 

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Antônio Claret Fernandes*

Jean de La Fontaine conta, na sua Fábula O Lobo e o Cordeiro, que o animal, embora decidido a comer sua apetitosa presa, precisava arranjar uma desculpa para não parecer injusto.

Achando-se os dois a sós à beira de um riacho, numa queda d’água, o Lobo faminto, um pouco acima, começa acusando o Cordeiro sedento de que ele estaria sujando a ‘sua’ água. O Cordeiro defende-se, afirmando que isso seria impossível, já que ele estava abaixo. A fera, para a qual o argumento era só uma formalidade, nem raciocina e segue suas acusações: ‘você falou mal de mim há pouco mais de um ano’. Mas o Cordeiro defende-se de novo: ‘não pode ser, ainda não completei dez meses’.

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Ouvem-se muitas histórias de regiões inteiras do mundo atrasadas por falta de recurso financeiro. Cria-se uma série de programas sociais, supostamente para a classe rica ajudar a classe pobre. É antiga a questão mundial entre o Norte e o Sul. E sempre se apresenta o dinheiro como a solução definitiva de todos os problemas, ainda que, por trás dele, haja intenções inconfessas.

Mas é interessante! Aqui na Amazônia, há situações em que ocorre o contrário. Indígenas estão sendo estraçalhados por ‘excesso’ de dinheiro. As fontes podem secar ou não da noite para o dia a bel prazer da Norte Energia, colocada como a dona de Belo Monte, e do governo. Os nativos não têm o controle dos cifrões. E uma cidade inteira está em agonia, impactada pelo volume financeiro de Belo Monte advindo da mercantilização do Xingu.

Esse é um elemento curioso! Já não é mais suficiente dizer que o erro está no fato de nossa riqueza ir embora em forma de remessas ao capital imperialista, materializado em transnacionais privadas ou estatais: Eletrobrás, Eletronorte, Chesf, Neoenergia, Vale, Cemig, os gigantes donos de Belo Monte. Pois os vinténs que ficam, controlados por uma estrutura política totalmente viciada, não se traduzem em políticas públicos a benefício do povo e da classe trabalhadora.

Essa estrutura de organização capitalista de sociedade, cujo motor é a exploração, gera pessoas-monstros miseravelmente ricas; são tão pobres, mas tão pobres de valores humanitários, que fazem tudo pelo dinheiro, e se comportam como macaco em casa de louça (sem querer ofendê-lo), quebrando tudo pela força bruta do poder.

Vitória do Xingu, município-sede de Belo Monte, é um caso típico, e virou um canteiro de obras! A cidade, que tem cerca de sete mil habitantes e um ISS – Imposto Sobre Serviços – próximo de dez milhões/mês, está com as ruas, todas, reviradas. A poeira toma conta nesse verão. Mesmo que se jogue água, tudo seca rapidamente com o calor intenso, trazendo complicações respiratórias, em especial para idosos e crianças. E não é fácil encontrar uma ficha para consulta médica.

Antes o sofrimento em Vitória fora o inverno. O lamaçal se agravara com a remoção do calçamento das ruas – ainda bom -, e da terra arenosa para colocação de argila, própria para receber o asfalto, que não veio até hoje. A promessa é de asfaltamento de toda a cidade. Por enquanto tudo são buracos e terra nua.

Uma conhecida nossa, que se mudara de São Paulo para Vitória, em março de 2013, contara o ‘seu’ caso, ao mesmo tempo exótico e dramático. Ela passava pela rua, desviando-se aqui e ali de um buraco, de uma lama; ia ao bairro Santa Clara, onde sua casa estava em construção. De repente, desequilibrara-se, ficara atolada no meio da rua, até o joelho. Jamais pensara que ali fosse assim tão fundo.

