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JESUS: O Rosto da Misericórdia do Pai.

 

Pela sua carta “O rosto da misericórdia” o Papa Francisco decretou o ano de 2.016 como o ano jubilar extraordinário da Misericórdia.

Este ano a Liturgia nos ofereceu de reler e meditar o Evangelho segundo São Lucas. São João Crisóstomo chamava São Lucas de: “escriba, isto é escritor, da Misericórdia de Deus”; e ainda dizia que a misericórdia “é a rainha das virtudes”.

Bons motivos para nós aproveitarmos esta festa de São Benedito para refletir e nos deixar invadir pala misericórdia divina. Pois o desejo de Jesus é que nós “sejamos misericordiosos como o nosso Pai é misericordioso”.

 

 

1. Experimentar a misericórdia de Deus:

Já no Antigo Testamentos numerosos são as pessoas que fizeram a experiência da misericórdia e da bondade de Javé. Fizeram essa experiência em grupo ou individualmente, e cantam essa misericórdia de Deus. Basta lembrar o Salmo 136 que canta o amor de Deus que cria e recria, libertando da escravidão: “Celebrai a Javé porque ele é bom, porque o seu amor é para sempre”, “eterna é a sua misericórdia”.

Da mesma forma o Salmo 103 declara: “Javé é compaixão e piedade, lento para a cólera e cheio de amor… O amor de Javé existe desde sempre e para sempre existirá por aqueles que o temem”. A misericórdia de Deus é aqui evocada como “compaixão” isto é a capacidade de padecer com o outro, de se identificar com o outro nos seus sofrimentos. A dor alheia se torna a minha dor. Esse sentimento vem do mais fundo da pessoa, vem das suas entranhas.

É porque ele conhece o sofrimento do seu povo no Egito que Javé decide libertá-lo das mãos do Faraó. “Conhecer” na língua hebraica não é somente uma questão de saber intelectual (podemos conhecer a dor dos outros através de uma reportagem ou de um documento, mas não passa de um conhecimento teórico). “Conhecer” para os Hebreus é “com-nascer” isto é ter um sentimento de partilha, de solidariedade, de profunda comunhão com a pessoa que está padecendo. Com ela padecemos (com-padecer= compaixão). Aqui podemos reler a mensagem da sarça ardente (Êxodo 3, 1-15).

Observamos como no texto é descrita a misericórdia de Deus: ele vê, ele ouve, ele conhece, ele desce, ele liberta....todos estes verbos nos indicam que a misericórdia não é palavra e sim ação. Os verbos marcam os diversos passos que levam Deus a ter misericórdia.

É a partir dessa experiência que Moisés descobre o Deus da misericórdia e da compaixão. Vamos ler no livro do Êxodo 34, 5-7. Javé é o Deus “de compaixão e de piedade, cheio de amor e de fidelidade”. Talvez que mais do que “Javé”, esse seja realmente o nome que revela melhor quem é o Deus de Israel. O amor é a gratuidade de Deus (=sua graça) que se manifesta de forma muito diversa. Lá também basta reler o Salmo 146 para conhecer a lista de todos os benefícios que Javé realizou em favor do seu Povo e das pessoas em particular, movido pela sua compaixão. Deus nos ama, sua misericórdia é para sempre reza e canta o Povo de Israel. Assim “amor e fidelidade” se torna o próprio nome de Deus. A misericórdia vem das entranhas, é a compaixão de quem sofre e padece com o outro. A certeza da misericórdia de Deus para com a humanidade gera a fidelidade, Ele é nossa segurança, por isso Deus é também chamado de “rochedo” sobre o qual podemo-nos apoiar sem medo de cair ou escorregar. Deus é firme e seguro e isso gera em nós a fé (fé, firmeza, fidelidade, todas palavras que tem uma única origem numa palavra hebraica: “Amém”)

Para refletir: quais são as experiências da misericórdia de Deus que tivemos em nossas vidas, vamos compartilhar estas experiências.

Podemos rezar juntos o Salmo 136 e depois das louvações por causa das misericórdias de Deus, acrescentamos as nossas de hoje.

Para refletir: Como hoje, posso descobrir a misericórdia de Deus nos acontecimentos? Mais facilmente dissemos que Deus não olha para nós, nos abandonou? Você concorda? Será que estas experiências do antigo Testamento são do tempo passado? Não vale mais para nós hoje? O que você acha?

