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Padre Antonio Claret Fernandes

O retiro anual da Prelazia do Xingu, realizado entre os dias 22 a 26 de julho de 2014 - coroado com a ordenação sacerdotal dos diáconos Romildo e Hortêncio, em Brasil Novo - tem vários marcos importantes, que merecem reflexão. Um deles, porém, é de todo especial.

O local do retiro, Bethânia, com seu simbolismo associado à vida de Jesus de Nazaré, é muito aconchegante; une conforto e simplicidade, num ambiente rústico e rodeado do verde da floresta, do pouco que restou. Nas madrugadas se ouve o ‘canto’ do Guariba e, durante o dia, veem-se pássaros, borboletas e tantos outros viventes que, na sua beleza harmoniosa, convidam à oração.

O retiro conjunto - leigas e leigos, religiosas e religiosos, padres e bispos - é coisa grandiosa! Parece simples, mas é algo raro no Brasil e no Mundo. O comum é o retiro dos ministros ordenados apartados do povo.

Essa convivência é de uma riqueza imensa! Todas e todos, com carismas e ‘funções’ diferentes, pertencentes à mesma Igreja e à mesma Prelazia, estão na mesma barca para o que der e vier, correndo os mesmos riscos, enfrentando os mesmos desafios, celebrando a mesma vitória e rezando juntos.

A alimentação é simples, apetitosa e variada, preparada com dedicação e competência por duas senhoras que, discretas, na cozinha, prestam esse serviço vital aos que reservam um tempo para a meditação.

O alimento da Pessoa, cuja energia busca traduzir-se em serviço, é sagrado. O alimento, quando é fruto partilhado das comunidades vivas, tem o dedo de Deus. É esse alimento, e não apenas algo para encher o estômago, que se põe à mesa, ali, no refeitório.

A organicidade da Programação, quando os participantes se distribuem em diversas equipes de serviços (plenária, refeitório, oração, louça, café e panelas) tem um sentido profundo. Essa prática não traz a lógica da economia, mas da corresponsabilidade e partilha. Trabalhar, participar de tudo que é necessário para o bem estar do ambiente comum, é uma atitude mística. Quão belo é ver alguém, às vezes até meio sem jeito, mas com uma expressão de muito amor, brigando com a panela suja, que cozinhou o alimento servido a todos!

A figura simples de d. Moacir, apoiado pela bengala e pelo carinho de d. Erwin, de Doris e Denise, sempre por perto é algo divino. Por trás da fragilidade de d. Moacir se nota uma energia vigorosa!

As lembranças de d. Luciano, com sua provocação: ‘é ruim ser pobre!’. Ele, que tanto os amou; ele, que trazia na parede de sua residência, em Mariana, as marcas das mãos de centenas de empobrecidos (que o aguardavam, pois sabiam que seriam recebidos!), marcas essas que formavam um arranjo artístico mais valoroso do que o ouro exuberante dos templos barrocos; ele, da altura do seu testemunho, pode mesmo afirmar que ‘ser pobre é ruim’, e desmascarar todo tipo de demagogo, o qual exalta o pobre nos seus discursos, mas não toca nas causas da pobreza, não vive com o empobrecido, não experimenta o seu sofrimento e não sente a necessidade premente de sua liberdade.

Outra coisa importante que aprendi com Moacir foi o sentido da expressão ‘fome e sede de justiça’. O caso contado, sua andança pela estrada erma, a esperança frustrada de ao menos uma banana pelo caminho, a fumaça ao longe, a esperança renovada, os guaribas dependurados feito bebês, o homem viúvo e com gripe preparando a própria comida, a lembrança dos cuidados da mãe, a sua fome que torna aquele almoço a melhor refeição do mundo.

Que Deus nos ajude a ter sempre essa mesma fome e sede de Justiça! Isso pode mudar o rumo de nossas vidas.

O marco mais forte desse retiro, porém, a nosso ver, foram as músicas nas celebrações. As suas melodias, letras, o entusiasmo de quem canta uma realidade vivida, tudo isso revela a memória de uma Igreja unitária e libertadora.

Podia-se respirar, ali, a Igreja querida por Jesus, animada por leigas e leigos, religiosas e religiosos, padres, acompanhada por d. Erwin; igreja vivida, historicamente, no chão da Amazônia, na poeira e no barro da Transamazônica e dos travessões, no leito do Xingu.

Dize-me o que cantas e eu te direi quem és! Uma coisa é cantar ‘como zaqueu’, ‘já deu tudo certo’, ‘noite traiçoeira’, ‘tem anjos voando’. Outra coisa é cantar ‘eu sou como chuva em terra seca’, ‘comungar é tornar-se um perigo’, ‘derruba os poderosos dos seus tronos erguidos com o sangue e o suor do seu povo oprimido’.

O primeiro bloco de música, tão comum nas igrejas hoje, é intimista, não diz nada da vida, do cotidiano, e cada pessoa resolve os seus problemas com o seu deus. O segundo revela o Evangelho refletido e testemunhado, supõe a existência da comunidade, canta a caminhada desafiante e libertadora do povo, sinal do reino de Deus já presente.

O primeiro não parece coisa de Deus. O Segundo é a ação de Deus na história.

 

Na manhã do dia 29 de julho, às 9:12, uma pessoa anônima enviou mensagem eletrônica injuriosa para Antônio Claret Fernandes, padre na Prelazia do Xingu, membro da Comissão Justiça e Paz Brasil Novo e do Movimento dos Atingidos por Barragens, usando palavras afrontosas e de baixo calão.

 

Esse ataque tem como motivação imediata a insatisfação com o Ato Público realizado por um conjunto de entidades na manhã do dia 28 de julho, na BR 230 (Transamazônica), próximo à cidade de Brasil Novo, em função dos frequentes acidentes, reivindicando do DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – quatro quebra-molas para o trecho da Rodovia no  perímetro urbano de Brasil Novo e sinalização definitiva desde Altamira até Medicilândia.

 

Para além dessa motivação imediata, acreditamos que esse ataque está associado a um contexto mais amplo de luta por direitos e por políticas públicas na Região de implantação da barragem de Belo Monte.

 

As entidades que participaram do Ato Público pela Paz e Segurança no trânsito (28/07) interpretam esse ataque como ameaça e tentativa de intimidação, buscando calar a voz do povo organizado e de seus líderes para desmotivar sua luta justa. Por isso o repudiam com toda a veemência.

 

Essa postura anônima covarde e ameaçadora deve ser esclarecida e combatida, pois reforça a negação de direitos na área de implantação do projeto Belo Monte, até o momento, carente de políticas públicas elementares.

 

Altamira / Brasil Novo, 30 de julho de 2014

 

 

Erwin Kräutler

Bispo do Xingu

 

Veja a nota original em pdf

afirma bispo do Xingu durante festa em Brasil Novo
Muitas centenas de pessoas participaram da festa de Corpo de Deus na Paróquia em Brasil Novo PA, Prelazia do Xingu, dedicada ao Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. A concentração ocorreu às 9 horas, na Transamazônica, quando foi lembrado o processo violento de construção dessa rodovia, desde a matança dos indígenas até as pessoas que morrem hoje, vítimas de acidentes. Foi lembrado também o aumento da violência contra crianças e adolescentes em Brasil Novo como reflexo da implantação da barragem de Belo Monte.
 
A celebração da Eucaristia, que veio acontecendo durante a procissão, reuniu todo o povo na Quadra Poliesportiva da Paróquia, que ficou lotada.
Durante a homilia, d. Erwin, bispo do Xingu, afirmou que os agradecimentos a Deus não podem esquecer a paixão de Jesus Cristo e de tantos que vivem hoje ainda crucificados: indígenas, colonos e tantos outros que são hoje expulsos de suas terras.
 