O jeito fora pedir socorro. Um senhor, que passava numa trilha firme, na rua próxima, ouviu os seus gritos. Ele ia de bicicleta. Ficara em dúvida, seguira adiante, mas logo resolvera voltar, vendo-a naquele estado lastimável. Tirara, então, o sapato, que estava limpinho, e se metera na lama, arrastando a mulher do atoleiro.

A parte central da cidade tem verdadeiras crateras. Estão furando tudo, e colocando manilhas enormes para rede pluvial. A rede de abastecimento de água, também em construção, foi testada, os canos não suportaram a pressão e se romperam, e os serviços agora estão parados. Os canos de rede de esgoto são mais finos, e há dúvida se suportarão. Não se sabe, também, se o esgoto será tratado, conforme promessa, ou apenas lançado ‘in natura’ no rio. O sal dos dejetos humanos corrói as turbinas da barragem, e lhe diminui a vida útil, mas Vitória está abaixo do muro de Belo Monte e, isso, deixa os construtores da barragem numa posição tranqüila.

O barulho das máquinas pesadas é ensurdecedor. Bem à frente da casa onde Pedro, também conhecido, esteve hospedado, uma retro-escavadeira na rua fura um rasgão. Ele disse que foi obrigado a passar da sala para a cozinha, nos fundos. Não resolveu! Ao barulho, juntam-se as batidas fortes no chão seco, fazendo o computador tremer em cima da mesa. Pior, disse, foi o rolo logo após, compactando; o vidro da janela tremia todo, parecia que a casa viria a baixo.

A intensidade da ‘zuada’ constante dói os miolos. Quando a máquina dá ré, solta apitos finos e estridentes. A retro-escavadeira, com aquela munheca grande, e forte, fuça o chão, dando aqueles arrancos, com seus pés fincados em área firme e, enchendo a pá de terra, despeja tudo de uma só vez na caçamba do caminhão, cujo impacto provoca uma espécie de estrondo. A poeira sobe e espalha-se, alta e densa, encobrindo a visão.

Nas ruas vicinais, todas mexidas e remexidas, além da poeira no verão ou da lama no inverso, o compactador, um grande rolo que passa algumas dezenas de vezes no mesmo local, vem causando rachaduras nas casas. Marinalva conta que já se pode enfiar o dedo nos buracos da parede de sua morada.

Funcionários da empresa terceirizada da Norte Energia fotografaram tudo antes do início das intervenções, há mais de um ano, supostamente para comprobação de possíveis danos, e reparos ou indenização. Mas agora, quando alguém reclama, eles apenas dizem que foi a outra empresa. Algumas famílias, já impacientes, estão consertando por conta própria.

Uma jovem questionara a razão pela qual a intervenção está sendo feita na cidade toda ao mesmo tempo. ‘Não seria melhor terminar um bairro, e, depois, começar outro’? Mas a empresa, entre o desdém e a displicência, apenas disse: ‘fizemos assim em outra cidade, mexendo em tudo de uma só vez, e deu certo’. A jovem ficara em silêncio. Muitos se calam por completo, pois percebem o descaso! Por dentro, porém, ela se contorcia.

Parece, de fato, não haver um planejamento do ponto de vista técnico. Na barragem é tudo calculado, tim-tim por tim-tim, a tempo e a hora, e, ali, é como um experimento. Vitória é cobaia! Muitos serviços feitos, e desfeitos com as chuvas do inverno, já foram refeitos mais de uma vez. Muita terra foi carreada para o igarapé Facão, um crime ambiental. Existem áreas de lazer, umas muito próximas a outras, com equipamentos exóticos que, provavelmente, jamais serão usados por gente do povo.

A empresa parece não se importar com isso. É preciso entender a sua lógica. Por um lado ela faz a obra apressadamente, pois, assim, terá mais dinheiro em menos tempo. Ainda mais que ela tem frentes de serviço em diversas regiões do Brasil. Por outro lado, refazer serviço – o que seria um desperdício – e demorar com a obra – o que seria prolongar o transtorno – não é problema para a empresa; ao contrário, é até uma forma de mostrar um grande volume de trabalho e justificar a dinheirama gasta. Quanto às notas, frias ou quentes, é só uma questão de formalidade.