2. OSÉIAS, o Profeta da misericórdia divina.

 

Profeto Oséias

O Profeta do amor incondicional

* Nome Oseias do hebraico "ysh", Hoshea"

siginifica "salvação", "Libertação ou livramento, ou ainda "O Senhor Salva";

O nome procede da mesma raiz de Josué e

é uma forma carinhosa de se chamar o nome

original, tipo Chico no lugar de Francisco.

 

Oseias 11, 1-9.

Foi do meio da escravidão no Egito que os Hebreus fizeram a experiência da misericórdia do seu Deus. É do meio de uma situação social conturbada que o Profeta Oseias vai fazer a experiência da misericórdia divina.

Israel (o Reino do Norte cuja capital é Samaria) começando pelos seus líderes (reis e príncipes, magistrados e sacerdotes, Oséias 5, 1-7) abandonou o seu Deus, aquele que o tirou do Egito, e se entregou aos ídolos cananeus, divindades da fertilidade e da prosperidade (Oséias 2, 4-1). É a infidelidade em todas as suas dimensões: traíram a Aliança com Javé e por isso é a desordem social (Oséias 4, 1-3) e a idolatria que sustenta este sistema onde quem domina é o mais forte, ou seja, o mais poderoso econômico e politicamente.

Pela voz do Profeta, Deus lembra ao seu povo todo o amor que sempre teve para com Israel (Oséias 11, 1-9).

Vamos notar, neste texto, o vocabulário usado pelo Profeta e que expressa o amor de Deus para com o seu povo: amei, chamei o meu filho, ensinei a caminhar, tomei nos meus braços, cuidava deles, atraí com laços de amor, levantei contra o meu rosto, me inclinei para ele para alimentar, como poderia te abandonar, meu coração se contorce dentro de mim, minhas entranhas comovem-se.

Na Bíblia, duas palavras expressam a misericórdia divina, a primeira é “Rahamim”: é o termo hebraico para designar as “entranhas”, é o plural de “Rehem” que significa “ventre materno”. É a ternura da mulher para com o fruto de seu ventre (1º Reis 3, 26). É um amor totalmente gratuito.

Hesed” é a segunda palavra que indica uma profunda atitude de bondade. Quando esta disposição se estabelece entre duas pessoas, estas passam a ser, não somente benévolas uma para com a outra, mas, ao mesmo tempo, reciprocamente fiéis por força de um compromisso interior. No Antigo Testamento como no Novo, encontramos a expressão “amor e fidelidade”, “graça e verdade” (Êxodo 34, 6; Provérbios 20, 28; Salmo 25, 10; João 1, 14 e 17). Esta expressão se torna o próprio nome de Deus. Para falar de Deus se diz simplesmente “amor e fidelidade” (Êxodo 34, 6; Oséias 2, 21-22; Salmo 117; João 1, 14).

Vamos reler uns destes textos e conversar a seu respeito.

Vamos rezar o menor de todos os Salmos: o Salmo 117. Quando se celebra o Deus de Amor e fidelidade, tudo já é dito. Qual seria o canto de hoje mais próximo deste Salmo?

Jesus nos revela que Deus é amor, por isso, vem morar em nós (João 14, 21 e 31). João que contemplou em Jesus esta revelação, repousando no peito de Jesus (João 13, 25 e 1, 18) escreve na sua carta: “Deus é Amor” (1ª João 4, 8 e 16). “Ágape”, a caridade, é a plenitude do amor (Romanos 5, 8). Este amor-caridade vem de Deus (1ª João 4, 7) e “é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Romanos 5, 5).

A misericórdia é a caridade que “toma mãos e pés”, ou seja, o amor que se manifesta e age. A misericórdia, como manifestação típica da caridade, não é apenas um sentimento, mas uma ação decidida e generosa (Tiago 1, 27), capaz de transformar e libertar. Ela é inseparável da justiça e se concretiza no partilhar. Não se trata de dar qualquer coisa ao outro, mas de admiti-lo em nossa vida. “Ninguém tem o direito de ser feliz sozinho” (Raoul Follereau no livro “O Evangelho da misericórdia, página 191).

Para refletir: Que ideia tenho do amor? Deus me ama! Mas creio de verdade que Deus me ama? Como sinto que ele cuida de mim?

Como Deus está querendo que retribua o amor que Ele tem por mim? Para responder leia 1ª de João 3, 16 e 4, 11.

Para orar: Salmo 85; Salmo 103.

 

3. “Nos visitou a misericórdia do nosso Deus”.

Lucas 1, 67-79.

 

São Lucas desde o início do seu livro nos coloca num clima de misericórdia e bondade.