Lembrando a Copa, argumentou que se gastam milhões com estádios, alguns dos quais serão elefantes brancos, enquanto políticas públicas elementares (saúde, educação, transporte) são muito precárias. E disse que podemos torcer para o Brasil ser hexacampeão, mas precisamos mesmo é trabalhar para o ‘Brasil ser campeão em Direito Humano.
Além de d. Erwin, estavam presentes os padres Alírio – Área Pastoral do Assurini, Gilmar – Medicilândia, Claret e Geraldo – Brasil Novo e o Diácono Romildo – Anapu.
 
No dia 26 de julho, novamente as comunidades da Paróquia Corpo e Sangue de Cristo vão se reunir para a ordenação sacerdotal dos diáconos Romildo – filho de Brasil Novo e Hortêncio, natural de Medicilância.
Por Antonio Claret Fernandes.

 

No dia 20 de fevereiro de 2017 em Brasil Novo realizou-se a Missã em ação de graça pela Reinauguração da casa e início do ano letivo de 2017 no Seminário São joão Maria Vianney etapa propedêutico.

A missa foi presidida por Dom João Muniz Alves e co-celebrada por Pe. Vandeir Lima Alves (Vigário Geral), Pe. José Geraldo Magela(pároco de Brasil Novo), Pe. Hortêncio Medeiros Matias(reitor do seminário), Pe. Fritz Satzger(Paróco Nossa Senhora do Perpétuo Socorro), Pe. Lucas Fuertes Rodriguez (Nossa Senhora do Perpétuo Socorro) Pe. João Bosco (Chanceler da Prelazia do Xingu), Pe. Romildo Maurício Silva (pároco da Paróquia Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos).

Estiveram presente a comunidade católica de Brasil Novo, autoridades municipais: o prefeito de Brasil Novo: Alexandre Lunelli e vereadores, religiosas das Congregações Franciscanas de Penitencia e Caridade Cristã, Franciscanas de Ingolstadt e Adoradoras do Sangue de Cristo, como também jovens da Pastoral da Juventude, Seminarista Gilberto (Igreja Irmã de Porto Alegre-RS e representantes da Fraternidade São Francisco – Ordem Franciscana Secular e equipe do Centro de Pastoral da Prelazia do Xingu.

Após a celebração todos partilharam um momento de confraternização com um delicioso café da manhã.

Os trabalhos no ano de 2017 iniciarão com o acompanhamento a 4 seminaristas: Gabriel Matos Pinheiro (Porto de Moz-PA), Antônio Marcos Oliveira Ferreira (Medicilândia-PA), Vinícius Oliveira Gomes (Brasil Novo), Francisco Edvan Brandão(Brejo Santo-Crato-CE) acompanhados por Pe. Hortêncio Medeiros Matias reitor do Seminário e promotor vocacional.

Que todas comunidades possam voltar suas orações para esse trabalho de formação sacerdotal aos futuros ministros ordenados de Cristo como também a solidariedade e partilha na sustentação dessa obra que é o Seminário São João Maria Vianney – Etapa Propedêutico e Ensino Médio em nossa Prelazia.

O Seminário São João Maria Vianney-Etapa Propedêutico, Pe. Hortêncio Medeiros Matias e os seminaristas estão abertos a acolhê-los com suas orações, apoio e solidariedade a causa vocacional. (Por Dóris - Centro Pastoral)

 

*Por Claret Fernandes

 

A velocidade imposta pelo capital nas suas prioridades atropela tudo que encontre pela frente, desde gatinhos que miam de medo até tigres consideráveis. Engole-os, chuta-os com as balas de chumbo ou os engambela com migalhas de balas de açúcar ou apenas com promessas vazias.

 

A barragem de Belo Monte é um caso típico dessa atrocidade desde o início do seu processo de implantação, sem as oitivas indígenas como manda a Constituição brasileira, com uma Licença de Instalação parcial, coisa totalmente exótica no licenciamento ambiental, e, agora, com a construção de casinhas de concreto em Altamira e começo da expulsão de famílias das baixadas, onde moram atualmente.

 

A velocidade vai a jato! Constrói-se a casa num dia e, em alguns segundos, destrói-se a antiga moradia, no ritmo da sede de antecipação do lucro pela geração e comercialização de energia numa hidrelétrica cuja construção foi decidida por impérios econômicos transnacionais imiscuídos no Estado brasileiro e financiada com dinheiro público.

 

Na abertura da II Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, iniciada em Havana ontem (28), Raul Castro defende que ‘os países da América Latina e Caribe devem ser soberanos na prerrogativa de exploração dos recursos naturais’. Essa advertência de Castro calha bem em especial para o setor energético no Brasil, nas mãos do capital financeiro internacional.

 

Mas o dia da expulsão do alagado em Altamira é como um oásis em meio a esse padrão histórico de violação ao direito humano na construção de barragens. Só na aparência, o que o torno ainda pior. É como um porco do qual você cuida com ração de primeira qualidade para abatê-lo em tempo recorde e transformá-lo numa carne apetitosa. É como o bandido que, tendo enfiado a faca na sua vítima até as entranhas, sem dó nem piedade, lhe promete morte indolor, sedando-a, arranjando um último argumento para a sua própria defesa no tribunal.

 

O dia da expulsão das famílias das baixadas em Altamira é um oásis no deserto, uma espécie de morte sem dor, que durará até que seque a pouca fonte de água ou até terminar o efeito do anestésico.

 

A dor sedada fica incubada, e vai incomodar muito no dia seguinte. Importante dizer que essa dor, se for doída demais, incomoda o atingido; mas, também, podem sobrar umas caneladas para os que hoje se acham em cima da carne seca, impondo a hidrelétrica com arrogância e sendo, eles mesmos, critério absoluto do certo e da verdade.

 

A dor, quando é sentida demais no estômago e na cabeça, não respeita limites. E qualquer império pode desfazer-se em fração de segundos.

 

Os golpes primeiros foram dados há muito através de relatórios e mais relatórios encaminhados ao IBAMA, com decisões de bastidores. Destinos traçados em documentos sigilosos! Hoje a empresa ‘sabe’ mais do atingido do que ele próprio. É claro que isso o põe numa situação vulnerável.

Claro ainda que no início muita gente gosta dessa ‘solução’ por forças ocultas, crendo que alguém vai resolver o seu problema crônico. Esse é um dos vícios de nossa sociedade: crer que um salvador da pátria ou que alguém puro de espírito altruísta vai resolver o nosso problema! Mas essa fé vai diminuindo, diminuindo, até afunilar-se por completo no dia seguinte à expulsão transmudada em favor.

 

A dor da expulsão é traumática demais, por isso o dia precisa ser tão especial! E faz do dia seguinte um tempo tão arriscado, conflitivo, com potencial de desencadear um processo libertador.

 

A pessoa é tirada de sua casa e colocada numa outra em cuja construção não pôde dar nenhum ‘pitaco’: a família não escolheu o local, não decidiu o tamanho da casa, a sua planta, nem se deveria ser de alvenaria ou de concreto. Isso equivale à pessoa ser obrigada, por enquanto, a saltar num abismo sobre os braços de um estranho.

 

O aparato montado para cercar a família de todos os cuidados é admirável. Uma equipe lá dos escritórios com ar condicionado, sob a batuta da Norte Energia, cuida de selecionar a família e de agendar o dia de sua mudança. A família é escolhida a dedo, após estudo minucioso, e avisada com dois dias de antecedência para preparar-se. Não é qualquer família que pode ir quando bem quer.

 

A expulsão sumária, nessa circunstância, soa como prêmio. Aquela família, antes que as outras, vai pisar na nova área. Aquela, que sempre tivera o direito negado pelos governos e pelo Estado brasileiro, é agora contemplada por uma empresa privada, numa espécie de privatização da política pública. Aquela, justamente aquela, é premiada, com tantas outras que, igualmente morando no alagado, também por causa dos direitos históricos negados, vão sair sem casa (ainda) que de concreto e sem nenhuma indenização porque estão fora da lista de atingidos pela barragem.

