PARÓQUIAS

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PARÓQUIAS E ÁREAS PASTORAIS

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Padre Antonio Claret Fernandes

O retiro anual da Prelazia do Xingu, realizado entre os dias 22 a 26 de julho de 2014 - coroado com a ordenação sacerdotal dos diáconos Romildo e Hortêncio, em Brasil Novo - tem vários marcos importantes, que merecem reflexão. Um deles, porém, é de todo especial.

O local do retiro, Bethânia, com seu simbolismo associado à vida de Jesus de Nazaré, é muito aconchegante; une conforto e simplicidade, num ambiente rústico e rodeado do verde da floresta, do pouco que restou. Nas madrugadas se ouve o ‘canto’ do Guariba e, durante o dia, veem-se pássaros, borboletas e tantos outros viventes que, na sua beleza harmoniosa, convidam à oração.

O retiro conjunto - leigas e leigos, religiosas e religiosos, padres e bispos - é coisa grandiosa! Parece simples, mas é algo raro no Brasil e no Mundo. O comum é o retiro dos ministros ordenados apartados do povo.

Essa convivência é de uma riqueza imensa! Todas e todos, com carismas e ‘funções’ diferentes, pertencentes à mesma Igreja e à mesma Prelazia, estão na mesma barca para o que der e vier, correndo os mesmos riscos, enfrentando os mesmos desafios, celebrando a mesma vitória e rezando juntos.

A alimentação é simples, apetitosa e variada, preparada com dedicação e competência por duas senhoras que, discretas, na cozinha, prestam esse serviço vital aos que reservam um tempo para a meditação.

O alimento da Pessoa, cuja energia busca traduzir-se em serviço, é sagrado. O alimento, quando é fruto partilhado das comunidades vivas, tem o dedo de Deus. É esse alimento, e não apenas algo para encher o estômago, que se põe à mesa, ali, no refeitório.

A organicidade da Programação, quando os participantes se distribuem em diversas equipes de serviços (plenária, refeitório, oração, louça, café e panelas) tem um sentido profundo. Essa prática não traz a lógica da economia, mas da corresponsabilidade e partilha. Trabalhar, participar de tudo que é necessário para o bem estar do ambiente comum, é uma atitude mística. Quão belo é ver alguém, às vezes até meio sem jeito, mas com uma expressão de muito amor, brigando com a panela suja, que cozinhou o alimento servido a todos!

A figura simples de d. Moacir, apoiado pela bengala e pelo carinho de d. Erwin, de Doris e Denise, sempre por perto é algo divino. Por trás da fragilidade de d. Moacir se nota uma energia vigorosa!

As lembranças de d. Luciano, com sua provocação: ‘é ruim ser pobre!’. Ele, que tanto os amou; ele, que trazia na parede de sua residência, em Mariana, as marcas das mãos de centenas de empobrecidos (que o aguardavam, pois sabiam que seriam recebidos!), marcas essas que formavam um arranjo artístico mais valoroso do que o ouro exuberante dos templos barrocos; ele, da altura do seu testemunho, pode mesmo afirmar que ‘ser pobre é ruim’, e desmascarar todo tipo de demagogo, o qual exalta o pobre nos seus discursos, mas não toca nas causas da pobreza, não vive com o empobrecido, não experimenta o seu sofrimento e não sente a necessidade premente de sua liberdade.

Outra coisa importante que aprendi com Moacir foi o sentido da expressão ‘fome e sede de justiça’. O caso contado, sua andança pela estrada erma, a esperança frustrada de ao menos uma banana pelo caminho, a fumaça ao longe, a esperança renovada, os guaribas dependurados feito bebês, o homem viúvo e com gripe preparando a própria comida, a lembrança dos cuidados da mãe, a sua fome que torna aquele almoço a melhor refeição do mundo.

Que Deus nos ajude a ter sempre essa mesma fome e sede de Justiça! Isso pode mudar o rumo de nossas vidas.