Como outrora Deus se lembrou de Abraão e Sara, hoje se lembra de Zacarias e Isabel. Ele se lembrou de suas promessas feitas por seus Profetas. Pelo Profeta Natã, Deus prometeu constituir uma dinastia para Davi (2ª livro de Samuel 7, 11-12). Como visitou o seu povo no Egito, agora visita o seu povo que está debaixo da dominação romana. Ele vem para libertar. Deus se aproxima de nós “com simpatia” dizem os Padres da Igreja. Pelo amor, Deus chega a identificar-se com os que Ele ama. Assim se expressa Santo Agostinho: “Estarias morto para sempre, se Ele não tivesse nascido no tempo, jamais te libertarias da carne do pecado, se Ele não tivesse assumido uma carne semelhante à do pecado. Estarias condenado a uma eterna miséria se não tivesses recebido esta misericórdia”.

Com Jesus aparece entre nós, em plenitude, “a bondade e amor de Deus, nosso Salvador” (Tito 3, 4). Nele “temos reconhecido o amor de Deus por nós, e nele acreditamos” (1ª João 4, 16). Jesus é a visibilidade do amor de Deus, pelas atitudes, pelos gestos, pelas palavras ele nos revela o amor do Pai Ele é " o rosto da misericórdia do Pai" título da carta do Papa Francisco proclamado o Jubileu extraordinário da misericórdia).

Essa presença misericordiosa de Deus nasce entre os empobrecidos, os “os pobres de Javé”. São as pessoas que confiam na fidelidade divina e tem certeza de que Deus não abandona o seu povo (Zacarias, Isabel, Maria, José, Simeão, Ana…).

A Boa Nova é proclamada por mulheres e na casa ( e não por homens no Templo ou na Sinagoga....). Esta é outra obra da misericórdia de Deus. Ele vai revelar o seu rosto misericordioso através das mulheres e num ambiente que não é mais o Templo.

A encarnação de Jesus é a manifestação do amor de Deus: “Deus amou tanto o mundo que lhe enviou o seu filho unigênito” (João 3, 16). João na sua primeira carta enaltece o amor de Deus: foi ele que nos amou por primeiro

E Jesus será o rosto visível do amor de Deus para conosco: “Quem me viu, viu o Pai” (João 14,9). “Com efeito, a graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os homens... quando a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se manifestaram, Ele salvou-nos, não por causa dos atos justos que houvéssemos praticado, mas porque por sua misericórdia, fomos lavados pelo poder regenerador e renovador do Espírito Santo”(Tito 2, 11 e 3, -5).

Em Jesus aproximou-se de nós o nosso Deus, Jesus é a face humana “da graça e da verdade” (João 1, 14 e 17: hesed we émet, amor e fidelidade)

Jesus nos revela que Deus é amor, por isso, vem morar em nós (João 14, 21 e 31). João que contemplou em Jesus esta revelação, repousando no peito de Jesus (João 13, 25 e 1, 18) escreve na sua carta: “Deus é Amor” (1ª João 4, 8 e 16). “Ágape”, a caridade, é a plenitude do amor (Romanos 5, 8). Este amor-caridade vem de Deus (1ª João 4, 7) e “é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Romanos 5, 5).

Contemplar umas cenas dos dois primeiros capítulos do Evangelho segundo Lucas: a Anunciação; a Visitação; o nascimento de João Batista ou de Jesus. Em todas estas cenas é a misericórdia de Deus que se manifesta.

Para refletir: Como vejo hoje a manifestação da misericórdia divina?

Como estas manifestações passam a ser a minha oração

e meu louvor?

Para orar: os dois hinos de Zacarias e de Maria: Lucas 1, 46-55 e 1, 67-79.'

 

4. A prática misericordiosa de Jesus.


 


Lucas 7, 36-50.

Vamos acompanhar nesta contemplação da ação de Jesus o livro do Evangelho segundo Lucas.

Antes do ensinamento de Jesus sobre a misericórdia, Lucas insiste sobre a sua prática misericordiosa. De fato Lucas nos diz que ele “escreveu o que Jesus fez e ensinou” (Atos dos Apóstolos 1, 1). A prática vem na frente da palavra.

A prática, mesmo sem palavras, é Boa Nova também e antes de tudo. Lucas nos lembra a presença e a ação de Jesus junto aos mais abandonados: os doentes, as mulheres, os estrangeiros... Já, na Sinagoga de Nazaré, Jesus anuncia o seu projeto de ação: Ele vem ungido na força do Espírito, para aliviar as dores dos sofridos e esmagados, Ele vem para anunciar “o ano da graça de Deus” que é o ano jubilar, ano do perdão e da libertação (Lucas 4, 16-22).