 

Um exemplo são os carroceiros. Eles somam 130 pais de família e garantem a subsistência de aproximadamente 600 pessoas. O trabalho de carroça é histórico em Altamira, com mais de 70 anos. Com o processo de implantação de Belo Monte, a vida deles ficou complicada: os fretes diminuíram, o trânsito virou um caos (apenas em 2013 houve 13 acidentes com carroça). O carroceiro que chegava a tirar R$ 200 por dia hoje ganha R$ 400 por mês. Apesar disso, não são reconhecidos como atingidos pelo IBAMA.

 

No dia da expulsão, com tantos cuidados, alguma família pensa que há outras tantas fora da lista e se sente privilegiada.

 

Não é por coincidência que as primeiras treze famílias retiradas dos alagados, do dia 15 de janeiro até hoje, são as famílias mais lascadas, às quais mais se negou direito.

 

Isso faz parte de uma grande orquestra, que ensaiou durante muito tempo e, agora, precisa tocar em tom suave. A música que rola no senso comum e na imprensa é que a família do alagado está melhorando de vida.

 

Selecionada a família, o dia fatídico com gosto de prêmio é agendado. Aí uma segunda equipe e duas empresas terceirizadas, a Granero e a CNEC, entram em ação.

 

A equipe vai até o endereço indicado no documento. São números, não pessoas! São objetos, não gente! Mas são objetos preciosos, que demandam, ao menos nesse dia, cuidados especiais. A área do alagado precisa ser limpa para a elite ocupá-la em nome do lago.

 

Os funcionários da empresa ajeitam tudo. Há móveis que se desmontam com um toque de nada. Colchão, fogão, um sofá, uma rede, tudo vai sendo colocado no caminhão. Cachorro, gato, tudo pode ir junto. Crianças, que são muitas no alagado, vão num carro à parte, muitas vezes sem a presença de um pai. Quantas nem sabem quem é o pai!

 

O dia da mudança é o dia da mudança! O pedido da família é (quase) uma ordem! Se um menino espirra, vem logo alguém com um remedinho para livrar-lhe até do sintoma da gripe. No dia seguinte, essa gente dos remedinhos e dos cuidados vai toda embora.

 

Como é tudo uma questão de aparência, muita coisa preciosa no sentimento, ainda que carcomida do tempo, desaparece nesse dia.

 

Lembra-me Maria Amélia, atingida pela barragem de Emboque, em Minas Gerais. Sua casa também fora derrubada, com muita prepotência, sem poder levar nada. ‘Queria pegar ao menos a janela, ela era madeira boa’, disse.

 

A agressão aos sentimentos das pessoas deixa marcas profundas, que se revelam no dia seguinte.

A mudança da família expulsa do alagado segue para ajeitar-se na moradia nova. Uma equação difícil! Como colocar móveis numa casa que não foi preparada para recebê-los? Como colocar as crianças, que em geral são muitas, nos poucos quartos apertados. É como a mão grande que precisa enfiar-se numa luva pequena. As casas são todas iguais, na planta e no tamanho (63 m²) e as famílias são diferentes umas das outras. Por isso é uma equação difícil!

 

Nessa hora o coração acelera, e dá sinais de alguma angústia, e começa a bater o sentimento de que gente é feita para a liberdade na luta. Aqui entra uma nova equipe para tentar apagar qualquer semente de rebeldia, qualquer ‘razão’ para reclamo: a equipe de acolhida, especialmente preparada para sorrir. Então o coração aflito prefere calar-se. Sobrepõe-se, ao menos por enquanto, o sentimento de que ‘vale mais um pássaro preso do que dois voando’.

 

A equipe de acolhida até ajuda numa coisa e noutra. Sua função mais importante, porém, é não fazer absolutamente nada. Apenas sorrir!

 

Famílias habituadas a levar cascudos do sistema todos os dias por ser empobrecidas, agora, ao menos no dia da mudança, recebem largos sorrisos. Isso meche com elas por dentro.

 

O alimento chega a tempo e à hora. É dia de mudança! Vem o lanche, o almoço e, se precisar, também o jantar. A criança recebe atenção, talvez um brinquedinho. Tudo fica às mil maravilhas!

 

À entrada da nova casa, a família recebe a chave e um manual de instrução.

A chave lhe dá uma sensação de poder, de posse, de decidir quando abre e fecha a porta de sua moradia. Dá também uma sensação de privacidade. Mas esconde o fato de que a morada está numa área totalmente controlada pela empresa. É um ‘poder’ submisso a uma força imperialista, com cancela na entrada do loteamento e com a Força Nacional dentro do canteiro das casas, que está apenas no início das obras.

 

A família recebe um manual de instrução e nem lhe dá tanta importância, pois sua vida até então não precisava desse papel. Certamente o deixará depositado em um lugar qualquer!

O manual de instrução serve mais à própria empresa do que à família. Ele é a bacia de Pilatos, onde a Norte Energia lava as suas mãos. A prova do crime, pois ele só existe por causa da fragilidade da nova moradia, vira uma espécie de salvo-conduto da própria empresa.

 

A partir desse ato, através do qual a empresa informa à família a necessidade de cuidados especiais da casa de concreto, a responsabilidade cai nas costas da família.

 

É uma diferença grande que ocorre, embora no dia da mudança seja imperceptível, quando tudo fica sob a tinta fresca e os sorrisos ensaiados. Na morada antiga, alguém da própria família ou um parente fazia um puxado, ajeitava uma tábua solta, colocava água, ligava uma luz, tudo sem nenhum custo. Agora não! O manual de instrução é que ‘manda’. A pessoa não pode fazer nenhuma intervenção sem a contratação de mão de obra qualificada. E isso fica caro!

 

Mas com tanto chamego, com profissionais adestrados nos bancos de universidades preparados para agradar e vender carinho para quem, talvez, não o tenha recebido de graça, o dia da mudança é dia de glória, quase a realização de antigas promessas de Belo Monte como a redenção dos povos do Xingu.

 

A trama toda é muito bem montada, e engana até bons espíritos. Cleide, da Casa de Governo, conta que viu, pessoalmente, a família recém-expulsa sorrindo na nova casa, enfiada numa casa de concreto. A família sorri mesmo, com tudo que a rodeia nesse momento. Em um dia. Mas, conforme afirma o ditado, ‘angu de um dia não engorda cachorro’. E há muita gente no alagado que não está disposta a trocar sua moradia ampla, bem construída, até de 120 m², por aquelas casinhas. Por isso, o dia seguinte é incerto, mas traz também a possibilidade da organização.

 

O sorriso de ambos os lados (empresa e família) não significa garantia do direito e das políticas públicas ainda que as mais elementares. Não significa também que as coisas estejam tranqüilas. É um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento.

 

Até aqui a Norte Energia e governo federal têm atuado como corpo de bombeiros, apagando pequenos incêndios. E tocando as obras lá embaixo, na Volta Grande do Xingu. Mas esses apaziguamentos ensaiados e forçados negam o direito e só adiam o conflito, que poderá caminhar para a completa barbárie ou para um processo organizado, esse sim, capaz de garantir a liberdade soberana até agora negado.

 

Enquanto a Norte Energia entretém umas poucas famílias extremamente empobrecidas no Jatobá, como o bandido que alicia o cão-vigia com um pedaço de carne para saltar o muro do outro lado da casa, outra equipe se encarrega de destruir tudo no local da ‘antiga’ moradia, não deixando tábua sobre tábua.

 

É recorde sobre recorde! Gasta-se em média um dia para construção de uma casinha de concreto, que tem vida útil de cinco anos, e se destrói uma casa de madeira, que pode durar algumas dezenas de anos, em poucos segundos.

 

No alagado não há sorriso! O trator entra e, com seu bufado, leva tudo ao chão. Os operários de empresa terceirizada da Norte Energia despregam tábuas, retiram madeiras, encostam o caminhão e, o que era uma casa, agora entulho, vai tudo para o lixão para ser incinerado.

 

Com os destroços, é muita história que vira cinza e fumaça. Mas fica a semente da indignação, o combustível da mudança.