Diversos outros problemas vão aparecendo junto desse caos chamado progresso. Uma cidade antes pacata já não consegue ter paz. Duzentos reais que Clotilde levara na carteira para possíveis gastos em sua estadia em Vitória, e sua viagem de volta a Altamira, escafederam-se. Suas colegas desconfiam de um rapaz; elas deram razão de sobra para a desconfiança, mas não têm uma prova material. O fato é que as famílias já não têm mais o sossego de outrora, dormindo com janela e porta abertas. Quando saem, trancam tudo.

Cada espaço público já construído ou em construção na cidade tem três vigias, que revezam. Somam, ao todo, cerca de 200 vigias contratados numa cidade tão pequena. Chico pensa que o Prefeito se aproveita desse clima de insegurança para garantir emprego, cumprindo, assim, uma de suas promessas de campanha. E perpetuando-se no poder.

Lena, que alimenta um verdadeiro ódio contra a barragem, quase um fanatismo, sofre náuseas quando o dever lhe impõe o uso do tele-centro (público). Somente ali a internet tem sinal bom.

Sua raiva tem um viés familiar: o irmão dela perdeu a vista na barragem. Ele trabalhara lá. Num dia, estava no ônibus, e o pó de brita da estrada lhe penetrara a vista. Como ardia muito, procurara o médico da Norte Energia, que lhe receitara um colírio, e lhe dissera que poderia continuar trabalhando. Isso foi a desgraça dele! Passados quarenta dias, com o olho doendo, resolvera voltar ao médico, que o encaminhara para outro em Altamira e constatara uma úlcera dentro do olho esquerdo. Sua vista estava perdida.

Seu irmão fora afastado do serviço, e recebe uma espécie de pensão da empresa. A solução é o transplante do olho, mas fica muito caro, e a Norte Energia não assume.

O espaço do tele-centro, em Vitória, é todo controlado pela Norte Energia. À frente do prédio está escrito em letras grandes: ‘Balcão de informações - usina hidrelétrica Belo Monte’. A porta fica fechada. Abrindo-a, a pessoa dá de cara com um segurança. Do lado esquerdo, acha-se uma moça com ar de secretária atrás de um computador. O estômago de Lena revira por dentro cada vez que vai lá. Mas não tem outra opção.

Sempre mais a Norte Energia faz de suas obrigações legais um instrumento de dominação dos gestores públicos – através de uma e outra obra – e das famílias – através do emprego, ainda que precário e temporário.

As autoridades e a Norte Energia fazem gracinha. As festas se multiplicaram. Distribuíram-se Tabletes e Notebooks para estudantes e professores. Cada vereador ganhou uma Hilux, com fornecimento de mil litros de combustível/mês. A Prefeitura deu um desconto no ISS. Essas mordomias evidenciam que o Município nada em dinheiro, como se tivesse ganho na loteria. Essa dinheirama, porém, não tem significado melhora na qualidade de vida do povo.

A falta de recursos deixa muita gente à míngua no Brasil e no mundo. Altamira, situada no remanso do futuro lago de Belo Monte, reclama, com razão, do não cumprimento de condicionantes, em especial as estruturantes. Vitória do Xingu, ao contrário, tem um ‘excesso’ de recursos, que redunda em obras, mas que não se materializam em benefício real à população.

Aqui há uma verdade escancarada: a evolução de um povo não é uma questão de dinheiro e, muito menos, de obras feitas a deus dará, por formalidade.

A situação das populações ribeirinhas ainda é pior. Boa parte das casas são palafitas, às margens dos igarapés Gelo e Facão, somando quase três centenas de famílias. Corre boato de que serão todas desalojadas para construção de cais. Uma empresa terceirizada passou, cadastrou os moradores, mediu tudo, mas não conversou nem fez reunião com ninguém.