O marco mais forte desse retiro, porém, a nosso ver, foram as músicas nas celebrações. As suas melodias, letras, o entusiasmo de quem canta uma realidade vivida, tudo isso revela a memória de uma Igreja unitária e libertadora.

Podia-se respirar, ali, a Igreja querida por Jesus, animada por leigas e leigos, religiosas e religiosos, padres, acompanhada por d. Erwin; igreja vivida, historicamente, no chão da Amazônia, na poeira e no barro da Transamazônica e dos travessões, no leito do Xingu.

Dize-me o que cantas e eu te direi quem és! Uma coisa é cantar ‘como zaqueu’, ‘já deu tudo certo’, ‘noite traiçoeira’, ‘tem anjos voando’. Outra coisa é cantar ‘eu sou como chuva em terra seca’, ‘comungar é tornar-se um perigo’, ‘derruba os poderosos dos seus tronos erguidos com o sangue e o suor do seu povo oprimido’.

O primeiro bloco de música, tão comum nas igrejas hoje, é intimista, não diz nada da vida, do cotidiano, e cada pessoa resolve os seus problemas com o seu deus. O segundo revela o Evangelho refletido e testemunhado, supõe a existência da comunidade, canta a caminhada desafiante e libertadora do povo, sinal do reino de Deus já presente.

O primeiro não parece coisa de Deus. O Segundo é a ação de Deus na história.

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Na manhã do dia 29 de julho, às 9:12, uma pessoa anônima enviou mensagem eletrônica injuriosa para Antônio Claret Fernandes, padre na Prelazia do Xingu, membro da Comissão Justiça e Paz Brasil Novo e do Movimento dos Atingidos por Barragens, usando palavras afrontosas e de baixo calão.

 

Esse ataque tem como motivação imediata a insatisfação com o Ato Público realizado por um conjunto de entidades na manhã do dia 28 de julho, na BR 230 (Transamazônica), próximo à cidade de Brasil Novo, em função dos frequentes acidentes, reivindicando do DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – quatro quebra-molas para o trecho da Rodovia no  perímetro urbano de Brasil Novo e sinalização definitiva desde Altamira até Medicilândia.

 

Para além dessa motivação imediata, acreditamos que esse ataque está associado a um contexto mais amplo de luta por direitos e por políticas públicas na Região de implantação da barragem de Belo Monte.

 

As entidades que participaram do Ato Público pela Paz e Segurança no trânsito (28/07) interpretam esse ataque como ameaça e tentativa de intimidação, buscando calar a voz do povo organizado e de seus líderes para desmotivar sua luta justa. Por isso o repudiam com toda a veemência.

 

Essa postura anônima covarde e ameaçadora deve ser esclarecida e combatida, pois reforça a negação de direitos na área de implantação do projeto Belo Monte, até o momento, carente de políticas públicas elementares.

 

Altamira / Brasil Novo, 30 de julho de 2014

 

 

Erwin Kräutler

Bispo do Xingu

 

Veja a nota original em pdf

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No dia 20 de fevereiro de 2017 em Brasil Novo realizou-se a Missã em ação de graça pela Reinauguração da casa e início do ano letivo de 2017 no Seminário São joão Maria Vianney etapa propedêutico.

A missa foi presidida por Dom João Muniz Alves e co-celebrada por Pe. Vandeir Lima Alves (Vigário Geral), Pe. José Geraldo Magela(pároco de Brasil Novo), Pe. Hortêncio Medeiros Matias(reitor do seminário), Pe. Fritz Satzger(Paróco Nossa Senhora do Perpétuo Socorro), Pe. Lucas Fuertes Rodriguez (Nossa Senhora do Perpétuo Socorro) Pe. João Bosco (Chanceler da Prelazia do Xingu), Pe. Romildo Maurício Silva (pároco da Paróquia Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos).