Vamos contemplar a misericórdia de Jesus com as mulheres. São muitas as cenas narradas no Evangelho segundo Lucas. Vamos tentar lembrar alguns textos do Evangelho segundo São Lucas que narram a ação de Jesus junto à mulheres.

Num primeiro texto Jesus acolhe uma mulher considerada pecadora (Lucas 7, 36-50). Ela trata Jesus com todos os gestos da hospitalidade, coisa que o Fariseu não fez. Jesus sabe o que está no coração de Simão: “se este homem fosse um profeta, homem de Deus, não deixaria esta mulher lhe agarrar os pés”.

Para a mulher a primeira Boa Nova é justamente que Jesus a deixou agarrar os seus pés, beijar, perfumar, enxugar... Jesus não a rejeitou e sim a acolheu.

Agora é preciso evangelizar o Fariseu. Simão: “Vês esta mulher”.

Jesus nos pede de fixar o nosso olhar na adultera, na prostituta. É preciso parar e olhar, pois é o nosso próprio pecado que está diante de nós.

Marginalizamos as prostitutas, como os Judeus levavam as adulteras para o apedrejamento. Para podermos continuar de nos achar limpos, puros, pois a gente se acha inocente quando prendemos um culpado. Responsáveis de atos ilícitos, pegos na hora, não podem negar o fato e assim nos permitem de esquecer com toda boa fé as nossas próprias irresponsabilidades.

Em Cristo Jesus nos é dado o perdão, que é a fonte de um amor novo. No coração da mulher, e nosso, corrompido pelo pecado, uma fonte nova jorra, e tudo se torna novo. Nesta mulher, como em nós, ressoou o apelo do amor e ela, como nós, corresponde plenamente a este amor.

Outro texto fala de uma mulher encurvada (Lucas 13, 10-17), Jesus dá toda a sua atenção às mulheres encurvadas pelo peso da discriminação tanto social como religiosa, em tudo a mulher era marginalizada. Por isso, Jesus lembra que ela também é filha de Abraão, como ele o lembrará a respeito de Zaqueu (Lucas 19, 9). Jesus devolve a dignidade da mulher, pois ela não podia louvar a Deus na Sinagoga, mas agora glorifica o Senhor como já tinham feito as duas mulheres (Maria e Isabel) na casa de Zacarias (Lucas 1, 39-55).

No Evangelho segundo Lucas, Jesus manifesta ainda a sua compaixão para com uma mulher viúva: a viúva de Naim. Três vezes Lucas, no seu livro, usa o verbo “ter compaixão” (com a viúva de Naim, o Bom Samaritano e o pai do filho pródigo). Em 7, 11-17, é o Senhor que tem compaixão, portanto Deus mesmo, presente em Jesus. Não podemos deixar de pensar nesta compaixão do filho para com a mãe, que um dia será a própria mãe dele, viúva, que conduzirá o filho único para a sepultura. Jesus vai repetir o gesto de Elias e de Eliseu, devolvendo o filho à vida e à mãe., prenúncio de sua própria ressurreição (1º livro dos Reis 17, 23; 2º livro dos Reis 4, 36).

Não podemos esquecer de que no Evangelho de João, a misericórdia divina tomou o rosto do Bom Pastor. Quem quiser pode também meditar e contemplar a partir deste texto (João 10, 1-18). O Bom Pastor ouve a voz das ovelhas, como elas ouvem a sua. Ele as conduz para pastagens e riachos abundantes, Ele dá até a sua vida, defendendo-as do lobo.

Para refletir: De que maneira eu pratico a misericórdia?

Com quem eu sou mais misericordiosa? Porque?

Para orar: Salmo 16; Salmo 23; Salmo 26; Salmo 34.


 

5 . As parábolas da misericórdia (Lucas 15, 11-32.)

Jesus costumava ensinar por meio de parábolas. No livro de Lucas três delas estão reunidas num capítulo só: o capítulo 15. Elas receberam o nome de “parábolas da misericórdia”.

Lucas as introduz por um versículo que situa muito bem esta mensagem: “Os fariseus e os escribas murmuravam: esse homem recebe os pecadores e come com eles” (Lucas 15, 2).

Jesus chama os fariseus e os escribas à misericórdia como o Pai do filho pródigo foi compassivo e misericordioso.