 

Três cenários, assim, se descortinam. No Jatobá, sorrisos e amabilidades cercam as famílias no dia da mudança, mas, no dia seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte, só Deus sabe. Casas, ruas, contenção de encostas em tempo de inverno, tudo feito às pressas, na velocidade exigida pelo capital de olho na obra civil da barragem, é coisa sem futuro. Além de insegura, a vida no Jatobá vai ficar cara, com a conta de água, de luz e outros gastos. Além da vida insegura e cara, faltam equipamentos de políticas públicas elementares como saúde e educação.

 

No alagado, de onde as famílias são expulsas, o dia da mudança é marcado pela destruição. Uma área historicamente abandonada pelas autoridades, porque ali moram empobrecidos, agora será tratada como a menina dos olhos, e muito cobiçada. Ali haverá bosques, ciclovias, cais, área nobre de bacanas.

 

A expulsão pelo lago, em si dramática, tem a motivação subjetiva de limpeza social, de preconceito. O mesmo sistema político e econômico neoliberal que sobrevive do trabalho da classe trabalhadora e dos bens naturais destrói a natureza e expulsa os trabalhadores empobrecidos.

 

O primeiro cenário vai do sorriso ao abandono no Jatobá. O segundo cenário vai da destruição nos alagados à pretensão de construção de espaço para bacanas. Mas o terceiro cenário é o dia seguinte. O mais importante! Se ele for se materializando em rebeldia organizada, pois nenhum povo é bobo, a prepotência terá seus dias contados. O povo triunfará!

 

*Missionário na Prelazia do Xingu e militante do MAB.

O filme ‘A vida é bela’ do italiano Roberto Benigni guarda uma semelhança sinistra com Belo Monte, barragem privada financiada com dinheiro público em fase de construção desde junho de 2011, no rio Xingu, Amazônia brasileira: o efeito ilusório!

A película lançada em dezembro de 1997 obteve grande sucesso em grande parte pela sua capacidade criativa de esconder a verdade dos fatos. O contexto é o da Segunda Guerra Mundial. O personagem Guido, um judeu, e seu filho pequenino são levados para o campo de concentração nazista. Preocupado com o menino, Guido usa sua imaginação fértil para fazê-lo crer que todo aquele terror não passava de uma brincadeira. O menino se entusiasma e, mesmo questionado por outras crianças de sua idade, buscando convencê-lo de que estão todos condenados à morte, ele segue animado com a possibilidade de ser um dos vencedores ao final da suposta gincana.

Benigni zomba da crueldade! À noite, antes de dormir, dois personagens, Guido e Ferruccio Papini, fazem brincadeiras com o filósofo alemão, Arthur Shopenhauer, o escritor favorito de Adolf Hitler.

Esse efeito ilusório, que transforma um campo de concentração nazista em brincadeira de gente grande e pequena, ocorre atualmente em Belo Monte. A diferença é que Benigni o faz por amor ao filho e os detentores do poder em Belo Monte, e seus sequazes, o fazem pelo cinismo macabro de acumulação de capital a qualquer custo.

Um projeto de intervenção capitalista dentro de um plano neocolonial da Amazônia se apresenta com ares de filantropia. Nos discursos oficiais, construir barragem aqui vira condicionante para garantia de direitos elementares de populações empobrecidas e de energia para o desenvolvimento do país. Esse discurso transforma os atingidos terrivelmente impactados em ‘beneficiários’ do projeto e equipamentos estranhos, como as previstas barragens-plataforma, em elementos de harmonia e preservação da natureza.

Quando o questionamento vai fundo, meninos de recado do governo federal apelam e afirmam que o bem de todos exige o sacrifício de alguns. É o cúmulo do cinismo! E da mentira! O bisturi que corta o Xingu, e sangra o seu povo, tira um bem natural de uso comum e o torna um recurso privado.

Prometem-se três bilhões e meio de reais a título compensação ambiental e social. Se esse dinheiro existe, ele é investido a bel prazer da Norte Energia, empresa que congrega os gigantes donos de Belo Monte.

Prometem-se diversas obras com o Xingu Sustentável nos onze municípios de influência de Belo Monte. É verdade que algumas delas aqui e ali saem, mas em todas há muitas pendências. Há estudantes que morrem de calor em suas escolas, por exemplo, porque a reforma do prédio em nome da Norte Energia não considerou o redimensionamento energético para o ar condicionado.

O recurso do Xingu Sustentável, um total de 500 milhões que estão sendo aplicados em longos 20 anos, vem, na verdade, do bolso dos brasileiros, através dos custos exorbitantes das contas de luz, e, não, do cofre dos donos de Belo Monte. Eles levam a fama, mas o povo é que paga a conta.

Existem obras, é verdade, mas há muito mais placas! E com a aproximação do período eleitoral, há políticos de tudo enquanto é cor e tendência que buscam agarrar-se a essas placas.

À Norte Energia interessam as fotos, que garantem a formalidade, se é que precisa disso. Ela manda e desmanda no pedaço! Aos políticos das diversas esferas, o que lhes interessa é colar suas imagens nessas migalhas de obras para sua perpetuação no poder. Onde existe a negação histórica do direito, qualquer coisinha serve, e já rende votos, e a política pública como garantia constitucional sai atropelada.

Quase sempre, as obras não condizem com as reais necessidades do povo. Brasil Novo sofre com problemas de abastecimento de água, na sua quantidade e qualidade. Altamira padece com o caos social. Vitória do Xingu, com nove milhões mensais de ISS, deixa quase mil famílias acampadas há mais de um ano. Souzel tem problemas crônicos com o serviço de energia. Vilas ao longo da Transamazônica, algumas com mais de 500 famílias, não podem ter um freezer maior, pois a rede de energia não suporta.

Parabéns a Benigni pelo efeito ilusionista por amor ao seu filho. Parabéns, também, ao povo da Amazônia, que vem descobrindo a verdade escondida sob o manto da ilusão. Apesar da eficiência dos detentores de Belo Monte, com seus efeitos especiais, transformando mentiras lavadas em verdades (quase) inquestionáveis, a verdade começa a prevalecer. Por ora ainda se invertem os fatos, transformando as vítimas em culpados, mas isso não deve durar por muito tempo.

Raimundo, morador de Assurini, vai ao escritório da Norte Energia e reclama dos estouros de pedras, que ocorrem duas vezes ao dia, às seis e dezoito horas; eles estão provocando rachaduras em sua casa. A empresa apenas responde que as bombas estão dentro do padrão. Ou seja: a casa de Raimundo, morador ribeirinho há anos, é que está fora do lugar e do padrão.

Indígenas se organizam, resistem, lutam por seus direitos. Agora se dispersam! Muitos estão perdidos nas ruas de Altamira, vítimas da miséria e do preconceito. Mas Edson Lobão, Ministro de Minas e Energia, com sua cara lavada, afirma de pés juntos que nenhum índio é molestado em Belo Monte.

Fala-se de reassentamento urbano coletivo para as mais de trinta mil pessoas moradoras próximas ao Xingu em Altamira. Espalham-se panfletos colocando casas de alvenaria de três tipologias. O que se está construindo, porém, são casas de concreto em loteamento.

A partir de hoje, 15 de janeiro de 2014, se inicia o processo de transferência de um grupo de famílias a cada dia para esses loteamentos. É um dia histórico! E penso que o efeito ilusório, por forte que seja, vai romper-se antes que as trinta mil pessoas atingidas se transfiram para lá. Ou recebam míseras indenizações.

Há três cenários possíveis: muita bala de açúcar para adoçar a vida, alguma bala de chumbo para intimidar os ânimos exaltados ou uma rebeldia organizada pela garantia do direito enquanto é tempo.

Não basta estarmos certos; é preciso força popular para fazer valer a nossa verdade! Ajudar na organização do povo é a nossa principal tarefa!

Lá na obra, funcionário do médio escalão informa que houve festa em comemoração ao pequeno número de acidentes durante o ano de 2013: teriam sido apenas dois! Não sei quantos morreram em cada um desses acidentes. Nem sei que critério se usou para se chegar a esse número. Incrível! Mas faz parte do jogo da ilusão.