Estiveram presente a comunidade católica de Brasil Novo, autoridades municipais: o prefeito de Brasil Novo: Alexandre Lunelli e vereadores, religiosas das Congregações Franciscanas de Penitencia e Caridade Cristã, Franciscanas de Ingolstadt e Adoradoras do Sangue de Cristo, como também jovens da Pastoral da Juventude, Seminarista Gilberto (Igreja Irmã de Porto Alegre-RS e representantes da Fraternidade São Francisco – Ordem Franciscana Secular e equipe do Centro de Pastoral da Prelazia do Xingu.

Após a celebração todos partilharam um momento de confraternização com um delicioso café da manhã.

Os trabalhos no ano de 2017 iniciarão com o acompanhamento a 4 seminaristas: Gabriel Matos Pinheiro (Porto de Moz-PA), Antônio Marcos Oliveira Ferreira (Medicilândia-PA), Vinícius Oliveira Gomes (Brasil Novo), Francisco Edvan Brandão(Brejo Santo-Crato-CE) acompanhados por Pe. Hortêncio Medeiros Matias reitor do Seminário e promotor vocacional.

Que todas comunidades possam voltar suas orações para esse trabalho de formação sacerdotal aos futuros ministros ordenados de Cristo como também a solidariedade e partilha na sustentação dessa obra que é o Seminário São João Maria Vianney – Etapa Propedêutico e Ensino Médio em nossa Prelazia.

O Seminário São João Maria Vianney-Etapa Propedêutico, Pe. Hortêncio Medeiros Matias e os seminaristas estão abertos a acolhê-los com suas orações, apoio e solidariedade a causa vocacional. (Por Dóris - Centro Pastoral)

 

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afirma bispo do Xingu durante festa em Brasil Novo
Muitas centenas de pessoas participaram da festa de Corpo de Deus na Paróquia em Brasil Novo PA, Prelazia do Xingu, dedicada ao Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. A concentração ocorreu às 9 horas, na Transamazônica, quando foi lembrado o processo violento de construção dessa rodovia, desde a matança dos indígenas até as pessoas que morrem hoje, vítimas de acidentes. Foi lembrado também o aumento da violência contra crianças e adolescentes em Brasil Novo como reflexo da implantação da barragem de Belo Monte.
 
A celebração da Eucaristia, que veio acontecendo durante a procissão, reuniu todo o povo na Quadra Poliesportiva da Paróquia, que ficou lotada.
Durante a homilia, d. Erwin, bispo do Xingu, afirmou que os agradecimentos a Deus não podem esquecer a paixão de Jesus Cristo e de tantos que vivem hoje ainda crucificados: indígenas, colonos e tantos outros que são hoje expulsos de suas terras.
 
Lembrando a Copa, argumentou que se gastam milhões com estádios, alguns dos quais serão elefantes brancos, enquanto políticas públicas elementares (saúde, educação, transporte) são muito precárias. E disse que podemos torcer para o Brasil ser hexacampeão, mas precisamos mesmo é trabalhar para o ‘Brasil ser campeão em Direito Humano.
Além de d. Erwin, estavam presentes os padres Alírio – Área Pastoral do Assurini, Gilmar – Medicilândia, Claret e Geraldo – Brasil Novo e o Diácono Romildo – Anapu.
 
No dia 26 de julho, novamente as comunidades da Paróquia Corpo e Sangue de Cristo vão se reunir para a ordenação sacerdotal dos diáconos Romildo – filho de Brasil Novo e Hortêncio, natural de Medicilância.
Por Antonio Claret Fernandes.
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*Por Claret Fernandes

 

A velocidade imposta pelo capital nas suas prioridades atropela tudo que encontre pela frente, desde gatinhos que miam de medo até tigres consideráveis. Engole-os, chuta-os com as balas de chumbo ou os engambela com migalhas de balas de açúcar ou apenas com promessas vazias.

