Quem estuda missiologia, se depara com um dos poemas mais belos de D. Helder Câmara que diz: “Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha em nosso eu”.

E olhe que quando esse poema foi escrito, esse jovem nem era conhecido e reconhecido no mundo, apenas no seu mundinho de Lordi. Apenas dizendo sim ao Pai, doara a sua vida a um povo. Partiu de seu pequeno mundo, caminhou, e navegou muito, quebrou tudo que em sua juventude pudesse fomentar o egoísmo de se fechar no seu próprio eu, e doou-se a um povo que nem conhecia, de outro continente, tudo por causa do primeiro amor: único e permanente.

Foi muito mais além, deixou o seu EU, encontrou o TU nos irmãos e formou o NÓS – comunidade.

Deixou de dar volta sobre suas individualidades, pretensões, ambições, sucesso… não centralizou em si, foi além, abriu-se para o povo. Partiu para outras terras além-mar: Brasil, Amazônia, Pará, Xingu, Altamira, Gurupá…

Foi ao povo, e dia após dia, foi construindo um relacionamento, um elo de amizade e irmandade que rompe qualquer problema pessoal, porque a comunidade fala mais alto.

Os pequenos problemas: intriga, discórdia, desunião, desentendimento tornam-se besteira perto da defesa da vida, do amor maior à causa do Reino e do amor incondicional pela obra-prima de Deus, a Humanidade.

Nessa caminhada de 50 anos de Sacerdócio não correu acelerado, não devorou quilômetros, foi passo a passo no serviço, no diálogo, no anúncio e no próprio testemunho de fé; abriu-se para os outros e se tornou irmãos dos outros, sem excluir ninguém.

Descobriu e reencontrou irmãos e irmãs! Dizem que amigos a gente não faz, a gente os reconhece na jornada de nossas vidas. Por isso foi semeando amizades no decorrer da caminhada missionária.

Teve a oportunidade de viver quarenta e sete anos no Xingu. Na realidade inculturou-se a nós. Não conseguimos ver Gurupá sem o rosto de Pe. Giulio. Somos resultados de vossa presença, ensinamento, orientações, experiência e convivência fraterna conosco.

Juntos temos dádivas e histórias a contar; marcas de cicatrizes de tempos difíceis; e violência bruta cometida contra o povo de Deus; momentos conflitivos convividos e solucionados. Mas também muita fé e caminhada missionária registrada a cada dia, semanas, meses e anos que convivemos juntos.

Esse grande missionário somado a nós formamos uma grande família povo de Deus. E nos ensina que se é para amar o Senhor e amar a cada irmão e irmã, cada um de nós precisamos atravessar os mares existenciais e diferenciais que nos separam do outro e voar nos altos céus em busca do Sol Amado e

novamente mirar em nosso irmão e irmã e encontrar o reflexo desse Sol, neles e juntos de mãos dadas acreditar que vai ser bonito cantar a canção e ver no olhar da gente a certeza do irmão e da irmã, reinado do povo fazendo acontecer uma terra sem males.  E então, partir até os confins do mundo a servir, anunciar, dialogar e testemunhar sempre no amor...

E ao viver e ensinar isso a nós, podemos afirmar como Papa Francisco: “Foi belo, por que o senhor pode, ao fim do dia, dizer: hoje realizei um gesto de amor pelos outros!”

E no vosso caso, nesses 50 anos realizou 17.155 gestos de amor pelos outros...

Para essa experiência não tem palavras a dizer a não ser nossa eterna gratidão e nosso:

Muito obrigada, obrigado!

Que o Senhor lhe abençoe e lhe guarde

O Senhor lhe mostre a sua face

e se compadeça de lhe.

O Senhor volva seu rosto para lhe e te dê a paz.

O Senhor lhe abençoe!”