O que se sabe é que, infelizmente, morre gente todos os dias, dentro e fora dos canteiros, e a imensa maioria dessas mortes tem relação direta ou indireta com Belo Monte.

Além de esconder a verdade, a ilusão possibilita transformar tragédias em negócio rentável. A morte solta rende muitos cifrões! Aos assassinatos por encomenda, que continuam na região, somam-se, agora, as mortes provocadas pela violência da expansão do capital patrocinada pelo Estado brasileiro.

Operários de outras regiões vitimados em acidentes fatais são embrulhados em bolsas próprias e, depois, devidamente preparados, enviados à sua terra de origem. Isso gira um comércio considerável!

Localmente, há convênios com funerárias que, a preços salgados, oferecem serviços completos. As salas de velório são aconchegantes com ambiente climatizado. Ali os corpos bem tratados, de pessoas que perderam a vida antes do tempo, refrescam a cabeça dos parentes condoídos e evitam comoções indesejáveis.

Belo Monte, à semelhança do filme de Benigni, é também do gênero comédia trágica. É como o fato ocorrido recentemente no hospital do câncer, em Muriaé MG. Um homem, buscando consolar o esposo de uma mulher muito querida internada ali, em fase terminal, diz-lhe: ‘É uma honra para qualquer um de nós morrer num lugar assim, tão cheio de recurso e tão bonito!’.

O nome do filme ‘A vida é bela’, segundo o próprio Benigni, é uma citação de Léon Trotsky. Aguardando a morte no exílio, ele escreve que, apesar de tudo, a vida é bela.

Pode-se parafrasear Trotsky, com um pequeno adendo: apesar de tudo, a vida é bela, pois a verdade há de revelar-se e a soberania de nosso país há de impor-se pela força do poder popular.

Pe. Claret

Antônio Claret*

Val viera do Assurini, atravessara a balsa e chegara a Altamira para expor sua situação e de seu povo, atingido por Belo Monte. Já fizera o mesmo trajeto algumas dezenas de vezes apenas neste ano. Assurini passa por um momento crucial, pois vê a barragem seguir atropelando tudo sem uma resposta minimamente razoável por parte da Norte Energia.

Às nove horas e quarenta minutos chegara ao INCRA com a intenção somente de remarcar reunião para a Agrovila Sol Nascente, no Centro de Formação Irmã Dorothy. No dia primeiro de setembro estivera ali, e agendara a reunião para cinco de outubro, mas o Executor do Órgão simplesmente se esquecera. Como essa gente é esquecida!

Val apresentara-se à recepcionista, que já o conhecia. Lembrava bem o seu rosto de camponês indignado, e a sua questão. Mesmo assim ele falara tudo de novo. Ela anotou ‘tudinho’, e disse que o Executor estava atendendo outra pessoa: ‘é só aguardar’, disse-lhe, indicando a cadeira.

Val sentara-se um pouco, exausto que estava. Saíra de casa de madrugada, andara 12 km a pé, pegara um Pau de arara, suportara os solavancos por mais 28 km. Não é fácil!

Pressentindo que aquilo iria demorar, ensaiara entrar e subir até a Casa de Governo, que funciona no andar de cima. Mas fora logo barrado pelo Guarda. A atendente o chamou, pegou-lhe o nome, depois o liberou para subir as escadas.

Não havia ninguém na Casa de Governo, embora fosse horário de trabalho, dez horas. A copeira, que, por acaso, estava ali, na sala de atendimento, disse-lhe, amavelmente: ‘eles ainda não chegaram!’. E justificou-se: ‘certamente encontraram alguma coisa para resolver pelo caminho’.

Val ficara imaginando que a Casa de Governo em Altamira – único município brasileiro que tem esse tipo de serviço, um órgão exótico e precário - é como um Corpo de Bombeiros, que serve para apagar fogo, mas sem extintor.

Descendo de novo as escadas, Val procurara ao menos um cafezinho, que lhe restaurasse as forças, mas não encontrara. Havia uma garrafa no galpão, com copos de plástico, mas vazia. Então tomara água, e sentara-se de novo na cadeira.

Dali ficara reparando ao redor. Uma mulher idosa, mas jovial, falava ao telefone. Como conversasse alto, ele ia ouvindo a fala dela. Contava para alguém, do outro lado, da Belo Sun, mineradora canadense em processo de instalação na Volta Grande do Xingu, região onde o rio terá 100 km secos por causa de Belo Monte. Parecia satisfeita. Dizia que os homens eram bonzinhos, davam carona, carregavam as compras dos ribeirinhos numa distância de 10 km, visitavam as casas, tomavam café. Val ouvira tudo aquilo como um filme antigo que lhe retornasse à cabeça.

Outra mulher, que chegara apressada, queria resolver uma questão do seu lote. Foi-lhe dito, porém, que precisava de um Requerimento de seu pai. Ela fez o que podia, disse que isso era impossível, que seu pai mora distante, no interior, mas a atendente simplesmente afirmou: ‘não podemos fazer nada!’. A Mulher se foi!

Um senhor alto e claro, com capacete no braço, entrou e foi direto à recepcionista, cochichou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Nesse exato momento, alguém do INCRA bateu-lhe nas costas, com ares de intimidade: ‘em que lhe posso ajudar?’. Depois, virando-se para a recepcionista, olhando-a no rosto, disse, num misto de exclamação e pergunta: ‘aqui em baixo, ele pode entrar de bermuda, não é mesmo!? A atendente apenas confirmou com a cabeça. Parecia que aquilo já era uma coisa costumeira. Ele entrou, e os dois ficaram um tempão conversando numa mesa, lá no canto do salão.

Val permanecera no INCRA de nove e quarenta até onze e quarenta, mas saíra satisfeito, pois, ao menos, conseguira, em duas horas, remarcar a reunião, que, agora, ficou agendada para o dia vinte e cinco de outubro. É torcer para o Executor não esquecer-se de novo!

Val resolvera subir outra vez à Casa de Governo e, agora, tivera sorte. A coordenadora estava. Ela o atendeu, entrecortando a conversa, resolvendo, por telefone, um fechamento da Transamazônica em Pacajá, motivado por um atentado contra uma lutadora local. Uma caminhoneta estranha lhe atingira a moto, e a jogara longe. Por sorte a mulher não perdera a vida, mas ficara muito machucada.

Na Casa de Governo, Val descobrira um dado que o deixara surpreso, e ainda mais indignado. O PA (Projeto de Assentamento) Assurini - um dos assentamentos da grande área do Assurini, com trinta mil pessoas - tem quatrocentas e cinquenta e nove famílias e, ‘tecnicamente’, caberiam apenas trezentas.

Val questionara! ‘O INCRA errou’, disse o funcionário, na maior calma. ‘Mas fazer o quê? Cento e cinquenta e nove famílias vão ter que sair!’.

Val saíra com a cabeça quente, e meio confusa. A Norte Energia quer expulsar os camponeses da terra para encher o lago de Belo Monte. Agora, também o INCRA quer arrancar, da mesma localidade, cento e quarenta e nove famílias.

A manhã terminou! Val fora à casa do seu cunhado para almoçar e voltar à tarde para continuar sua via crucis.

Sua próxima estação, às 14 horas, foi o IBAMA. O sol estava muito quente. Ele olhara para o Xingu, ali do lado, e tivera vontade de deixar tudo e cair naquelas águas. Um Guarda, da sombra, lhe perguntou o que desejava, e lhe indicou a porta de entrada. ‘Fique à vontade’, disse-lhe.

Ele entrara, sentara-se, depois notara uma menina lá no canto, num local cercado de vidro com um pequeno orifício, e fora procurá-la. A menina, que era a secretária, o atendeu maravilhosamente bem. Ouviu-o com atenção.