 

A barragem de Belo Monte é um caso típico dessa atrocidade desde o início do seu processo de implantação, sem as oitivas indígenas como manda a Constituição brasileira, com uma Licença de Instalação parcial, coisa totalmente exótica no licenciamento ambiental, e, agora, com a construção de casinhas de concreto em Altamira e começo da expulsão de famílias das baixadas, onde moram atualmente.

 

A velocidade vai a jato! Constrói-se a casa num dia e, em alguns segundos, destrói-se a antiga moradia, no ritmo da sede de antecipação do lucro pela geração e comercialização de energia numa hidrelétrica cuja construção foi decidida por impérios econômicos transnacionais imiscuídos no Estado brasileiro e financiada com dinheiro público.

 

Na abertura da II Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, iniciada em Havana ontem (28), Raul Castro defende que ‘os países da América Latina e Caribe devem ser soberanos na prerrogativa de exploração dos recursos naturais’. Essa advertência de Castro calha bem em especial para o setor energético no Brasil, nas mãos do capital financeiro internacional.

 

Mas o dia da expulsão do alagado em Altamira é como um oásis em meio a esse padrão histórico de violação ao direito humano na construção de barragens. Só na aparência, o que o torno ainda pior. É como um porco do qual você cuida com ração de primeira qualidade para abatê-lo em tempo recorde e transformá-lo numa carne apetitosa. É como o bandido que, tendo enfiado a faca na sua vítima até as entranhas, sem dó nem piedade, lhe promete morte indolor, sedando-a, arranjando um último argumento para a sua própria defesa no tribunal.

 

O dia da expulsão das famílias das baixadas em Altamira é um oásis no deserto, uma espécie de morte sem dor, que durará até que seque a pouca fonte de água ou até terminar o efeito do anestésico.

 

A dor sedada fica incubada, e vai incomodar muito no dia seguinte. Importante dizer que essa dor, se for doída demais, incomoda o atingido; mas, também, podem sobrar umas caneladas para os que hoje se acham em cima da carne seca, impondo a hidrelétrica com arrogância e sendo, eles mesmos, critério absoluto do certo e da verdade.

 

A dor, quando é sentida demais no estômago e na cabeça, não respeita limites. E qualquer império pode desfazer-se em fração de segundos.

 

Os golpes primeiros foram dados há muito através de relatórios e mais relatórios encaminhados ao IBAMA, com decisões de bastidores. Destinos traçados em documentos sigilosos! Hoje a empresa ‘sabe’ mais do atingido do que ele próprio. É claro que isso o põe numa situação vulnerável.

Claro ainda que no início muita gente gosta dessa ‘solução’ por forças ocultas, crendo que alguém vai resolver o seu problema crônico. Esse é um dos vícios de nossa sociedade: crer que um salvador da pátria ou que alguém puro de espírito altruísta vai resolver o nosso problema! Mas essa fé vai diminuindo, diminuindo, até afunilar-se por completo no dia seguinte à expulsão transmudada em favor.

 

A dor da expulsão é traumática demais, por isso o dia precisa ser tão especial! E faz do dia seguinte um tempo tão arriscado, conflitivo, com potencial de desencadear um processo libertador.

 

A pessoa é tirada de sua casa e colocada numa outra em cuja construção não pôde dar nenhum ‘pitaco’: a família não escolheu o local, não decidiu o tamanho da casa, a sua planta, nem se deveria ser de alvenaria ou de concreto. Isso equivale à pessoa ser obrigada, por enquanto, a saltar num abismo sobre os braços de um estranho.

 

O aparato montado para cercar a família de todos os cuidados é admirável. Uma equipe lá dos escritórios com ar condicionado, sob a batuta da Norte Energia, cuida de selecionar a família e de agendar o dia de sua mudança. A família é escolhida a dedo, após estudo minucioso, e avisada com dois dias de antecedência para preparar-se. Não é qualquer família que pode ir quando bem quer.

