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Padre Antonio Claret Fernandes

O retiro anual da Prelazia do Xingu, realizado entre os dias 22 a 26 de julho de 2014 - coroado com a ordenação sacerdotal dos diáconos Romildo e Hortêncio, em Brasil Novo - tem vários marcos importantes, que merecem reflexão. Um deles, porém, é de todo especial.

O local do retiro, Bethânia, com seu simbolismo associado à vida de Jesus de Nazaré, é muito aconchegante; une conforto e simplicidade, num ambiente rústico e rodeado do verde da floresta, do pouco que restou. Nas madrugadas se ouve o ‘canto’ do Guariba e, durante o dia, veem-se pássaros, borboletas e tantos outros viventes que, na sua beleza harmoniosa, convidam à oração.

O retiro conjunto - leigas e leigos, religiosas e religiosos, padres e bispos - é coisa grandiosa! Parece simples, mas é algo raro no Brasil e no Mundo. O comum é o retiro dos ministros ordenados apartados do povo.

Essa convivência é de uma riqueza imensa! Todas e todos, com carismas e ‘funções’ diferentes, pertencentes à mesma Igreja e à mesma Prelazia, estão na mesma barca para o que der e vier, correndo os mesmos riscos, enfrentando os mesmos desafios, celebrando a mesma vitória e rezando juntos.

A alimentação é simples, apetitosa e variada, preparada com dedicação e competência por duas senhoras que, discretas, na cozinha, prestam esse serviço vital aos que reservam um tempo para a meditação.

O alimento da Pessoa, cuja energia busca traduzir-se em serviço, é sagrado. O alimento, quando é fruto partilhado das comunidades vivas, tem o dedo de Deus. É esse alimento, e não apenas algo para encher o estômago, que se põe à mesa, ali, no refeitório.

A organicidade da Programação, quando os participantes se distribuem em diversas equipes de serviços (plenária, refeitório, oração, louça, café e panelas) tem um sentido profundo. Essa prática não traz a lógica da economia, mas da corresponsabilidade e partilha. Trabalhar, participar de tudo que é necessário para o bem estar do ambiente comum, é uma atitude mística. Quão belo é ver alguém, às vezes até meio sem jeito, mas com uma expressão de muito amor, brigando com a panela suja, que cozinhou o alimento servido a todos!

A figura simples de d. Moacir, apoiado pela bengala e pelo carinho de d. Erwin, de Doris e Denise, sempre por perto é algo divino. Por trás da fragilidade de d. Moacir se nota uma energia vigorosa!

As lembranças de d. Luciano, com sua provocação: ‘é ruim ser pobre!’. Ele, que tanto os amou; ele, que trazia na parede de sua residência, em Mariana, as marcas das mãos de centenas de empobrecidos (que o aguardavam, pois sabiam que seriam recebidos!), marcas essas que formavam um arranjo artístico mais valoroso do que o ouro exuberante dos templos barrocos; ele, da altura do seu testemunho, pode mesmo afirmar que ‘ser pobre é ruim’, e desmascarar todo tipo de demagogo, o qual exalta o pobre nos seus discursos, mas não toca nas causas da pobreza, não vive com o empobrecido, não experimenta o seu sofrimento e não sente a necessidade premente de sua liberdade.

Outra coisa importante que aprendi com Moacir foi o sentido da expressão ‘fome e sede de justiça’. O caso contado, sua andança pela estrada erma, a esperança frustrada de ao menos uma banana pelo caminho, a fumaça ao longe, a esperança renovada, os guaribas dependurados feito bebês, o homem viúvo e com gripe preparando a própria comida, a lembrança dos cuidados da mãe, a sua fome que torna aquele almoço a melhor refeição do mundo.

Que Deus nos ajude a ter sempre essa mesma fome e sede de Justiça! Isso pode mudar o rumo de nossas vidas.

O marco mais forte desse retiro, porém, a nosso ver, foram as músicas nas celebrações. As suas melodias, letras, o entusiasmo de quem canta uma realidade vivida, tudo isso revela a memória de uma Igreja unitária e libertadora.

Podia-se respirar, ali, a Igreja querida por Jesus, animada por leigas e leigos, religiosas e religiosos, padres, acompanhada por d. Erwin; igreja vivida, historicamente, no chão da Amazônia, na poeira e no barro da Transamazônica e dos travessões, no leito do Xingu.

Dize-me o que cantas e eu te direi quem és! Uma coisa é cantar ‘como zaqueu’, ‘já deu tudo certo’, ‘noite traiçoeira’, ‘tem anjos voando’. Outra coisa é cantar ‘eu sou como chuva em terra seca’, ‘comungar é tornar-se um perigo’, ‘derruba os poderosos dos seus tronos erguidos com o sangue e o suor do seu povo oprimido’.

O primeiro bloco de música, tão comum nas igrejas hoje, é intimista, não diz nada da vida, do cotidiano, e cada pessoa resolve os seus problemas com o seu deus. O segundo revela o Evangelho refletido e testemunhado, supõe a existência da comunidade, canta a caminhada desafiante e libertadora do povo, sinal do reino de Deus já presente.

O primeiro não parece coisa de Deus. O Segundo é a ação de Deus na história.