A principal informação que Val buscava ali era sobre o Caderno de Preços da Norte Energia. Sempre muito educada, a menina lhe explicou que a Superintendente do IBAMA está há três meses para Brasília. Estaria fazendo cursos e encontros. E disse que todas as questões referentes a Belo Monte se revolvem lá. ‘Aqui não temos nem o Caderno de Preços’. Abrindo um sorriso, lhe prometeu: ‘ela chega no dia nove de novembro, com certeza vai trazer muitas informações para vocês, inclusive vamos solicitar à Norte Energia o Caderno de Preços. Quem sabe eles nos arranjam um!?’.

Val saíra boquiaberto; rira daquela situação cômica e, ao mesmo tempo, dramática. Belo Monte vai a pleno vapor! Mas ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe de nada. Nem o IBAMA, em tese o órgão que dá as licenças.

Despedira-se, e saíra rumo à Prefeitura. Lá ele desejava averiguar resposta de ofício protocolado no dia três de setembro reivindicando informações sobre processo de concessão de operação da balsa do Assuniri (os camponeses pagam uma espécie de pedágio para ir à sede do próprio município; uma moto, por exemplo, são sete reais) e projeto de asfaltamento da Transassurini.

Fora antes ao setor de protocolo. A secretária procurou, procurou, até encontrar o número do ofício, e o assunto. E pediu-lhe que se dirigisse ao gabinete do Prefeito: ‘lá você terá a resposta!’, disse.

Ele chegara lá, meio tímido, com aquele pedaço de papel na mão, escrito à caneta, e mostrara à senhora que se achava atrás do balcão. Falara que desejava obter a resposta da Prefeitura sobre aquele documento.

A senhora, ranzinza, parecia não ouvir direito. Atendeu-o mal. Depois lhe disse apenas que era hora de almoço. Val olhara no relógio. Eram quatorze horas e trinta minutos. A dona continuou falando: ‘a secretária vai chegar às 16 horas’.

Val saíra dali coçando a cabeça, enquanto decidia o que fazer, e resolvera ir embora. Não dava tempo de esperar. Precisava tomar ônibus para Vitória do Xingu às dezesseis e trinta, onde iria visitar acampamento de 1000 famílias. Com Belo Monte, a questão da moradia está explodindo por todo canto.

No dia 18 à tarde, Val soubera da ocupação do escritório da Norte Energia, no bairro Jatobá. Eliosvaldo lhe contara tudo. Famílias organizadas no MAB chegaram, entraram, e dialogaram de cabeça erguida.

A pressão foi grande! Do lado da empresa, seguranças privados e policiais: Força Nacional, militares; do lado dos atingidos, o poder rebelde de um povo indignado. A prepotência da Norte Energia foi cedendo, ficando indicativo de três reuniões para ouvir a pauta dos trabalhadores.

A Via-sacra termina na ressurreição! Val é uma pessoa de fé! E sente que a Via-sacra à moda Belo Monte poderá terminar antes, com a força da insurreição popular. Pois tudo que se espreme demais, e não tem autoridade que ‘resolva’, sai entre os dedos. Ele se alegra com isso!

*Padre missionário na Prelazia do Xingu

e militante do MAB.


 


Antônio Claret Fernandes*

Jean de La Fontaine conta, na sua Fábula O Lobo e o Cordeiro, que o animal, embora decidido a comer sua apetitosa presa, precisava arranjar uma desculpa para não parecer injusto.

Achando-se os dois a sós à beira de um riacho, numa queda d’água, o Lobo faminto, um pouco acima, começa acusando o Cordeiro sedento de que ele estaria sujando a ‘sua’ água. O Cordeiro defende-se, afirmando que isso seria impossível, já que ele estava abaixo. A fera, para a qual o argumento era só uma formalidade, nem raciocina e segue suas acusações: ‘você falou mal de mim há pouco mais de um ano’. Mas o Cordeiro defende-se de novo: ‘não pode ser, ainda não completei dez meses’.

Ouvem-se muitas histórias de regiões inteiras do mundo atrasadas por falta de recurso financeiro. Cria-se uma série de programas sociais, supostamente para a classe rica ajudar a classe pobre. É antiga a questão mundial entre o Norte e o Sul. E sempre se apresenta o dinheiro como a solução definitiva de todos os problemas, ainda que, por trás dele, haja intenções inconfessas.

Mas é interessante! Aqui na Amazônia, há situações em que ocorre o contrário. Indígenas estão sendo estraçalhados por ‘excesso’ de dinheiro. As fontes podem secar ou não da noite para o dia a bel prazer da Norte Energia, colocada como a dona de Belo Monte, e do governo. Os nativos não têm o controle dos cifrões. E uma cidade inteira está em agonia, impactada pelo volume financeiro de Belo Monte advindo da mercantilização do Xingu.

Esse é um elemento curioso! Já não é mais suficiente dizer que o erro está no fato de nossa riqueza ir embora em forma de remessas ao capital imperialista, materializado em transnacionais privadas ou estatais: Eletrobrás, Eletronorte, Chesf, Neoenergia, Vale, Cemig, os gigantes donos de Belo Monte. Pois os vinténs que ficam, controlados por uma estrutura política totalmente viciada, não se traduzem em políticas públicos a benefício do povo e da classe trabalhadora.

Essa estrutura de organização capitalista de sociedade, cujo motor é a exploração, gera pessoas-monstros miseravelmente ricas; são tão pobres, mas tão pobres de valores humanitários, que fazem tudo pelo dinheiro, e se comportam como macaco em casa de louça (sem querer ofendê-lo), quebrando tudo pela força bruta do poder.

Vitória do Xingu, município-sede de Belo Monte, é um caso típico, e virou um canteiro de obras! A cidade, que tem cerca de sete mil habitantes e um ISS – Imposto Sobre Serviços – próximo de dez milhões/mês, está com as ruas, todas, reviradas. A poeira toma conta nesse verão. Mesmo que se jogue água, tudo seca rapidamente com o calor intenso, trazendo complicações respiratórias, em especial para idosos e crianças. E não é fácil encontrar uma ficha para consulta médica.

Antes o sofrimento em Vitória fora o inverno. O lamaçal se agravara com a remoção do calçamento das ruas – ainda bom -, e da terra arenosa para colocação de argila, própria para receber o asfalto, que não veio até hoje. A promessa é de asfaltamento de toda a cidade. Por enquanto tudo são buracos e terra nua.

Uma conhecida nossa, que se mudara de São Paulo para Vitória, em março de 2013, contara o ‘seu’ caso, ao mesmo tempo exótico e dramático. Ela passava pela rua, desviando-se aqui e ali de um buraco, de uma lama; ia ao bairro Santa Clara, onde sua casa estava em construção. De repente, desequilibrara-se, ficara atolada no meio da rua, até o joelho. Jamais pensara que ali fosse assim tão fundo.

O jeito fora pedir socorro. Um senhor, que passava numa trilha firme, na rua próxima, ouviu os seus gritos. Ele ia de bicicleta. Ficara em dúvida, seguira adiante, mas logo resolvera voltar, vendo-a naquele estado lastimável. Tirara, então, o sapato, que estava limpinho, e se metera na lama, arrastando a mulher do atoleiro.

A parte central da cidade tem verdadeiras crateras. Estão furando tudo, e colocando manilhas enormes para rede pluvial. A rede de abastecimento de água, também em construção, foi testada, os canos não suportaram a pressão e se romperam, e os serviços agora estão parados. Os canos de rede de esgoto são mais finos, e há dúvida se suportarão. Não se sabe, também, se o esgoto será tratado, conforme promessa, ou apenas lançado ‘in natura’ no rio. O sal dos dejetos humanos corrói as turbinas da barragem, e lhe diminui a vida útil, mas Vitória está abaixo do muro de Belo Monte e, isso, deixa os construtores da barragem numa posição tranqüila.

O barulho das máquinas pesadas é ensurdecedor. Bem à frente da casa onde Pedro, também conhecido, esteve hospedado, uma retro-escavadeira na rua fura um rasgão. Ele disse que foi obrigado a passar da sala para a cozinha, nos fundos. Não resolveu! Ao barulho, juntam-se as batidas fortes no chão seco, fazendo o computador tremer em cima da mesa. Pior, disse, foi o rolo logo após, compactando; o vidro da janela tremia todo, parecia que a casa viria a baixo.