 

A expulsão sumária, nessa circunstância, soa como prêmio. Aquela família, antes que as outras, vai pisar na nova área. Aquela, que sempre tivera o direito negado pelos governos e pelo Estado brasileiro, é agora contemplada por uma empresa privada, numa espécie de privatização da política pública. Aquela, justamente aquela, é premiada, com tantas outras que, igualmente morando no alagado, também por causa dos direitos históricos negados, vão sair sem casa (ainda) que de concreto e sem nenhuma indenização porque estão fora da lista de atingidos pela barragem.

 

Um exemplo são os carroceiros. Eles somam 130 pais de família e garantem a subsistência de aproximadamente 600 pessoas. O trabalho de carroça é histórico em Altamira, com mais de 70 anos. Com o processo de implantação de Belo Monte, a vida deles ficou complicada: os fretes diminuíram, o trânsito virou um caos (apenas em 2013 houve 13 acidentes com carroça). O carroceiro que chegava a tirar R$ 200 por dia hoje ganha R$ 400 por mês. Apesar disso, não são reconhecidos como atingidos pelo IBAMA.

 

No dia da expulsão, com tantos cuidados, alguma família pensa que há outras tantas fora da lista e se sente privilegiada.

 

Não é por coincidência que as primeiras treze famílias retiradas dos alagados, do dia 15 de janeiro até hoje, são as famílias mais lascadas, às quais mais se negou direito.

 

Isso faz parte de uma grande orquestra, que ensaiou durante muito tempo e, agora, precisa tocar em tom suave. A música que rola no senso comum e na imprensa é que a família do alagado está melhorando de vida.

 

Selecionada a família, o dia fatídico com gosto de prêmio é agendado. Aí uma segunda equipe e duas empresas terceirizadas, a Granero e a CNEC, entram em ação.

 

A equipe vai até o endereço indicado no documento. São números, não pessoas! São objetos, não gente! Mas são objetos preciosos, que demandam, ao menos nesse dia, cuidados especiais. A área do alagado precisa ser limpa para a elite ocupá-la em nome do lago.

 

Os funcionários da empresa ajeitam tudo. Há móveis que se desmontam com um toque de nada. Colchão, fogão, um sofá, uma rede, tudo vai sendo colocado no caminhão. Cachorro, gato, tudo pode ir junto. Crianças, que são muitas no alagado, vão num carro à parte, muitas vezes sem a presença de um pai. Quantas nem sabem quem é o pai!

 

O dia da mudança é o dia da mudança! O pedido da família é (quase) uma ordem! Se um menino espirra, vem logo alguém com um remedinho para livrar-lhe até do sintoma da gripe. No dia seguinte, essa gente dos remedinhos e dos cuidados vai toda embora.

 

Como é tudo uma questão de aparência, muita coisa preciosa no sentimento, ainda que carcomida do tempo, desaparece nesse dia.

 

Lembra-me Maria Amélia, atingida pela barragem de Emboque, em Minas Gerais. Sua casa também fora derrubada, com muita prepotência, sem poder levar nada. ‘Queria pegar ao menos a janela, ela era madeira boa’, disse.

 

A agressão aos sentimentos das pessoas deixa marcas profundas, que se revelam no dia seguinte.

A mudança da família expulsa do alagado segue para ajeitar-se na moradia nova. Uma equação difícil! Como colocar móveis numa casa que não foi preparada para recebê-los? Como colocar as crianças, que em geral são muitas, nos poucos quartos apertados. É como a mão grande que precisa enfiar-se numa luva pequena. As casas são todas iguais, na planta e no tamanho (63 m²) e as famílias são diferentes umas das outras. Por isso é uma equação difícil!

 

Nessa hora o coração acelera, e dá sinais de alguma angústia, e começa a bater o sentimento de que gente é feita para a liberdade na luta. Aqui entra uma nova equipe para tentar apagar qualquer semente de rebeldia, qualquer ‘razão’ para reclamo: a equipe de acolhida, especialmente preparada para sorrir. Então o coração aflito prefere calar-se. Sobrepõe-se, ao menos por enquanto, o sentimento de que ‘vale mais um pássaro preso do que dois voando’.