O boato da realocação divide as pessoas, e as deixa inseguras. Algumas ficam seduzidas com o sonho de uma nova casa, e com a cidade linda, rodeada pelo cais. Outras ficam vivamente chateadas, pois gostam da vida ali, ainda que precária.

O pior de tudo, porém, é a falta de informação. Uma arrogância, de quem pensa que o ‘técnico’ é que entende de obras, e que o povo não tem nada a contribuir. Enquanto tudo é boato, a vida fica parada, não se faz um puxado, não se constrói uma varanda, não se coloca uma pintura nova... O futuro é incerto!

Dona Graça mora à beira do Facão. Enquanto lava a roupa, num sábado de manhã, dentro do igarapé, com água até o joelho, vai contando a sua história. Foi pescadora, hoje já se aposentou por idade. Seu marido ainda exerce a profissão. Ela afirma com ar indignado:

‘A empresa diz que a barragem não interfere na vida do pescador. Ela não reconhece ninguém abaixo do muro. Mas é claro que interfere! O peixe diminuiu! A canoa vinha até aqui – apontando com o dedo. Agora é o que estas vendo. A terra da rua escavada desceu tudo para o rio. O igarapé virou um filete de água’.

Carla, que fora visitá-la, e ouvia a sua história, olhou para um lado, para outro, era mesmo tudo verdade. Perguntou-lhe se poderia tirar uma foto. Carla pensava que era importante registrar o que ela relatava. Aquele filete de água correndo, ela com a bacia cheia de roupa, as marcas da enxurrada da rua e a areia, cobrindo tudo.

‘Pode tirar foto sim! O que falei é tudo provado. O pessoal aqui tomava até banho no igarapé. Agora é só terra. Se a empresa quer construir cais aqui, tem que olhar o nosso lado. Aqui a gente está instalada, tem morada. Sair sem rumo não tem jeito’.

Dona Graça, na sua simplicidade e idade bem avançada, é uma mulher decidida.

Carla tirou a máquina da sacola, bateu a foto, e ainda a ouviu por uns instantes. Depois se despediu, apertando-lhe a mão. Ela abriu um sorriso, e disse:

- Volte depois!

- Vou voltar sim, em meados de outubro.

Enquanto ia passando pela areia, rumo à rua, já olhava o calendário. Pois a organização do povo somente caminha dentro de um processo. No mínimo, pensava Carla, precisamos buscar todas as informações e repassá-las às famílias. Informação também é poder.

Não é que Carla se admirasse do que as pessoas enxergam e sentem em Vitória. Apenas fica indignada, com a confirmação de que o desrespeito aos atingidos não é um caso isolado. Há um padrão de agressão aos direitos humanos, já reconhecido mas ainda não assumido pelo Estado brasileiro.

As mesmas promessas mirabolantes em Altamira também ocorrem ali, em Vitória do Xingu. Mas o certo é que tanto o descumprimento das condicionantes em Altamira quanto o ‘cumprimento’ em Vitória não têm incidido na melhora da qualidade de vida do povo. Pode ser mesmo que Vitória fique linda, como costumam dizer, mas com uma população sem garantia efetiva das políticas públicas elementares. Embelezam-se artificialmente as coisas, mas as pessoas ficam de lado.

Mas essa gente simples, em seus casebres e palafitas, não perde o humor. Com tantos buracos na cidade, estão apelidando o Prefeito de tatu de bigode. Não é fácil consumir 10 milhões/mês. E a questão é que esse dinheiro vai aumentar. Quando da sua operação, a partir do início de 2015 – se a barragem realmente seguir em frente -, a maior parte dos royalties de Belo Monte vai ficar na Prefeitura de Vitória. Não é sem razão que uma vaga no legislativo local, e no executivo, é disputada quase a tapa.

Belo Monte é um crime, cujas obras se iniciaram com uma licença parcial e com uma prepotência arrogante, numa ditadura econômica cacifada com dinheiro público pelo governo federal.