A intensidade da ‘zuada’ constante dói os miolos. Quando a máquina dá ré, solta apitos finos e estridentes. A retro-escavadeira, com aquela munheca grande, e forte, fuça o chão, dando aqueles arrancos, com seus pés fincados em área firme e, enchendo a pá de terra, despeja tudo de uma só vez na caçamba do caminhão, cujo impacto provoca uma espécie de estrondo. A poeira sobe e espalha-se, alta e densa, encobrindo a visão.

Nas ruas vicinais, todas mexidas e remexidas, além da poeira no verão ou da lama no inverso, o compactador, um grande rolo que passa algumas dezenas de vezes no mesmo local, vem causando rachaduras nas casas. Marinalva conta que já se pode enfiar o dedo nos buracos da parede de sua morada.

Funcionários da empresa terceirizada da Norte Energia fotografaram tudo antes do início das intervenções, há mais de um ano, supostamente para comprobação de possíveis danos, e reparos ou indenização. Mas agora, quando alguém reclama, eles apenas dizem que foi a outra empresa. Algumas famílias, já impacientes, estão consertando por conta própria.

Uma jovem questionara a razão pela qual a intervenção está sendo feita na cidade toda ao mesmo tempo. ‘Não seria melhor terminar um bairro, e, depois, começar outro’? Mas a empresa, entre o desdém e a displicência, apenas disse: ‘fizemos assim em outra cidade, mexendo em tudo de uma só vez, e deu certo’. A jovem ficara em silêncio. Muitos se calam por completo, pois percebem o descaso! Por dentro, porém, ela se contorcia.

Parece, de fato, não haver um planejamento do ponto de vista técnico. Na barragem é tudo calculado, tim-tim por tim-tim, a tempo e a hora, e, ali, é como um experimento. Vitória é cobaia! Muitos serviços feitos, e desfeitos com as chuvas do inverno, já foram refeitos mais de uma vez. Muita terra foi carreada para o igarapé Facão, um crime ambiental. Existem áreas de lazer, umas muito próximas a outras, com equipamentos exóticos que, provavelmente, jamais serão usados por gente do povo.

A empresa parece não se importar com isso. É preciso entender a sua lógica. Por um lado ela faz a obra apressadamente, pois, assim, terá mais dinheiro em menos tempo. Ainda mais que ela tem frentes de serviço em diversas regiões do Brasil. Por outro lado, refazer serviço – o que seria um desperdício – e demorar com a obra – o que seria prolongar o transtorno – não é problema para a empresa; ao contrário, é até uma forma de mostrar um grande volume de trabalho e justificar a dinheirama gasta. Quanto às notas, frias ou quentes, é só uma questão de formalidade.

Diversos outros problemas vão aparecendo junto desse caos chamado progresso. Uma cidade antes pacata já não consegue ter paz. Duzentos reais que Clotilde levara na carteira para possíveis gastos em sua estadia em Vitória, e sua viagem de volta a Altamira, escafederam-se. Suas colegas desconfiam de um rapaz; elas deram razão de sobra para a desconfiança, mas não têm uma prova material. O fato é que as famílias já não têm mais o sossego de outrora, dormindo com janela e porta abertas. Quando saem, trancam tudo.

Cada espaço público já construído ou em construção na cidade tem três vigias, que revezam. Somam, ao todo, cerca de 200 vigias contratados numa cidade tão pequena. Chico pensa que o Prefeito se aproveita desse clima de insegurança para garantir emprego, cumprindo, assim, uma de suas promessas de campanha. E perpetuando-se no poder.

Lena, que alimenta um verdadeiro ódio contra a barragem, quase um fanatismo, sofre náuseas quando o dever lhe impõe o uso do tele-centro (público). Somente ali a internet tem sinal bom.

Sua raiva tem um viés familiar: o irmão dela perdeu a vista na barragem. Ele trabalhara lá. Num dia, estava no ônibus, e o pó de brita da estrada lhe penetrara a vista. Como ardia muito, procurara o médico da Norte Energia, que lhe receitara um colírio, e lhe dissera que poderia continuar trabalhando. Isso foi a desgraça dele! Passados quarenta dias, com o olho doendo, resolvera voltar ao médico, que o encaminhara para outro em Altamira e constatara uma úlcera dentro do olho esquerdo. Sua vista estava perdida.

Seu irmão fora afastado do serviço, e recebe uma espécie de pensão da empresa. A solução é o transplante do olho, mas fica muito caro, e a Norte Energia não assume.

O espaço do tele-centro, em Vitória, é todo controlado pela Norte Energia. À frente do prédio está escrito em letras grandes: ‘Balcão de informações - usina hidrelétrica Belo Monte’. A porta fica fechada. Abrindo-a, a pessoa dá de cara com um segurança. Do lado esquerdo, acha-se uma moça com ar de secretária atrás de um computador. O estômago de Lena revira por dentro cada vez que vai lá. Mas não tem outra opção.

Sempre mais a Norte Energia faz de suas obrigações legais um instrumento de dominação dos gestores públicos – através de uma e outra obra – e das famílias – através do emprego, ainda que precário e temporário.

As autoridades e a Norte Energia fazem gracinha. As festas se multiplicaram. Distribuíram-se Tabletes e Notebooks para estudantes e professores. Cada vereador ganhou uma Hilux, com fornecimento de mil litros de combustível/mês. A Prefeitura deu um desconto no ISS. Essas mordomias evidenciam que o Município nada em dinheiro, como se tivesse ganho na loteria. Essa dinheirama, porém, não tem significado melhora na qualidade de vida do povo.

A falta de recursos deixa muita gente à míngua no Brasil e no mundo. Altamira, situada no remanso do futuro lago de Belo Monte, reclama, com razão, do não cumprimento de condicionantes, em especial as estruturantes. Vitória do Xingu, ao contrário, tem um ‘excesso’ de recursos, que redunda em obras, mas que não se materializam em benefício real à população.

Aqui há uma verdade escancarada: a evolução de um povo não é uma questão de dinheiro e, muito menos, de obras feitas a deus dará, por formalidade.

A situação das populações ribeirinhas ainda é pior. Boa parte das casas são palafitas, às margens dos igarapés Gelo e Facão, somando quase três centenas de famílias. Corre boato de que serão todas desalojadas para construção de cais. Uma empresa terceirizada passou, cadastrou os moradores, mediu tudo, mas não conversou nem fez reunião com ninguém.

O boato da realocação divide as pessoas, e as deixa inseguras. Algumas ficam seduzidas com o sonho de uma nova casa, e com a cidade linda, rodeada pelo cais. Outras ficam vivamente chateadas, pois gostam da vida ali, ainda que precária.

O pior de tudo, porém, é a falta de informação. Uma arrogância, de quem pensa que o ‘técnico’ é que entende de obras, e que o povo não tem nada a contribuir. Enquanto tudo é boato, a vida fica parada, não se faz um puxado, não se constrói uma varanda, não se coloca uma pintura nova... O futuro é incerto!

Dona Graça mora à beira do Facão. Enquanto lava a roupa, num sábado de manhã, dentro do igarapé, com água até o joelho, vai contando a sua história. Foi pescadora, hoje já se aposentou por idade. Seu marido ainda exerce a profissão. Ela afirma com ar indignado:

‘A empresa diz que a barragem não interfere na vida do pescador. Ela não reconhece ninguém abaixo do muro. Mas é claro que interfere! O peixe diminuiu! A canoa vinha até aqui – apontando com o dedo. Agora é o que estas vendo. A terra da rua escavada desceu tudo para o rio. O igarapé virou um filete de água’.

Carla, que fora visitá-la, e ouvia a sua história, olhou para um lado, para outro, era mesmo tudo verdade. Perguntou-lhe se poderia tirar uma foto. Carla pensava que era importante registrar o que ela relatava. Aquele filete de água correndo, ela com a bacia cheia de roupa, as marcas da enxurrada da rua e a areia, cobrindo tudo.