 

A equipe de acolhida até ajuda numa coisa e noutra. Sua função mais importante, porém, é não fazer absolutamente nada. Apenas sorrir!

 

Famílias habituadas a levar cascudos do sistema todos os dias por ser empobrecidas, agora, ao menos no dia da mudança, recebem largos sorrisos. Isso meche com elas por dentro.

 

O alimento chega a tempo e à hora. É dia de mudança! Vem o lanche, o almoço e, se precisar, também o jantar. A criança recebe atenção, talvez um brinquedinho. Tudo fica às mil maravilhas!

 

À entrada da nova casa, a família recebe a chave e um manual de instrução.

A chave lhe dá uma sensação de poder, de posse, de decidir quando abre e fecha a porta de sua moradia. Dá também uma sensação de privacidade. Mas esconde o fato de que a morada está numa área totalmente controlada pela empresa. É um ‘poder’ submisso a uma força imperialista, com cancela na entrada do loteamento e com a Força Nacional dentro do canteiro das casas, que está apenas no início das obras.

 

A família recebe um manual de instrução e nem lhe dá tanta importância, pois sua vida até então não precisava desse papel. Certamente o deixará depositado em um lugar qualquer!

O manual de instrução serve mais à própria empresa do que à família. Ele é a bacia de Pilatos, onde a Norte Energia lava as suas mãos. A prova do crime, pois ele só existe por causa da fragilidade da nova moradia, vira uma espécie de salvo-conduto da própria empresa.

 

A partir desse ato, através do qual a empresa informa à família a necessidade de cuidados especiais da casa de concreto, a responsabilidade cai nas costas da família.

 

É uma diferença grande que ocorre, embora no dia da mudança seja imperceptível, quando tudo fica sob a tinta fresca e os sorrisos ensaiados. Na morada antiga, alguém da própria família ou um parente fazia um puxado, ajeitava uma tábua solta, colocava água, ligava uma luz, tudo sem nenhum custo. Agora não! O manual de instrução é que ‘manda’. A pessoa não pode fazer nenhuma intervenção sem a contratação de mão de obra qualificada. E isso fica caro!

 

Mas com tanto chamego, com profissionais adestrados nos bancos de universidades preparados para agradar e vender carinho para quem, talvez, não o tenha recebido de graça, o dia da mudança é dia de glória, quase a realização de antigas promessas de Belo Monte como a redenção dos povos do Xingu.

 

A trama toda é muito bem montada, e engana até bons espíritos. Cleide, da Casa de Governo, conta que viu, pessoalmente, a família recém-expulsa sorrindo na nova casa, enfiada numa casa de concreto. A família sorri mesmo, com tudo que a rodeia nesse momento. Em um dia. Mas, conforme afirma o ditado, ‘angu de um dia não engorda cachorro’. E há muita gente no alagado que não está disposta a trocar sua moradia ampla, bem construída, até de 120 m², por aquelas casinhas. Por isso, o dia seguinte é incerto, mas traz também a possibilidade da organização.

 

O sorriso de ambos os lados (empresa e família) não significa garantia do direito e das políticas públicas ainda que as mais elementares. Não significa também que as coisas estejam tranqüilas. É um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento.

 

Até aqui a Norte Energia e governo federal têm atuado como corpo de bombeiros, apagando pequenos incêndios. E tocando as obras lá embaixo, na Volta Grande do Xingu. Mas esses apaziguamentos ensaiados e forçados negam o direito e só adiam o conflito, que poderá caminhar para a completa barbárie ou para um processo organizado, esse sim, capaz de garantir a liberdade soberana até agora negado.