Três pessoas ocupam um lugar central nesta parábola, mas quem está no centro da parábola é o Pai, por isso seria melhor falar em parábola do Pai compassivo e misericordioso. O filho mais novo representa todos os excluídos da sociedade, a qual se acha “justa, limpa, sadia, honesta”. O filho mais velho representa os pretensos “justos e impecáveis”. Ele é a figura de todas as pessoas que tem prazer em humilhar, em espalhar defeitos e falhas dos outros.

O Pai respeita a liberdade do filho. Ele não o priva de liberdade para lhe dar segurança. Não a tutela! O filho vai fazer sua experiência de vida, e então “vai cair em si”. Discursos e práticas tutelares impedem à pessoa de crescer em humanidade, dificulta a pessoa “cair em si”. Diante do filho reclamando sua parte da herança e partindo, o Pai não fala. Deus criou a pessoa livre ao ponto de ter condição de dizer “Não” ao seu Criado!

O Pai vê de longe. E nós que, às vezes, não queremos ver nem de perto nem de longe! Deus vê de longe e em profundidade (Salmo 138, 1-2. 16: Tu me sondas Senhor…).O Pai vê com o corpo todo e não somente como os olhos.

E o Pai se comove e a alegria toma conta de todo o seu corpo. Não só a dor comove, mas também a alegria do reencontro.

Então ele corre ao encontro do filho. A misericórdia supera todas as expectativas do filho. Ele é acolhido como filho e não como empregado.

O Pai dá ao filho o sinal do perdão: ele o beija (2º livro de Samuel 14, 33).

A festa pode começar! Aí está toda a diferença entre Jesus (imagem do Pai) e os fariseus e escribas: Jesus se relaciona na misericórdia e na compaixão, enquanto os fariseus tratam segundo o rigorismo da Lei (puro impuro) quem transgrediu a Lei deve ser punido. A misericórdia devolveu ao filho a sua verdadeira identidade. A compaixão é o caminho que leva ao perdão, à misericórdia, ao amor gratuito.

O Pai usa da mesma atitude para com o filho mais velho: ele lhe quer bem e lhe lembra que ele está todos os dias junto dele. Mas parece que mesmo assim o filho não compreendeu o que é a misericórdia.

Vivemos tanto junto de Deus e com Deus (oração, Eucaristia, palestras, leituras bíblicas), mas não descobrimos a imensidão da misericórdia divina. Porque? Por que o nosso olhar e o nosso julgamento partem de nós e do que achamos certo, em vez de partir, como Deus nosso Pai, dos excluídos, das vítimas. Deus não exclui ninguém do seu amor (se não seria se negar a si mesmo), mas Ele se situa de maneira diferente, ele se coloca no lugar do outro com ele sente a dor e o sofrimento tanto físico como psicológico ou espiritual.

Como cristão chamado à misericórdia, me sinto mais perto da atitude do pai ou do filho mais velho?

Sou capaz de perdoar até esquecendo as ofensas que recebi? (“Eu perdoo, mas não esqueço!”).

O que penso e digo das pessoas marginalizadas de hoje, as desguiadas?

Salmos para a oração: 24; 25; 32.

 

6 .“Sejam misericordiosos como o seu Pai é misericordioso”

 


 

Aquele que usou misericórdia” Lucas 10, 37).

 

Este apelo de Jesus para os seus discípulos e discípulas é um apelo a uma atitude interior: ter um coração misericordioso, sem isto não haverá prática misericordiosa. É um apelo à conversão.

Para ilustrar este apelo à misericórdia, Lucas nos relata a parábola contado por Jesus: o bom Samaritano. Vamos reler o texto: Lucas 10, 29-37).

O Samaritano e uma pessoa que enxerga e o seu olhar é de compaixão para com aquele que sofre. Ver o sofrimento do outro, enxergar a realidade. Quem não vê é como quem não sabe. É um analfabeto da realidade!

Mas o olhar leva ao coração, assim é na antropologia bíblica. A lâmpada do corpo é o teu olho (Lucas 11,34) “Só se vê bem com o coração” (Pequeno Príncipe). Ele olha e se comove, isto é, sente nele a dor do outro, compadece, compartilha o sofrimento do outro. Ele não fica alheio, mas assume com ele a dor pela qual outro passa.