O mau exemplo se espalha como rastilho de pólvora. É de se prever o aumento significativo da corrupção em municípios, como Vitória, onde os gestores públicos terão que inventar formas para gastar todo o dinheiro. E não faltará criatividade! Ainda que as campanhas eleitorais acaloradas e as administrações quentes passem pelas notas frias turbinadas na energia do Xingu SA.

 

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Dom Erwin celebrando Corpus Cristi em Brasi Novo
texto: Antônio Claret Fernandes*
Povo marca presença na 30º festa do Corpo e Sangue de Cristo e da partilha em Brasil Novo
 
Aconteceu nesse dia 30 de maio a 30º festa do Corpo e Sangue de Cristo e da partilha na Paróquia Corpo e Sangue de Cristo, Prelazia do Xingu, em Brasil Novo. A sua preparação contou com realização de tríduo em todas as comunidades, com o terceiro encontro por setor. A festa contou com um grande número de pessoas, que se concentrou em frente à escola ‘Brasil Novo’, depois saiu em procissão pelas ruas enfeitadas pelos jovens até à quadra da Paróquia, que ficou lotada durante a celebração.
 
Dom Erwin, que participa todos os anos, pediu uma salva de palmas para as comunidades, que estavam em peso, ali, marcando presença, e disse que ‘a celebração da Eucaristia está ligada à vida’. Lembrou os desafios históricos dos primeiros moradores de Brasil Novo e chamou a atenção para os novos desafios impostos ao povo, entre os quais a barragem de Belo Monte. Lembrou a situação caótica de Altamira, afirmando que ‘um terço da cidade poderá ficar debaixo d’água’. Solidarizou-se ainda com os ribeirinhos e indígenas, também muito impactados por essa obra.
Os indígenas, liderados pelos povos Munduruku do Tapajós, ocuparam o canteiro de obras de Belo Monte pela 2ª vez nesse mês de maio. Eles ficaram no canteiro entre os dias 2 a 9 e, como o governo e a Norte Energia não cumpriram suas promessas, eles voltaram no dia 27 de maio por prazo indeterminado. Eles reivindicam as oitivas indígenas garantidas na Constituição brasileira e na Convenção 169 da OIT, e não querem que empresas e governo continuem invadindo suas terras.  
 
Após a celebração, aconteceu o tradicional almoço comunitário e, na parte da tarde, houve futebol, continuando o clima de confraternização e partilha das comunidades na festa do padroeiro.
 
Além do bispo, estavam presentes o padre Alírio, reitor do Seminário da Prelazia, padre José Geraldo, pároco de Brasil Novo, e padre Claret.

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Breve histórico:

Nome completo: Michael Rohde, Missionário do Sangue de Cristo -CPPS
Nascido na Alemanha parte ocidental, na região Norte, interior de uma vila pequena localizada no meio entre Frankfurt e Hannover.
Entrou no seminário 1985, foi ordenado diácono 1992 e trabalhou um ano e meio numa paróquia na Baviera perto da fronteira com Áustria, 50 km distante de Salzburgo onde eu estudou.

Em1993 foi sua ordenação sacerdotal. Por dois anos trabalhou como vigário numa paróquia perto do Lago de Constância na fronteira com Suíça. De 1995 a 2000 trabalhou como formador e professor no Colégio da congregação na região de sua origem (5 km distante da casa de seus pais). Era o local onde passou seu tempo escolar. Tinha que cuidar dos jovens que ficavam internados e voltavam para suas famílias só no final da semana. Em 2000 fecharam esta parte do internato do colégio e assim ficou livre para vir para o Brasil. No ano 2000 cursou de língua Portuguesa no CENFI em Brasília. 2001 e 2002 trabalhou como vigário no Perpétuo Socorro e na Catedral na cidade de Altamira. 2002 até 20012 reitor do seminário de sua Congregação em Ananindeua. Desde então, voltou a trabalhar como pároco do Perpétuo Socorro em Altamira.