 

Enquanto a Norte Energia entretém umas poucas famílias extremamente empobrecidas no Jatobá, como o bandido que alicia o cão-vigia com um pedaço de carne para saltar o muro do outro lado da casa, outra equipe se encarrega de destruir tudo no local da ‘antiga’ moradia, não deixando tábua sobre tábua.

 

É recorde sobre recorde! Gasta-se em média um dia para construção de uma casinha de concreto, que tem vida útil de cinco anos, e se destrói uma casa de madeira, que pode durar algumas dezenas de anos, em poucos segundos.

 

No alagado não há sorriso! O trator entra e, com seu bufado, leva tudo ao chão. Os operários de empresa terceirizada da Norte Energia despregam tábuas, retiram madeiras, encostam o caminhão e, o que era uma casa, agora entulho, vai tudo para o lixão para ser incinerado.

 

Com os destroços, é muita história que vira cinza e fumaça. Mas fica a semente da indignação, o combustível da mudança.

 

Três cenários, assim, se descortinam. No Jatobá, sorrisos e amabilidades cercam as famílias no dia da mudança, mas, no dia seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte, só Deus sabe. Casas, ruas, contenção de encostas em tempo de inverno, tudo feito às pressas, na velocidade exigida pelo capital de olho na obra civil da barragem, é coisa sem futuro. Além de insegura, a vida no Jatobá vai ficar cara, com a conta de água, de luz e outros gastos. Além da vida insegura e cara, faltam equipamentos de políticas públicas elementares como saúde e educação.

 

No alagado, de onde as famílias são expulsas, o dia da mudança é marcado pela destruição. Uma área historicamente abandonada pelas autoridades, porque ali moram empobrecidos, agora será tratada como a menina dos olhos, e muito cobiçada. Ali haverá bosques, ciclovias, cais, área nobre de bacanas.

 

A expulsão pelo lago, em si dramática, tem a motivação subjetiva de limpeza social, de preconceito. O mesmo sistema político e econômico neoliberal que sobrevive do trabalho da classe trabalhadora e dos bens naturais destrói a natureza e expulsa os trabalhadores empobrecidos.

 

O primeiro cenário vai do sorriso ao abandono no Jatobá. O segundo cenário vai da destruição nos alagados à pretensão de construção de espaço para bacanas. Mas o terceiro cenário é o dia seguinte. O mais importante! Se ele for se materializando em rebeldia organizada, pois nenhum povo é bobo, a prepotência terá seus dias contados. O povo triunfará!

 

*Missionário na Prelazia do Xingu e militante do MAB.

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Padre Miguel faz reflexões diárias a partir da leitura da Palavra de Deus.

Breve histórico:

Nome completo: Michael Rohde, Missionário do Sangue de Cristo -CPPS
Nascido na Alemanha parte ocidental, na região Norte, interior de uma vila pequena localizada no meio entre Frankfurt e Hannover.
Entrou no seminário 1985, foi ordenado diácono 1992 e trabalhou um ano e meio numa paróquia na Baviera perto da fronteira com Áustria, 50 km distante de Salzburgo onde eu estudou.

Em1993 foi sua ordenação sacerdotal. Por dois anos trabalhou como vigário numa paróquia perto do Lago de Constância na fronteira com Suíça. De 1995 a 2000 trabalhou como formador e professor no Colégio da congregação na região de sua origem (5 km distante da casa de seus pais). Era o local onde passou seu tempo escolar. Tinha que cuidar dos jovens que ficavam internados e voltavam para suas famílias só no final da semana. Em 2000 fecharam esta parte do internato do colégio e assim ficou livre para vir para o Brasil. No ano 2000 cursou de língua Portuguesa no CENFI em Brasília. 2001 e 2002 trabalhou como vigário no Perpétuo Socorro e na Catedral na cidade de Altamira. 2002 até 20012 reitor do seminário de sua Congregação em Ananindeua. Desde então, voltou a trabalhar como pároco do Perpétuo Socorro em Altamira.