O Samaritano viu e comoveu-se. Duas atitudes que geram a misericórdia e provocam a atitude seguinte que é se aproximar, se fazer próximo daquele que sofre e necessita de ajuda. O Samaritano deixa o seu caminho e vai ao encontro do homem semimorto na beira da estrada. Ele descia de Jerusalém para Jericó, ele desce ao encontro do necessitado. Não é o outro quem é o seu próximo, mas é ele que se torna próximo do outro. Basta reler a pergunta final de Jesus: “Qual foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” (Lucas 10, 36).

Após este movimento de ir ao encontro, desencadeia-se toda uma série de ações em favor do ferido. O interessante é que todas estas ações são indicadas por verbos. Ora na gramática o verbo serve para descrever a ação. Portanto a misericórdia é ação, não é palavra. Agir é o próprio da misericórdia, senão não deixa de ser um belo sentimento, que rapidamente vira sentimentalismo. Mas não muda nada da situação.

A misericórdia vai além da ação concreta no momento necessário, ela se prolonga até o tempo necessário: o Samaritano se preocupa do que pode acontecer na sua ausência e avisa que vai voltar. Podemos até dizer que ele acompanha o caso, ele prossegue a ação começada.

Escutamos a conclusão de Jesus: “Vá tu e faça o mesmo!”

Como prático a misericórdia em família, na vizinhança, no serviço ou trabalho, na escola, na comunidade que frequento?

 

O que acho mais difícil para praticar a misericórdia?

Acontece eu passar longe dos que necessitam da minha ajuda?

 

7. Mãe de todas as Misericórdias

Maria proclama também as misericórdias de Deus e se faz misericórdia.

Lucas 1, 46 a 55.

Em primeiro lugar é uma ação de graças pela misericórdia de Deus que se manifesta de novo em favor do seu povo. É a primeira atitude diante da misericórdia de Deus: agradecer. Assim fez também a mãe de Samuel (1ª livro de Samuel 2, 1-10).

Reconhecer esta misericórdia que se manifesta sempre em favor dos mais abandonados. Deus é fiel à sua prática. É fiel à sua identidade de um Deus dos empobrecidos, não porque é contra os outros, mas porque chama a todos para a compaixão e misericórdia.

Maria reconhece esta presença ativa de Deus na História.

Ela descreve esta ação na maneira que sempre aprendeu nas Escrituras: Ele está do lado dos empobrecidos, por isso “derruba os poderosos dos seus tronos, eleva os humildes, manda embora os ricos de mãos vazias e sacia de bens os famintos”.

Maria é fiel a Deus, mas também ao seu povo. Ela eleva a sua voz para engrandecer o Senhor que sempre está do lado dos pobres e para apresentar o programa do Reino de Deus.

Maria, mulher forte e corajosa, anuncia a realização da misericórdia divina, com a instauração de um mundo novo de relações igualitárias, de fraternidade e de justiça: “O Senhor agiu com a força do seu braço... se lembrou de sua misericórdia”.

Maria aprende do Espírito Santo que Deus gosta de exaltar os pequenos e rebaixar os poderosos. Os que nada eram, são valorizados, os que eram infortunados conhecem enfim a felicidade., os que estavam mortos, revivem”(Martin Lutero).

Em Maria experimentamos os traços femininos do amor de Deus. Ele nos oferece também um modelo acabado de discípula do Senhor. Maria de Nazaré, “longe de ser uma mãe mulher passivamente submissa ou de uma religiosidade alienante, foi, sim, uma mulher que não duvidou em afirmar que Deus é vingador (goél= redentor) dos humildes e dos oprimidos, e derruba dos seus tronos os poderosos do mundo. Foi a primeira entre os humildes e os pobres do Senhor” (Lúmen Gentium, no. 55).

Maria é uma mulher forte que conheceu de perto a pobreza e o sofrimento, a fuga e o exílio (Mateus 2, 13-23). Ela não foi uma mãe unicamente voltada para o eu filho, mas junto com ele ela assumiu uma ação que favoreceu a fé da comunidade apostólica em Cristo (João 2, 1-12). Sua função materna se dilatou até atingir dimensões universais: “Mulher, eis o teu filho!” (João 19, 25-27).

Salve Rainha, Mãe de misericórdia”.


 

Refletir e carregar na nossa oração as mulheres sofredoras de hoje, aquelas que eu encontro todos os dias, mães de família de duas jornadas de trabalho, mulheres explorados pelo trabalho pouco remunerado (empregadas domésticas, lavadeiras, faxineiras terceirizadas).

 

Para orar: Salmo 44; Isaías 61, 10-12.

Magnificat: Lucas 1, 46-55.