‘Pode tirar foto sim! O que falei é tudo provado. O pessoal aqui tomava até banho no igarapé. Agora é só terra. Se a empresa quer construir cais aqui, tem que olhar o nosso lado. Aqui a gente está instalada, tem morada. Sair sem rumo não tem jeito’.

Dona Graça, na sua simplicidade e idade bem avançada, é uma mulher decidida.

Carla tirou a máquina da sacola, bateu a foto, e ainda a ouviu por uns instantes. Depois se despediu, apertando-lhe a mão. Ela abriu um sorriso, e disse:

- Volte depois!

- Vou voltar sim, em meados de outubro.

Enquanto ia passando pela areia, rumo à rua, já olhava o calendário. Pois a organização do povo somente caminha dentro de um processo. No mínimo, pensava Carla, precisamos buscar todas as informações e repassá-las às famílias. Informação também é poder.

Não é que Carla se admirasse do que as pessoas enxergam e sentem em Vitória. Apenas fica indignada, com a confirmação de que o desrespeito aos atingidos não é um caso isolado. Há um padrão de agressão aos direitos humanos, já reconhecido mas ainda não assumido pelo Estado brasileiro.

As mesmas promessas mirabolantes em Altamira também ocorrem ali, em Vitória do Xingu. Mas o certo é que tanto o descumprimento das condicionantes em Altamira quanto o ‘cumprimento’ em Vitória não têm incidido na melhora da qualidade de vida do povo. Pode ser mesmo que Vitória fique linda, como costumam dizer, mas com uma população sem garantia efetiva das políticas públicas elementares. Embelezam-se artificialmente as coisas, mas as pessoas ficam de lado.

Mas essa gente simples, em seus casebres e palafitas, não perde o humor. Com tantos buracos na cidade, estão apelidando o Prefeito de tatu de bigode. Não é fácil consumir 10 milhões/mês. E a questão é que esse dinheiro vai aumentar. Quando da sua operação, a partir do início de 2015 – se a barragem realmente seguir em frente -, a maior parte dos royalties de Belo Monte vai ficar na Prefeitura de Vitória. Não é sem razão que uma vaga no legislativo local, e no executivo, é disputada quase a tapa.

Belo Monte é um crime, cujas obras se iniciaram com uma licença parcial e com uma prepotência arrogante, numa ditadura econômica cacifada com dinheiro público pelo governo federal.

O mau exemplo se espalha como rastilho de pólvora. É de se prever o aumento significativo da corrupção em municípios, como Vitória, onde os gestores públicos terão que inventar formas para gastar todo o dinheiro. E não faltará criatividade! Ainda que as campanhas eleitorais acaloradas e as administrações quentes passem pelas notas frias turbinadas na energia do Xingu SA.

 

Dom Erwin celebrando Corpus Cristi em Brasi Novo
texto: Antônio Claret Fernandes*
Povo marca presença na 30º festa do Corpo e Sangue de Cristo e da partilha em Brasil Novo
 
Aconteceu nesse dia 30 de maio a 30º festa do Corpo e Sangue de Cristo e da partilha na Paróquia Corpo e Sangue de Cristo, Prelazia do Xingu, em Brasil Novo. A sua preparação contou com realização de tríduo em todas as comunidades, com o terceiro encontro por setor. A festa contou com um grande número de pessoas, que se concentrou em frente à escola ‘Brasil Novo’, depois saiu em procissão pelas ruas enfeitadas pelos jovens até à quadra da Paróquia, que ficou lotada durante a celebração.
 
Dom Erwin, que participa todos os anos, pediu uma salva de palmas para as comunidades, que estavam em peso, ali, marcando presença, e disse que ‘a celebração da Eucaristia está ligada à vida’. Lembrou os desafios históricos dos primeiros moradores de Brasil Novo e chamou a atenção para os novos desafios impostos ao povo, entre os quais a barragem de Belo Monte. Lembrou a situação caótica de Altamira, afirmando que ‘um terço da cidade poderá ficar debaixo d’água’. Solidarizou-se ainda com os ribeirinhos e indígenas, também muito impactados por essa obra.
Os indígenas, liderados pelos povos Munduruku do Tapajós, ocuparam o canteiro de obras de Belo Monte pela 2ª vez nesse mês de maio. Eles ficaram no canteiro entre os dias 2 a 9 e, como o governo e a Norte Energia não cumpriram suas promessas, eles voltaram no dia 27 de maio por prazo indeterminado. Eles reivindicam as oitivas indígenas garantidas na Constituição brasileira e na Convenção 169 da OIT, e não querem que empresas e governo continuem invadindo suas terras.  
 
Após a celebração, aconteceu o tradicional almoço comunitário e, na parte da tarde, houve futebol, continuando o clima de confraternização e partilha das comunidades na festa do padroeiro.
 
Além do bispo, estavam presentes o padre Alírio, reitor do Seminário da Prelazia, padre José Geraldo, pároco de Brasil Novo, e padre Claret.

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Bispo responsável: Dom Erwin Krautler

Nascimento: 12/07/1939 -Koblach/ Áustria, ordenação

presbiteral: 03/07/1965 - Salzburg/ Áustria.

Sagrado bispo em 25/01/1981 - Altamira - Província

Eclesiástica Belém do Pará.

 

Endereço: Avenida João Pessoa, 1212 CEP 68371-040 - Centro, Altamira - Para - Brasil

 

Tel: 0055.0XX93.3515.1761 - Curia - 0055.0xx93.3515.2494

 

 

Características Gerais da Prelazia

A Prelazia do Xingu foi criada a 16/08/1934, pela Bula “Animarum Bonum Postulat” do Papa Pio XI, desmembrada da Arquidiocese de Belém do Pará e das então Prelazias de Santarém e Santíssima Conceição do Araguaia. Foi confiada pela Santa Sé aos cuidados da Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue de Cristo. 1º Administrador Apostólico: Dom Armando Bahlmann, OFM (1935). 2º Administrador Apostólico: Padre Clemente Geiger, CPPS (1935-1948). 1º Bispo Prelado: Dom Clemente Geiger, CPPS (1948 a 1971). 2º Bispo Prelado: Dom Eurico Krautler, CPPS (1971 a 1981).

 

Superfície: 368.086,0 KM²

População: 392.211 hab

Densidade Demográfica 1,1 hab/km² (baseado em dados do, IBGE - 2000)

 

 Mapa da Prelazia do Xingu

 

MunicípioS pertencentes: Altamira, Anapu, Bannach, Brasil Novo, Cumaru do Norte, Gurupá, Medicilândia, Ourilândia do Norte, Placas, Porto de Moz, São Félix do Xingu, Senador José Porfírio, Tucumã, Uruará, Vitória do Xingu.

 

A Prelazia do Xingu é formada por seis regiões pastorais:

Região Alto Xingu: Ourilândia do Norte, São Félix do Xingu e Tucumã;

Região Médio Xingu: Vitória e Souzel;

Região Baixo Xingu: Porto de Moz e Gurupá

Região Transamazônica Oeste: Brasil Novo, Medicilândia, Uruará e Placas;

Região Transamazônica Leste: Belo Monte e Anapu

Região de Altamira: Paróquia Sagrado Coração de Jesus, Áreas: Perpétuo Socorro e Imaculada Conceição

 

Os municípios de Cumaru do Norte e Bannach são atendidos pela Diocese de SS. Conceição do Araguaia.

 

A Prelazia possui três instâncias de decisão: Grande Assembléia do Povo de Deus no Xingu, Conselho de Pastoral e Coordenação de Pastoral.

 

 

Nesta Seção você poderá baixar arquivos: texto, vídeo ou figuras que tenham relação com o trabalho pastoral na Prelazia, na medida que for sendo disponibilizados pelas pastorais ou agentes de pastoral.

Alguns Downloads poderão ser feitos somente por usuários cadastrados. Caso você seja um Agente de Pastoral e tenha alguma dificuldade entre em contato com o Centro de Pastoral para que faça o seu cadastramento como Agente.